sábado, 1 de setembro de 2012

POV

Inesperadamente, no meio da noite, me veio um estalo: aqui eu tenho mil histórias.

E eu poderia escrever cada uma delas. Algumas poéticas, outras dramáticas, quem sabe um grande romance em meio a outras tantas comédias...

Foi quase cena de filme o modo como eu percebi onde estava. Em pé, sabe-se lá por quantos minutos, congelado, ouvindo, sentindo o cheiro, olhando tudo. O toque e o paladar ficam por conta do guardanapo no copo e do bourbon. Tudo começou a girar, uma visão 360°, ou será que era eu que estava virando no meu eixo sem nem perceber?

Na mesa da frente o amante troca mensagens de celular com a moça casada da próxima mesa, que olha atentamente o amigo do marido ausente na mesa do canto. Na mesa do amigo, o casal que toca suas mãos por baixo da mesa, escondido, e disfarça tão mal. Logo atrás, no balcão do fundo, o cara escroto que fuma seu cigarro com cheiro esquisito, lembrando até a boa e velha marijuana, enquanto o artista sem glória vomita elogios à sua própria carreira pseudo-vitoriosa. Logo à frente, pais de família fazendo tietagem desnecessária, ficando a meu cargo atribuir a uma politicagem barata ou à arte de ser imbecil, enquanto dois pombinhos escolhem a mesa mais escura do salão pra poderem fingir privacidade. Ouço risadas, e quanto vejo há uma mesa de jovens fazendo a grávida da mesa mandar tequila pra dentro, e ela cumpre, ao passo que no fundo do corredor, a moça bonita tenta literalmente escapar das garras daquele tipo de homem menino que não tem papo, então agarra direto [e ainda usa força!] sem dar chance de ouvir um "não". 

Uau!

Minha noite foi mais longa do que pareceu, afinal, para cada quadro - em minha cabeça - se formou o contexto todo, trajetórias que os levaram até ali, e futuros modificados partir de então.

Será que adianta produzir assim, no meio da confusão? Ah, se eu tivesse poder de decisão...

E por fim, ir embora se torna a melhor das histórias: solidão não é melhor nem pior, quando se tem pessoas em volta. Observar e imaginar acaba sendo, sim, até melhor que viver.

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