quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Com mais de trinta

Ouvi essa música e pensei: É o tipo de poesia que vestiu minha caneta e papel. Eu teria escrito isso tudo. Antes.


Não confie em ninguém com mais de trinta anos
Não confie em ninguém com mais de trinta cruzeiros
O professor tem mais de trinta conselhos
Mas ele tem mais de trinta, oh mais de trinta
Oh mais de trinta
Não confie em ninguém com mais de trinta ternos
Não acredite em ninguém com mais de trinta vestidos
O diretor quer mais de trinta minutos
Pra dirigir sua vida, a sua vida
A sua vida
Eu meço a vida nas coisas que eu faço
E nas coisas que eu sonho e não faço
Eu me desloco no tempo e no espaço
Passo a passo, faço mais um traço Faço mais um passo, traço a traço
Sou prisioneiro do ar poluído
O artigo trinta eu conheço de ouvido
Eu me desloco no tempo e no espaço
Na fumaça um mundo novo faço Faço um novo mundo na fumaça
Não confie em ninguém...


Marcos Valle

sábado, 22 de dezembro de 2012

Mesa amarela nº 12. Ou 14.

O que será que aconteceria quando aquela possibilidade que sempre parecera tão terrível, destruidora, temível, aquela que mudaria todo o futuro para pior, que atrairia os olhos de repugnância e desprezo, começasse a ser interpretada como um fato normal? Um evento cotidiano, como a escolha (desde agora, tão mais importante!) entre a camisa azul e a vermelha. 

Aquilo que sempre foi colocado como prioritário, que sempre fez transformar simples proletariados em agentes secretos, psicólogos, hipnotizadores e manipuladores de mentes, donos do tempo, donos da verdade, o que mais? Não importa. Mas e se não fosse mais prioridade, então? Se todos os riscos envolvidos se resumissem a um dano qualquer. Levar ou não o guarda-chuva? É deste poder de escolha que estou falando.

O raciocínio apareceu quando devia. Ontem um "Ensaio" de Saramago, amanhã uma maratona de "Bergman", ambos com a potência de uma avalanche trazendo aquela sensação esquisita dO Vidente: "I made a mistake". O efeito é o mesmo.

Eu não me lembrava mais de como era sofrer o efeito de uma sensação alheia a mim.

Agora toda esta subjetividade e prolixidade - que felizmente não podem ser evitadas - apresentam a nova face, e a possibilidade de entrar na estatística, de sair da esfera, de voltar a um mundo de confusão, insensatez, compromisso e irresponsabilidade, divisão, paixão, madrugada, Coca-cola, sentido figurado. Um mundo de estranhez que sempre, sempre me acolheu tão bem.

Entendo, então, quando diziam sobre perder o brilho em poucas semanas. Acaba-se a energia, a força, o interior. Fica o que é visível, e isso definitivamente nunca importou, pra ninguém. Quem se importa com algo que se pode ver mas não saber o que é?