quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Por extenso

A vida passa em preto e branco
Do lado de fora, pela janela
Decisões erradas
Céu desabando
Chora, enche a represa
Desaba sobre mim
Eu, que por mim
Já vou bem devagar

Nunca fui de fugir
Mas sei quando não vou vencer
Sei onde não sou rei
Por isso nunca vou lá
E a hora está próxima.

Trilhas e míseras estradas
De terra, de chão batido
Levam ao thriller
Filme de terror
Lamaçal, esconderijo
Retiro.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Velho vício

O perfume provocante
Impregnado em meu cachecol
Os fios dos teus cabelos
Colorindo meu lençol

Tua boca e olhos grandes
Teu sotaque, teu cuidado
Em me fazer o mais feliz do mundo

Teu esforço, tua vergonha
E essa forma de prever o futuro
Resolvendo meus problemas
Tudo em nem cinco minutos

Tua forma de ir embora
Sem deixar nenhum vestígio
E me fazer ir, noite afora
Pra te ter ali comigo

E é claro que eu vou te procurar
Vou até você
Não vou nem chamar
Elas sabem que sou teu
Então nem vou precisar
E é claro que eu vou te compensar
Pois já está valendo tudo
Apostei as minhas fichas
Só não me diga a verdade
Vem aqui pro nosso mundo

sábado, 10 de agosto de 2013

Manhattan

Sem emaranhados ou atropelamentos
É bem melhor falar
É bem melhor ouvir
O mais que a gente puder
Lá fora já está um silêncio
[será que a guerra acabou?]
Apenas murmúrios, balelas
Aqui dentro uma enchente
Aí dentro, câmara de gás
Porém, cá, em nossa mesa
Só lagrimas sinceras molhando o chapéu
E se a guerra acabou mesmo
Nossos muros foram derrubados
Pelas bombas de nossos rivais
No lugar, puseram grades
Dessas bem espaçadas
Já dá pra ver do outro lado!
Ainda que aqui de longe
Tento ver, e consigo
Seus problemas desde a infância
Deixo você ver também
Agora que já é adulta
Meus pesares de adulto
Misturamos os cheiros
Que passam de lá pra cá
E se os muros pareciam duros
Por detrás, ainda, os escudos
Hoje o que fecha as grades
É um grande cadeado
Vamos achar a chave?
Ou estourá-lo também?

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Mistura

Já que estou meio bêbado
Já que estou é bem bêbado
Não me faça falar de amor
As vezes até consigo
Tá bom, eu sempre consigo
Mas não me deixe pior

Cuida sim do teu quase-carinho
Me deixa aqui com meu sonho
Eu cuido do nosso sonho
Eu guardo tudo em segredo
Depois me manda o convite
Por mais que isso me irrite
E me faça quebrar vidros
Eu limpo tudo depois

Vou digerir sua indiferença 
Sua frieza, sua carência 
E vomitar tudo aqui, a lápis 
Já que você nunca é a mesma
E decifrar não me serve mais
Suas mãos não me cobrem mais
Desde uns minutos atrás
Que eu não sou mais seu






sábado, 3 de agosto de 2013

Wide shut

Há um quê de se medicar em sentir o tal do prazer na dor.

Dor de saudade
Dor de ciúme
Dor de uma perda
Ou traição
Ou frustração
Ou desrespeito
Intuição
Expectativa
Pressentimento
Provocação
Inibição
Ira, tensão
Contra o destino
Contra os horários
E desencontros
Complicações
Contravenções
Ouvir menções 
E se calar.


Há dor em tudo. E assim, prazer.
A formula da lágrima não foi manipulada. Remédio natural, nos foi dado. Obrigado!

Chorar é gozar no êxtase.

De uma dor.



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Soma

O encanto faz palpitar o coração;
O medo faz chegar mais longe, o encantado;
A paixão faz sentir tesão, o homem, a mulher;
O ciúme faz descer do salto, o apaixonado;
A obsessão faz sair do controle, o inseguro;
A insegurança faz perder o que ja tinha, o obcecado;
A sensatez faz estar no controle, o amedrontado;
A confiança faz desarmar-se, o ciumento;
As palavras fazem bem enganar, o inseguro.

Entao não venha me falar de soma. Para quê serve o amor?

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Homeopatia


Como uma droga ou um vício qualquer, funciona simples: sei onde está, como e com quem encontrar, e após dez anos (10 anos!) de consumo ininterrupto aprendi finalmente como usar e fazer de verdade a cabeça.

A música me é mais forte que qualquer outra forma de prazer. [e olha que, quem me conhece, sabe como eu lido com o prazer]

A cena corre leve: chega a hora de começar. Nos bastidores, todos preparados com o figurino já a postos, conversando ansiosos. Disfarçando a tensão. E então todos se abraçam, mas não em grupo, se abraçam um por um: "Bom show", ou uma mensagem de força que preferir. Eu sempre gostei mais de "Vamos arrebentar!". Até agora, tem funcionado.

Subimos então, e as luzes se apagam. Existem alguns segundos necessários após a música ambiente parar e antes do som começar, preenchido sutilmente pelos sussurros e comentários. Não posso ouvi-los com clareza, só sei que estão ali.

O espaço entre os primeiros acordes e o "Muito obrigado, até a próxima!" é sempre enigmático.

Faço o exercício de emendar a noite, tomo dezoito cafés, escrevo dezenove páginas, penso em tudo vinte vezes. Eu não quero dormir, eu não posso dormir, exatamente por saber que - tal qual um doce qualquer - a rebatida do dia seguinte é fulminante. 

Por que essa dor que me dá vontade apenas de pegar a estrada e seguir rumo ao próximo show? Por que as harmonias que delicadamente inverto me fazem pensar nela e me sentir, agora, tão só? 

Desde o primeiro abraço sinto falta daqueles olhos ali embaixo. Mas não é só isso, e sim é o êxtase ao contrario, a euforia garganta afora. Jogo fora, não resolve.

Deus me encha de força e acalme meu coração. Dai-me a fortaleza que sou e a frieza que tenho em momentos de ameaça, e ajude-me a atropelar a dor do dia seguinte. A bad trip, como chamariam os mais jovens. 

Crianças, vocês ainda não chegaram nem perto da parte bad. Alerto: prefiram onde estão.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Amor pra recomeçar



Te desejo, vez em quando na vida, últimos capítulos de novela. Todos se desculpando, quem era durão agora podendo chorar e os amores que não deram certo durante estes meses, que finalmente se tornem casamentos.
Inclusive o seu.
Desejo que você continue com seus escudos, e até os melhore, mas que vá a partir de agora aprendendo a usá-los nos momentos certos, e a derrubá-los no chão quando der. Só aviso que para isso vai ter que apanhar muito de cara limpa, e peço que não tenha medo.
Desejo não estar por perto quando isso acontecer. Ainda me machuca ver você se machucando e ter que deixar acontecer.
Rezo para o meu Deus pedindo que você não caia nestas armadilhas perigosas que estão aparecendo [às vezes, tão bem disfarçadas só pra ti]. A gente não tem tempo suficiente pra errar todos os erros do mundo, então que você pegue este clichê e anote bem os erros dos outros.
E que todo este veneno que injetam em ti entre em suas veias, e te faça mais forte, e que você se encha de toda a parte má. Só é possível ser uma boa pessoa quando se sabe do que o mal é capaz, e isso é tanto, tanto.
Você está no ápice da melhor parte, na metade da pior parte, no terço das consequências, no quarto da sabedoria. Saiba disso, mas não pense nisso.
Toda essa intensidade e não-comemoração se dá pela distância, entenda bem. Entenda que te quero bem e que me incomodam muitas coisas. Faz tempo que adquiri minha liberdade, e você está começando agora. Você demorou tanto pra chegar que me prendi, e agora é hora de começar tudo de novo. Onde, se não aqui? Quando, se não agora?
Se não te desejo luz, paz, dinheiro, que você realize todos os seus desejos e tudo mais, você saberá bem porque. Guarde bem o que é dos outros, traga-me sua melhor parte, que o que é seu já está aqui.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Letras certas em momentos tortos


Já tive que ir a missa obrigado, já tentei ser um homem casado
Já aprendi a fingir meu sorriso, já fui sincero e já tive juízo
Já troquei de lugar minha cama, já fiz comédia, eu já fiz drama
Já ouvi cada voz que me chama, eu já fui bom e já tive má fama
Já fui ético, antipático, fui poético, fui fanático
Fui apático, fui metódico, sem vergonha, fui caótico
Eu já li paulo coelho, eu já escutei tudo que era conselho
Eu já preguei o evangelho, cheguei a achar que eu era velho
Já fiz tanta coisa que nem me lembro do que eu era contra ou fui a favor
O que me dava prazer, hoje só me dá dor
Nunca aprendi o que é o amor
E ouvi uma voz, que diz: "não há razão"
Você sempre mudando já, não muda mais
E já que estou cada vez mais igual
Não sei o que fazer comigo
Já chorei de tanta mágoa, já fiz tempestade em copo d'água
Já tentei a sorte na gringa, já aprendi que não tenho ginga
Eu já votei em tucano, já fui ovo lacto vegetariano
Insano, já fui santo e profano
Fiz na sua frente e por baixo dos pano
Já estudei teologia e não creio mais naquilo em que cria
Já sofri de claustrofobia, de teimosia e cleptomania
Já provei, já fumei, já tomei, já deixei, assinei, viajei, já peguei
Já sofri, já iludi, já fugi, já assumi, fui e voltei, afirmei e menti
E com toda essa falsidade, minhas mentiras já são verdades
Já tive de tudo o que queria, e já me contentei com mixaria

Já fui em cana, já tive grana, passei rasteira em muito bacana
Opinei e me equivoquei, nunca assumi pra ninguém que errei
Sem diploma, nem salário, já fui sócio majoritário
Já escrevi tanto nome no braço, eu já preenchi tudo que era espaço
Fui psicólogo, fui astrólogo, já fui leigo, fui enólogo
Fui alcoólatra, fui atleta, fui obeso e já fiz dieta
Já cuspi e mandei pro caralho, o lugar onde hoje eu trabalho
E agora eu só me distraio fazendo versão de rock uruguaio

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Overload


Estou cansado de mim mesmo. Esgotado de ser quem sou. Irritado com o som da minha própria voz.
Não obstante, isso não se deve ao mundo. 

O mundo não me pede satisfações porque fujo bem.
O mundo não me conhece direito porque minto bem.
O mundo não me traz conselhos porque disfarço bem.
Por fim, o mundo não me cobra. Também porque já sei fazer isso bem, muito mais e com muito mais ímpeto do que deveria.

Estou cansado de mim mesmo, tortura por autobiografia.

Meu dia-a-dia é trazer sensações boas às pessoas em forma de nostalgia. Resgato emoções e as transformo em sorrisos, arrepios, palmas, bilhetes de papel.

E para fazê-lo direito, fui usado como cobaia durante a criação. Era o único jeito de saber se funcionaria mesmo.
Foram fotos, discos, livros, 
lugares, vistas, viagens, 
cheiros (ah, os cheiros!), marcas, beijos,
comidas, bebidas, emails,
tudo revivido assim, 
de forma mais física, impossível.
Funciona, reviver uma retrospectiva - quando se pode, somente, assisti-la - é de se suspirar.

Contudo não escapei do que parece ser uma overdose de mim mesmo.  Agora basta: chegou o tempo do silêncio.



quinta-feira, 4 de julho de 2013

A casa e a vista do nascer do sol.

Interior de Minas gerais, Junho de um ano qualquer. Seis e pouquinho da manhã...



 - Ai, menino, de novo essa música?
 - Não é demais, guria?
 - Não! Hunf...quero dormir
 - Tá bem, mas vai ter que dormir ouvindo a Sinfonia Inacabada
 - Morra, Schubert!
 - hahahahah, vem pra cá vai, olha essa vista do sol! Tem café aqui também
 - Hum, café?
 - O meu, ainda, imperdível.
 - Bobo. Esse sol tá lindo mesmo.

Um gole de café...

 - Este sol demorou...
 - É inverno, o que você queria?
 - Não, falando sério. Custou tanto pra gente ver o sol daqui de cima. Longe de tudo.
 - Ah...ah. Eu sempre soube que conseguiríamos.

Silêncio embaraçoso...

 - Pára a música, pega o violão!
 - Você dança?
 - Não sei dançar mais sem você, menino.
 - Claro que sabe. Dança pra mim!

E aquela dança ao som de simples acordes foi delicada, leve e sensual. Fazia frio, então ela dançava de moletons e com a blusa de lã que ele usava pra dormir, mas vá lá...

 - Que delícia...posso tocar este violão o dia todo, se você dançar assim
 - Não, tenho planos pra nós
 - Hein?
 - Vem cá!



 E o resto do dia, o resto da vida, se explicam por si.



terça-feira, 2 de julho de 2013

Hora de voltar

Chega de procrastinar. Já não há nada a fazer aqui fora.

Lembro-me muito mal de porque fui entrar no meio de toda essa gente, e essa não-busca por coisa nenhuma passou a me torturar. O que é que este meio, de fato, veio a me oferecer?

Em meio a uma reflexão, me pego em um tempo em que observava demais, lia demais, pensava demais e falava de menos. Por Deus, quando foi que comecei a falar tanto assim? Até tenho uma teoria: percebi que estava num meio onde não tinha muito a aprender, e então, passei a ensinar. Palestras em mesa de boteco, verdadeiros monólogos durante um almoço qualquer. 

Foi então que passei a não suportar mais ouvir minha própria voz, mudei meu sotaque, empobreci meu vocabulário, mudei meu olhar, enfim. Mas hey, por que ninguém me avisou? Aqui não é mesmo pra mim.

É hora de voltar pra selva, onde os perigos são muito maiores porque são só meus, e porque já estão aqui dentro. Onde o filtro é gigante e, sim, tão blasé quanto precisa ser. Onde, por fim, posso muito mais ouvir do que falar, aprender do que ensinar.
É tempo de olhar pra dentro. Ao contrário do que em minha ultima visita - onde a selva estava bagunçada e perigosa - hoje vejo um grande campo vazio e devastado. Não há muito o que explorar, o que em compensação, mostra muito espaço pra se colocar o que quiser. Melhor [re]começar do jeito certo, então.

Que eu seja bem vindo de volta. Trazendo apenas o sorriso da garota confusa e cheia de esperanças no peito, tenho fome de silêncio e sede por tudo o que há de novo. E com certeza há.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Shakespeare


Gosto de gente articulada. Nem sei a porcentagem destes seres no nosso meio, mas sei que é bem pequena,  e por isso dou uma atenção especial em suas habilidades. Há quem os transforme em monstros: Manipuladores! Inescrupulosos! Sem caráter!, diriam. Mas não ligo, porque é tão difícil ser categórico, que uma deslizada - quando bem feita - no meio da conversa chega até a dar nojo, entendo, é normal. O bem-organizar das palavras embrulha o estômago de quem não sabe fazer, traz palpitações no peito daqueles que já foram atropelados por um bom discurso, e invoca a ira indomada dos últimos: os que ousam interromper, porém durante a arguição, metem os pés pelas mãos. E a última, a que deixa mesmo todo mundo louco, é a tal da segurança. Pessoas articuladas são seguras de si - ainda que saibam não valer, lá, um vintém; do que dizem - ainda que seja uma grande besteira; do que vestem - tudo bem, você já entendeu. E essa segurança abala as estruturas ao redor.
Gosto de pessoas articuladas porque eu sou assim.

Gosto também de gente espontânea. Entretanto, desta vez, porque eu não sou assim. Não sou e nunca saberei como é soltar uma expressão tão bonita assim, de primeira, no susto, sem pensar, porque essas coisas ou se nasce sendo, ou só na próxima. Admiro principalmente porque quem é não sabe que é (ou não acha que é), e essa quase falsa modéstia traz ainda mais charme a qualquer ocasião. Aquela expressão única, que traz até uma dancinha, quando se toca sua música preferida (ou qualquer música, por que não?), sempre me despertaram encanto, desde bem menino. Curiosamente, assim como tem gente que faz curso pra ser articulado, já vi gente fazendo curso pra ser espontâneo [tão útil quanto, garanto]. Como é que alguém tem a audácia de dizer que é possível se aprender uma coisa destas?
Gosto de pessoas espontâneas porque há toda uma pureza em sorrir. Gosto porque eu não sou assim, e porque aos poucos vou vendo que é preciso completar o que falta de algum jeito.

Insisto


 “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”.
  Amyr Klink (em Mar Sem Fim)




Em nome de todas as coisas que não têm nome e que, ainda sim, celebram-se por si só.
Em nome de todas a viagens que ainda irão acontecer. Cheias de sons e de palcos, porque é preciso entrar de cabeça - mergulhar, enfim - pra poder fugir de qualquer coisa. E fugir do que é normal vai ser sempre a melhor parte.



segunda-feira, 24 de junho de 2013

As vezes, arrisco.



Te ví
Juntabas margaritas
Del mantel
Ya sé que te traté bastante mal
No sé si eras un ángel o un rubí
O simplemente te ví.

Te ví
Saliste entre la gente a saludar
Los astros se rieron otra vez
La llave de mandala se quebró
O simplemente te ví.

Todo lo que diga está de más
Las luces siempre
Encienden en el alma
Y cuando me pierdo
En la ciudad
Vos ya sabes compender,
Es sólo un rato no más
Tendría que llorar
O salir a matar
Te ví, te ví, te ví y
Yo no buscaba a nadie y te ví.

Te ví
Fumabas unos chinos
En madrid
Hay cosas
Que te ayudan a vivir
No hacías otra cosa que escribir
Yo simplemente te ví.

Me fui
Me voy de vez en cuando
A algún lugar
Ya sé no te hace gracia
Este país
Tenías un vestido y un amor
Yo simplemente te ví.

Nameless

Quis provar do teu mistério
E agora estou aqui

Tentando te entender
Tentando decifrar você
Seus olhos me confundem
E esse silêncio,
já não sei

Tentando descobrir
O que me trouxe até você
O que te trouxe a mim?
Por que não deu pra me esconder?

O gosto do café na boca
Amargo
Pensou que podia vencer
Seus medos
Jurava que ia conseguir
Olhou nos olhos e perdeu
Seu tempo

Lembrou daquele encontro, então
Bem tarde
Chegou a cogitar, talvez,
Futuro
Resolveu desprezar toda a
Verdade
Continuar com tudo, então

Passa das quatro horas
Não quero nem tentar dormir
Ou você vai embora (outra vez)
Ainda não sei me despedir

Passaram dois, três dias
Não soube nada de você
Mas logo você volta
Bagunçando tudo outra vez


sábado, 22 de junho de 2013

Quebra-cabeça


Ruídos da noite chuvosa me fazem lembrar quem sou. E como cheguei até aqui, quando ouvi os mesmos barulhos pela primeira vez. Quando vi que estava sozinho, e que ninguém poderia me salvar além de minha força.

As ruas da mesma noite não me deixam esquecer a bela imperfeição do amor e da ferida que dói e, sim, se sente. E cada gota de chuva se mistura com o que vem dos olhos, quando penso em meus inúmeros erros.

Palavras brutalmente arrancadas, assim, a força; sentimento explodindo e impregnando as paredes de vinho; emoções transbordando, vasando, e as deixando confusas e bonitas. Penso na parte que se derramou e que não volta mais pra dentro, tendo servido ou não. Não há de existir desperdício do que se sente, posso apostar.

Penso nas armaduras, nas minhas, nas não. Penso na bandeira branca já levantada: abaixe a guarda, pra entrar o bem. O resto vem devagar: o nome, a cor, o lugar. 

A forma dita o caminho, juntemos os pedacinhos, que é isso que a gente é.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Canção em vermelho

O mundo fala
Meu mundo cala
Seu cheiro fica
Você se vai

Vem mais um vinho
Dou mais um trago
Do teu afago
Me lembro bem

Não temos tempo
Mas temos tudo
Tudo a seu tempo
Som, atuação 

Se eles não cuidam 
[e até se cuidam]
Se eles só correm 
[e a gente, não]
Já decidimos
Sim, ficaremos
Melhor assim.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A covardia da última visita

Este texto foi uma das minhas grandes inspirações, para escrever tudo o que escrevo hoje. É um texto de 2008, e o autor é o Gravata, do blog Bico de Pena.
Hoje é um dia em que eu precisava escrever uma trama tão intensa quanto esta. Mas não consegui. Por isso compartilho abaixo aquilo que considero um dos melhores.

-

2008, Cartagena

Como em todas as tardes, vai à praça e joga pedaços de pão aos pombos. E pensa. Pensa muito. Sempre na mesma coisa. Houve um tempo em que escolhia os assuntos em que pensar; hoje, não possui mais essa liberdade. O assunto é sempre o mesmo.

Uma mente monotemática.

O saco com pães, os pombos, o gramado verde, o banco, sua roupa... Tudo faz parte de um quadro monótono, uma pintura que se repete a cada dia, bem como se repete, sempre, a toda hora, o mesmo pensamento.

A mesma história.

* * *

1963, Rio de Janeiro

Deram um abraço apertado naquela despedida chata e triste; como são, sem dúvida, as despedidas desse tipo:

- Você não volta?

- Não tão cedo...

- E você nem o conheceu...

- Ah! Num dia não deu pra mim, no outro ficou impossível para ele. Acho que foi melhor assim. Aliás, nunca dá certo quando você promove esses encontros. Qual foi a vez em que algum desses moços tinham algo a me dizer?

- Esse é diferente! Acredite!

- É sempre assim...

Essa foi a conversa de despedida. Uma amenidade boba, para que se distraíssem em vez de pura e simplesmente chorar.

As duas amigas se separariam; e sabiam que dali em diante seria muito difícil haver um reencontro, já que uma permaneceria no Brasil, a outra moraria na Colômbia.

* * *

1963, Cartagena

Ela segura o envelope numa mão e, com o dedo indicador da outra, segue atentamente cada linha daquela carta. Já a leu talvez umas cem, duzentas vezes. Como isso foi acontecer? Um trecho a impressiona:

"...sei que parece bobo, e talvez seja definitivamente bobo, mas vou sempre pensar o que poderia ter sido, nessa grande hipótese, nesse tudo-nada que eu crio em minha mente a cada vez que penso em você... já vi sua foto, já soube de coisas suas, mas nunca a olhei nos olhos..."

A carta indica, evidentemente, um homem pelo qual ela se apaixonaria. Estava determinada a responder.

* * *

1972, São Paulo

Está há três anos morando na capital paulista, não se acostuma com nada da "cidade cinza" (é como ele se refere ao lugar), mas seu ódio à "terra da garoa" é amenizado sempre que constata a competência do serviço de correio. Chegou mais uma carta dela:

"...fico triste, muito triste, muito triste de verdade (...) não sei como faremos agora, não sei de mais nada, isso é tudo muito estranho para mim (...) tenho certeza do meu amor e também tenho certeza de seus sentimentos, mas como faremos agora? (...) parece que tudo acaba por aqui, não é? Nunca pudemos nos ver, nunca conseguimos, trabalho de um lado, trabalho de outro, distância, dinheiro, uma certa acomodação, e agora esse seu casamento (...) Talvez esse ponto final seja uma coisa boa para nós, mas eu não sei pensar sobre isso, ainda, sem chorar muito..."

Ele se odiava. Sentia-se o homem mais infeliz do mundo. Seu casamento seria dali a cinco meses, estava noivo havia mais de um ano, mas parece que somente agora os fatos pesavam sobre sua cabeça como sempre deveriam ter pesado.

E ela estava coberta de razão em tudo; ele sabia disso. Mas, agora, o que fazer...? Responder? Ignorar? Aceitar o ponto final?

* * *

1979, Cartagena

Ela nunca se apegou a rotina alguma. Nunca. Mas as idas à agência postal sempre foram a melhor parte de seu dia; ao menos, de sua semana. Infalivelmente, toda sexta-feira, lá estava a carta. Lá estavam novas páginas que ela lia e guardava na mesma caixa.

Já alugava quase dez. E quanto a isso contava com a ajuda de uma grande amiga que trabalhava na agência postal. Seu marido não poderia saber, ela tomava todos os cuidados e também tinha plena ciência que, lá no Brasil, ele também tomava precauções parecidas.

"...claro que entre nós há um amor infinito, e é essa a natureza de todo amor - ao menos presumo que seja, ou então o que sentimos vai além do amor e essas pessoas todas estão alguns degraus abaixo de nossa felicidade (...) Nossa relação soaria estranha a qualquer um. Como poderíamos denominá-la? Platonismo epistolar? Amor de cartas? Não sei, não sei mesmo. Talvez nem queira saber e o que menos precisamos agora é de denominações. Você está aí, casada e morando na Colômbia, eu aqui no Brasil, também casado (...) A vida nos separa, mas nos unimos nem que seja por birra..."

* * *

1986, São Paulo

Leu mais uma vez, antes de guardar o envelope no armário de seu escritório. Ele se orgulha dessa biblioteca secreta, dessa coleção única de edições exclusivíssimas. É o que resta a quem não tem outro meio de viver o que sente.

Mas a carta desta semana foge de todos os padrões...

"...e confesso estar cansada, extremamente cansada, dessa vida que levo (...) Quantos anos eu tenho? Nem eu sei mais. Parece que vivi uma mentira. Se ainda houvesse filhos. Mas não! E você também não teve filhos. Precisamos sim ficar juntos. Precisamos. Você e eu sabemos disso. Eu quero que você venha para cá. Eu vou me separar. A partir da semana que vem, sou uma mulher solteira. Não vou até aí, não vou fazer escândalo e respeitarei o seu tempo. Quando vier, serei sua. Já sou sua..."

* * *

1986, Cartagena

Ela sempre foi pragmática, mas ao mesmo tempo uma romântica sonhadora. Talvez apenas ela própria entendesse tais comportamentos contraditórios. Depois do desabafo e da promessa cumprida, esperava que algo melhor lhe chegasse pelo correio. Porém...

"...não consigo me separar agora, sei que talvez você possa me chamar de fraco por isso, mas simplesmente não sei como fazer isso assim, de uma hora para outra (...) tenho certeza de que você precisa repensar essa decisão antes de por em prática uma medida tão drástica (...) e inclusive pensei no fato de que nunca trocamos uma única foto; no início, foi charme de sua parte, depois ficou como uma promessa (...) você não viveu uma mentira, eu não vivi uma mentira, nossas vidas são reais, e em algum momento nos cruzaremos, ficaremos juntos, você e eu sabemos disso, mas infelizmente não há como ser agora..."

Ela chorou. Essa era uma possibilidade, ela sabia. E o que fez foi aquilo que poderia fazer após a leitura da carta: chorou, chorou e chorou.

* * *

1992, São Paulo

São quase seis anos sem receber uma única carta. Ele já mandou pelo menos umas duzentas, mas sem qualquer retorno. É claro que ele entende os motivos desse silêncio, mas ao mesmo tempo tudo é muito preocupante.

Os amigos em comum já estão perdidos no tempo. Telefones, endereços, e talvez até os nomes, enfim, tudo foi esquecido, tudo ficou para trás. Como encontrá-la agora? Será que ela está bem? Será que algo aconteceu?

* * *

1996, São Paulo

Ele ainda não sabia como reagir diante do que leu. Desde que começaram as correspondências, e eram apenas dois jovens apaixonados, essa foi a emoção mais violenta que o assolou.

Infelizmente, o sentimento de então já não tem muita semelhança com a empolgação apaixonada das primeiras cartas. O que o dominou, naquele instante, foi o ódio. Ódio de si prório, ódio da própria covardia, ódio, tristeza, pânico. Tudo de ruim.

"...depois de sua quinta carta, confesso que tomei coragem e a abri, de modo que fiquei um tanto emocionado. Me desculpe invadir sua intimidade, mas a pessoa a quem você dirige seus textos não mora mais nesta casa, e isso há alguns anos (...) demorei para escrever porque fui atrás da destinatária, e justamente não sabia como responder diante do que fiquei sabendo (...) nesta única carta que li, pude saber que vocês nunca se conheceram, então é certo dizer que jamais se conhecerão, mas talvez você possa visitá-la, ainda que seja para prestar sua homenagem póstuma (...) mas também não sei se a idéia é boa, acho que fica a seu critério (...) mas, se vier, faço questão de acompanhá-lo, eu e minha esposa, para que não apenas visite o cemitério, mas principalmente tenha uma ótima estadia nesta cidade..."

Ele respondeu à carta prontamente, sem obedecer aos antigos rituais e regras de tempo. Comprou as passagens e viajaria na semana seguinte. A carta de resposta - e agradecimento - foi enviada com os dados do vôo.

Mas ainda sentia o mais profundo ódio de si próprio. Deixou a história de sua vida passar, deixou tudo acontecer sem que fizesse coisa alguma. O que fazer agora? Nada! Mas a inação também seria algo péssimo. Estava decidido a pelo menos fazer uma única visita, ainda que póstuma, para chorar o que deveria ser chorado.

* * *

1996, Cartagena

A idéia havia dado certo! Seu amigo, o único até então a saber da história, definitivamente era um profundo conhecedor da alma masculina; e, claro, também da humanidade.

Porque as pessoas - ele dizia - sempre acham tempo para os velórios. Sempre! O sentimento de culpa as domina e tudo que mais desejam, com a maior sinceridade e do fundo de seus corações, é que aquilo seja um pesadelo, uma peça, uma brincadeira de mau gosto, qualquer coisa que não a realidade.

No fim das contas, era isso mesmo.

Ainda assim, ela tinha receio de como ele reagiria ao saber que foi envolvido numa brincadeira de tão péssimo gosto. Mas nenhum receio ou sentimento superava a ansiedade com que ela contava os segundos até a hora da chegada do avião.

* * *

1996, Cartagena

Ela já ouviu infinitas vezes a mesma notícia na TV. Não acredita, não pode ser verdade. Já chegou ao ponto de ler alguns jornais brasileiros. Mas não havia como fugir: ele estava entre as vítimas do acidente, na lista de passageiros.

O amor de sua vida morreu na queda do avião, e seu corpo jazia em meio à selva, sabe-se lá onde. Nunca, em toda sua vida, ela sentiu tanta culpa. Essa culpa horrível, inescapável, que a acompanharia de forma permanente.

* * *

2008, Cartagena

Como sempre, ela joga pedaços de pão aos pombos. Como sempre, ela vai da casa para a praça, da praça até o porto, do porto até sua casa. No caminho - sempre o mesmo -, encontra pessoas sem nome, pombos sem nome, cachorros e gatos sem nome.

São sempre os mesmos, sempre anônimos. Sempre a mesma tristeza.

E ela nem mesmo tem coragem para se matar. Gostaria, pensa nisso quase todo dia, mas falta coragem. Talvez exista algum heroísmo no suicídio, e ela não se vê como alguém com um mínimo de coragem ou coisa que o valha.

Ela convive com a culpa de ter levado à morte o único amor de toda sua vida. Passa todos os dias de sua vida pensando em como seria ter uma vida de verdade.

Uma existência tão amarga que não lhe cabe lágrimas, desabafos... Nada. Tudo que lhe cabe é uma rotina besta, os pombos e seres anônimos e o mundo que, como sempre, serve de cenário e nada mais.

* * *

2008, Rio de Janeiro

Na roda de carteado, mais uma vez pedem que ele conte a tal "história da ressurreição". No começo, os desavisados simplesmente não acreditam. Depois, diante de algumas confirmações, todos ficam atônitos.

Ele não tem prazer algum em tal narrativa, e talvez a repita tantas e tantas vezes como uma forma de penitência:

- Quando eu digo que nasci de novo não sou como aquele sujeito que levou um tiro na cabeça e a bala se desviou sem machucá-lo de forma séria. No meu caso, isso também teve a ver com a cabeça dura, mas num sentido um pouco mais figurativo... Eu ia embarcar. Juro. Estava prestes a embarcar. Desisti. Covardemente desisti. Já em casa, vendo o jornal, fiquei sabendo da notícia, como todos vocês. Liguei apressadamente para meus pais, velhinhos, para que não se assustassem caso meu nome aparecesse. Até hoje algum tio ou tia ainda pensa que estou morto. Só os credores é que não se deixaram enganar...

Todos caem na gargalhada, mas ele os olha com semblante sério.

- Não riam disso. Eu perdi o único amor da minha vida. Eu iria até uma cidade que deveria ter conhecido havia muito tempo para visitar seu túmulo. Desisti porque isso seria covarde demais. Seria um atestado de covardia. Nós somos assim, não é? Sempre temos tempo para os mortos. Ela não merecia tamanha imbecilidade de minha parte. E, depois disso tudo, principalmente do meu, digamos, "renascimento", pedi a separação e cá estou com vocês, seus palermas, dando uma aula de tranca em plena tarde de quarta-feira!

Agora, sim, todos puderam rir sem culpa alguma.

Apenas ele, em silêncio, amargava aquela tristeza de quem não teve coragem o bastante para viver a própria vida. A mesma tristeza de quando, em 1996, abriu aquela fatídica carta. É a isso que se resume sua existência.

Uma existência tão amarga que não lhe cabe lágrimas, desabafos... Nada. Tudo que lhe cabe é uma rotina besta, os pombos e seres anônimos e o mundo que, como sempre, serve de cenário e nada mais.

Adaptação


 - Mas você é um escritor, certo?
 - Eu era. Agora eu sou um bêbado, e essa é uma profissão muito desgastante, não dá pra ser as duas coisas.
 - E você vai beber tudo isso?
 - Estou com uma grande intenção de fazer isso.
 - Mas então de onde saem as suas estórias?
 - Da minha imaginação. A maior força já criada e disponibilizada para o homem. Acontece que, com o álcool, eu consigo chegar onde ninguém mais conseguiu.
 - Por isso o prêmio de melhor romance?
 - Sim, por isso.
 - E você contou esse segredo no discurso?
 - Não, Flora. Eu não contei.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Jane


Você vem, mas não vem
Está e não está
Te amo e não sei
Se devo dizer
Não devo escrever
Você não quer mais
Me ver e não ver
Não pode esperar?
Pra que ser tão prático?
E ficar tão longe
Não sei ser tão rápida
Um dia eu resolvo
E fico contigo
E vamos pra longe
Viver nossa paz.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Who wants?

"(...) e quem disse que eu não vou viver para sempre? Já pensou?, 'O homem que descobriu a fonte da juventude', não é legal?"
Jack Sparrow



É preciso olhar ao redor e perceber com delicadeza: existem pessoas admiráveis. E os motivos são tantos, e tão diferentes, que não é o caso de partir logo para a reflexão do "Sou ou não sou?". Não ainda.
Parar e pensar; parar e olhar; parar e reparar. Algumas pessoas nos fazem bem apenas por serem unicamente quem são. E esta exclusão dos interesses é um exercício tão difícil no contexto em que vivemos, que fica quase impossível descrever. Não é de hoje que cruzamos o tempo do dou-aqui-recebo-lá, e por isso o impasse.

Veja este exemplo: houve um homem que trabalhou a vida toda em uma ótica. Desde os doze anos - já que na época não havia impedimento para a idade - ali, olhando para as lentes, para as armações, estudando na prática. Foram mais de quarenta anos ininterruptos de trabalho até que se tornou o melhor e mais habilidoso, um artista, pode-se dizer. Dando banho em médicos dos olhos por aí.
Acontece que este homem, por detrás das lentes, possuía uma grande história de vida. E é por este motivo que se tornou admirável: fazia as pessoas enxergarem não só pelos olhos. 
Nos lugares em que se apresentava por todo o país, sequer pegava em uma lente ou desenhava um risco no quadro-negro. Ele estava ali para ensinar vida, para ensinar amor, estrada, sorte, trabalho, ajuda, gentileza, poder, jogos, determinação. Visão.
É claro que este homem existe. Assim como tantos e tantas que estão à nossa volta e que trazem tanta bagagem em sua pouca conversa, basta ouvir com atenção.

Existe uma grande diferença entre ser e convencer que se é. A vida não é uma entrevista de emprego.
Em uma breve conversa é possível identificar quem é. Aquele que, por detrás das olheiras traz sinceridade, não importa sobre o que esteja falando. Basta prestar um pouco mais a atenção, e usar toda a sua intuição. Entregar seu coração a uma conversa, e será possível entender. Este é o significado da honestidade.

No meio da enganação do dia-a-dia, optar pelo princípio: honestidade é transparência. Quando a verdade vem, ela não precisa de nenhum pilar para se manter verdade. Ela vem íntegra, pura, límpida. E torna as pessoas admiráveis.

Pessoas que vivem a verdade irão viver para sempre.

Ainda neste raciocínio, será possível perceber quando algo não é honesto. Se alguém precisa dizer que passou por algo, para mostrar, convencer que passou, então significa que aquele aprendizado não lhe serviu para nada. A experiência não precisa ser apresentada.

Assim é que um nome perdurará até a eternidade. Quando seus feitos forem transmitidos para gerações em seguida e em seguida, de tão grandiosos.

Estar ao lado de gente assim é ter prazer em ouvir. As grandes lições não estão nos cadernos.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Projeção

Desculpe a intromissão, meu grande amigo
Você chegar e ver-me aqui, sentado
É que eu sei, a tua porta, não se fecha
E hoje só estou bom pra tua conversa.
Sei que fazia tempo que não vinha
Mas saiba, não me esqueço, desta luz
Que entra pela fresta da janela
E deixa esta poltrona ainda melhor.
Não tô legal, mas sei, você não sabe
Nem meu bom velho uísque tem descido
Não tenho conseguido olhar nos olhos
Não tenho me esforçado com ninguém.
As ruas não me acolhem como há tempos
Há tiros na tevê, não em meu peito
Tem dias que até rogo por um destes
É que um olhar vazio não mostra medo.
Nos bares, já não caibo na cadeira
Meu chapéu ainda chama a atenção
E agora colocaram gente chata
Pra dentro e fora do balcão.
Obrigado, meu amigo, por teu ombro
Pelo café, tua força e paciência
Até hoje só te ensinei jogos sujos
Mas contigo é que aprendo o que é ser gente.

sábado, 1 de junho de 2013

Cada qual


Nunca me esquecerei do sorriso daquela menina.

Nem de suas outras tantas formas de olhar, e de me olhar, e de fazer com que a vida fosse mais simples. Mais próxima de tudo aquilo que, talvez, nunca seria.

De todos os mistérios que rodeavam aqueles lábios e toda aquela sensibilidade, de certo que o mais enigmático era sua transparência.

Não por entregar tudo assim, de bandeja, mesmo porque a tal guria vivia em uma luta constante para se manter firme, escoltada pelos próprios pensamentos, com sentimentos impenetráveis [apesar de explodirem por dentro] e com um escudo blindando seu passado, tão recente, e tão esquisito.

O segredo era sua capa de seda a cobrir todo esse arsenal. Uma forma só dela de mostrar quem era a quem quisesse enxergar [e não apenas ver, por tentativas mil], de ter expressões tão imprevisíveis que tornava, assim, praticamente impossível reconhecê-la logo de cara.

A combinação entre seu rosto e sua aura puramente mutáveis, se hospedava no fundo dos olhos de cada um.

E em cada novo olhar lançado, uma nova menina. Surgia uma nova Violeta [ e há quem tenha nome mais bonito?], cada qual com seu poder de sedução, de encantamento e de fazer o outro parar. Sim, ela não era uma menina de parar o trânsito, mas bastava olhar no fundo dos seus olhos e desmontar por inteiro. Ainda não conheço alguém que tenha resistido.

Ah...

Nunca me esquecerei de você, menina, porque a cada lente você já mudou. A cada memória, você ainda me faz desmoronar [ um homem deste tamanho, veja só].

Nunca me esquecerei porque você nunca se foi. Porque você jamais irá.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O caso é grave.


Poucos entenderão minhas notas.
Poucos entendem o que sinto.
Quase nenhum imagina qual foi a minha necessidade de ter caixas de som assim, da minha altura.
Mas a verdade é que é complexo demais pensar que tudo pode ser tão simples. 
E que a cada nota que eu bato, ali, é um "Eu te amo" que ficou preso na garganta, e foi mandado então para a ponta dos dedos. Que vibrou sem cessar, e que foi embora, pra todo mundo ouvir e sentir bater no peito.
O caso é grave. E bate no peito, e faz você sentir que a música move o mundo.
E o que move a música, afinal?

Eu movo.

A cada dor que sinto, a cada desencontro, a cada vez que ligo e a ligação é interrompida; a cada vez que declaro meu amor e todas aquelas palavras ecoam - tamanho o silêncio; a cada vez que imagino e traço mil planos e a realidade vem me mostrar o significado do nunca. 
É assim que a música sai. A música sai quando a dor e a desilusão entram e insistem e ficar temporadas.
Me frustra em saber que este texto, ainda sim, não será capaz de explicar. Que enquanto você não estiver ali, atrás daquelas centenas de watts de potência e bater uma nota sequer, não saberá a força que tem um verdadeiro sentimento. 
Eu movo a música porque enquanto você sente bater "tum" no seu peito, o mesmo tum me faz sair do chão no palco, levitar, sair do meu corpo e voltar em instantes, ensandecer, transcender aquilo que você pensa ser o limite.
O caso é grave. E toca a alma e consegue, de maneira intensa e única, ir ainda mais longe.

O som do meu baixo toca o centro da terra.

E toca assim porque você, enfim. Existe.

sábado, 4 de maio de 2013

Girl, you'll be a woman soon



Girl, you'll be a woman... soon

I love you so much, can't count all the ways
I've died for you girl and all they can say is
"He's not your kind"
They never get tired of putting me down
And I'll never know when I come around
What I'm gonna find
Don't let them make up your mind.
Don't you know...

Girl, you'll be a woman soon,
Please, come take my hand
Girl, you'll be a woman soon,
Soon, you'll need a man

I've been misunderstood for all of my life
But what they're saying girl it cuts like a knife
"The boy's no good"
Well I've finally found what I'm a looking for
But if they get their chance they'll end it for sure
Surely would
Baby I've done all I could
Now it's up to you...

Girl, you'll be a woman soon,
Please, come take my hand
Girl, you'll be a woman soon,
Soon, you'll need a man



*Eu cantaria essa música mil vezes para você

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A vida pode ser assim




Deixe-me olhar pra onde quer que seja. Pra onde eu quiser, porque se bem sei tu já sabes onde os olhos pesados, aqui, vão parar.

Permita-me perder-me em teu perfume, surrar-me com teus pelos, confundir-me em tua altura, acabar com seus cabelos, e depois me deixe te olhar o tempo que for.

Cala-me, então, se é disto que mais preciso. E apresenta-me esta leveza que já jogo fora o tal peso nas costas, e podemos então descobrir o caminho. Juntos.

E deixa que eu te diga então, que roleta russa se joga com cinco balas e uma livre. Não vale se não for assim.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Sobre ouvir e só.

Naquele ano, percebi que era ouvindo os outros que eu iria melhorar minha percepção. E que o papo do pensador, de que não temos tempo para viver todos os erros e por isso devemos aprender com os erros dos outros, estava certo. Por obra do destino ou de qualquer força superior, desde então, passaram pela minha vida pessoas fantásticas (aos meus olhos, claro) que me disseram coisas boas, coisas ruins, mas sempre muito válidas. Mal sabia - e mal sabe - a grande maioria sobre o quanto me ensinaram.

Acontece que com o tempo veio ocorrendo um efeito prejudicial a este ouvir, e desde então, eu comecei a falar. Falar, falar e falar. Falar muito, sobre o que quer que seja. Isso não significa falar besteira, não!, mas falar. Rechear frases, enfeitar contextos simples, metralhar letras, cedilhas e tils. E não surpreendente, recebendo elogios: "Você fala, hein?".

E falo, e enrolo, e desvio, e convenço! Mas eu juro que não queria estar assim. Falar não é sempre bom.
Ensinar é gostoso, mas ensinar sobre a vida antes de chegar aos 50 anos não me interessa. Eu quero aprender. Aliás, continuar aprendendo, lá de onde parei.

Não sei se foi por defesa, por vergonha, ainda não consegui entender. Mas assim, de primeira, culpei as pessoas. "Estou rodeado de idiotas". Como se estivesse num universo onde ninguém tem nada a me acrescentar, onde todos querem mais ouvir realmente do que falar, e o que têm a acrescentar não me vale, não me serve. Engraçado como escrevendo isso eu novamente me convenço deste pensamento.

Então, em seguida, me culpei. Minha habilidade em olhar para as pessoas e considerá-las fantásticas, interessantes, já não existe mais. Ou se existe, eu não sei onde está, o que sei é que dos que estão ao meu lado, não completo os dedos de uma mão para contar quem importa. O resto pode ser jogado fora, e olha que não é pouca gente, não. Será que me tornei, mesmo, bloqueado para este tipo de admiração?

Quero ouvir de novo, estou precisando. Não quero conversas online, quero lições ao vivo, ali, no ato. Não existe conversa sem respiração. E isso, pode saber, eu aprendi ouvindo.

sábado, 9 de março de 2013

Silêncio


Sinto o valor do silêncio. Pressinto o mesmo acabar. Não o valor, mas é claro.
E acaba assim, quase sempre.

Invento sempre uma desculpa pra não dar na cara que o que eu quero é paz. E até me culpo por isso, quando aquilo que nem era pra dar certo acaba não dando mesmo. Não tem problema, no fundo (no fundo), não é por isso que eu estou aqui.

Estou aqui pela noite, pela paz, pelo ar, pelo clima. Pelo silêncio.

Porque a vida pode ser exatamente do jeito que eu quero, e é assim que eu penso que devo fazer. Por mais que eu ainda não esteja onde deveria estar, a carga é tão grande, que a fuga se faz vital. 

Preciso de silêncio, de horas de solidão. Por qualquer motivo, não consegui me abster dela. Já faz parte de mim não ser parte de nada.

Permito-me seguir então. E enfrentar o desafio da culpa que a rotina me traz, me fazendo sentir que não vale a pena.

Vale sim, só tenho que me convencer. Só assim é possível sobreviver, enfim.

segunda-feira, 4 de março de 2013

O mesmo caminho

Você me chama assim de longe, quando eu menos espero. Ou quem sabe já esperava sim, mas finjo que não, porque assim é melhor. Pra mim, pra você, pra todo mundo. Todo mundo, bonita, é mais ninguém.

Me deixo, me enlaço em teus braços, daquele jeito que todo mundo quer. Daquele jeito que todo mundo faz, cheio de intenções, de desejos nus. Mas o meu abraço, você vê que - no fundo - não é assim.

Você me seduz com seus olhos, com seus grandes olhos, e sabe que o faz. Cada palavra que sai de tua boca tem desenho próprio, se molda, se pinta, sai feito uma bela nota de um blues. E eu que tanto sei ser blues, só presto atenção, e em câmera lenta recebo estes toques, mastigo com calma, engulo você.

Eu sei, teu caminho é um perigo, porque tu calculas, sabe até onde dá. E sabe que dá. Sabendo, eu também, mergulho de vez nessa sua forma de se transformar. Fingir, atuar, agir como se cada madrugada dessas fosse como as outras, mas não, nunca é. É sempre demais.

Depois, no meio daquele blá-blá-blá que usamos apenas para maquiar a sedução, me perco no assunto, pergunto algo fora, você já responde, pra me confirmar que entendeu tudo, enfim. Não estamos ali, já estamos lá, dentro um do outro envolvidos pela fumaça dos cigarros e pela bebida dos deuses, num quarto de hotel, bem perto do centro que é pra ouvir o som do cinza imortal.

O mesmo caminho que hoje te encanta é aquele que eu, quando jovem, tomei. Não tenho muito a te ensinar, só tenho a mostrar, e quando vejo que tu não sabes nada e que tens tanta sede em saber o que é bom...ah, eu mudo minha rota, volto pro caminho, misturo o perigo e a vontade de ser [aquilo que eu era, que eu tanto amava], e já estou aí.

Não pare de me entorpecer com esse quadro louco que eu nos inseri. Assuma a parcela de culpa que você não tem, e me chame de novo - ainda que de longe - que quem sabe eu não finja que não te vi.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Contagem



Mudaram o esquema. Não me avisaram, é claro, mas acho que até tentaram. Eu é que não vi.

Agora funciona assim, pode esquecer o relógio: ele já não serve mais. Pode aprender a contar porque nem olhar o sol consegue ser mais, assim, bom método.
Mudou a contagem, o tempo se rebelou. Chega de padrões, de sincronismo, de uniformidade. Cansou de ser previsível, o grande mestre. Agora o tempo anda do jeito que ele bem quer.
Com direito a paradas, inclusive, se assim considerar necessário.

Se você sai de casa as quatro e meia [ou talvez, as cinco], pode crer, chegará no trabalho as oito. Ou oito e dez, oito e quinze. Conta três horas e reza pro santo que mais confia.
Agora, após bater o ponto, pode apostar: até as dez passa voando. Depois disso, a cada dois minutos são inseridos pedaços de hora.
Tem fé.
Tem fé que logo chega seis da tarde, tarda mas não falha. E não falha mesmo, fixo promessa aqui.
Que as oito e meia da noite já estará em casa, rápido assim.

Agora, se está sempre em casa, pare de lavar a louça um momento e olhe pela janela. Olhe o movimento por três horas seguidas e comprove o que digo: voltará para a louça em quinze minutos.
E como se bastasse o conselho, te asseguro a não se preocupar, porque quinta-feira está aí. É, nem se vê direito, mas a parada pra pensar é no domingo a noite. Quando viu, já foi.

Estabelece-se, então, uma relação de carinho com a poltrona. Até a TV, que fica o dia todo ligada, fica carinhosamente quente. Calor quase humano. Estas, sim, são as verdadeiras companhias a qualquer hora, e durante horas. Quantas quiser, aliás.

Até o texto, veja só, virou vítima. Comecei agora pouco, segunda-feira a tarde, e acabei de terminar. Inspiração é assim mesmo, o texto vem todo de uma vez.