segunda-feira, 18 de março de 2013

Sobre ouvir e só.

Naquele ano, percebi que era ouvindo os outros que eu iria melhorar minha percepção. E que o papo do pensador, de que não temos tempo para viver todos os erros e por isso devemos aprender com os erros dos outros, estava certo. Por obra do destino ou de qualquer força superior, desde então, passaram pela minha vida pessoas fantásticas (aos meus olhos, claro) que me disseram coisas boas, coisas ruins, mas sempre muito válidas. Mal sabia - e mal sabe - a grande maioria sobre o quanto me ensinaram.

Acontece que com o tempo veio ocorrendo um efeito prejudicial a este ouvir, e desde então, eu comecei a falar. Falar, falar e falar. Falar muito, sobre o que quer que seja. Isso não significa falar besteira, não!, mas falar. Rechear frases, enfeitar contextos simples, metralhar letras, cedilhas e tils. E não surpreendente, recebendo elogios: "Você fala, hein?".

E falo, e enrolo, e desvio, e convenço! Mas eu juro que não queria estar assim. Falar não é sempre bom.
Ensinar é gostoso, mas ensinar sobre a vida antes de chegar aos 50 anos não me interessa. Eu quero aprender. Aliás, continuar aprendendo, lá de onde parei.

Não sei se foi por defesa, por vergonha, ainda não consegui entender. Mas assim, de primeira, culpei as pessoas. "Estou rodeado de idiotas". Como se estivesse num universo onde ninguém tem nada a me acrescentar, onde todos querem mais ouvir realmente do que falar, e o que têm a acrescentar não me vale, não me serve. Engraçado como escrevendo isso eu novamente me convenço deste pensamento.

Então, em seguida, me culpei. Minha habilidade em olhar para as pessoas e considerá-las fantásticas, interessantes, já não existe mais. Ou se existe, eu não sei onde está, o que sei é que dos que estão ao meu lado, não completo os dedos de uma mão para contar quem importa. O resto pode ser jogado fora, e olha que não é pouca gente, não. Será que me tornei, mesmo, bloqueado para este tipo de admiração?

Quero ouvir de novo, estou precisando. Não quero conversas online, quero lições ao vivo, ali, no ato. Não existe conversa sem respiração. E isso, pode saber, eu aprendi ouvindo.

sábado, 9 de março de 2013

Silêncio


Sinto o valor do silêncio. Pressinto o mesmo acabar. Não o valor, mas é claro.
E acaba assim, quase sempre.

Invento sempre uma desculpa pra não dar na cara que o que eu quero é paz. E até me culpo por isso, quando aquilo que nem era pra dar certo acaba não dando mesmo. Não tem problema, no fundo (no fundo), não é por isso que eu estou aqui.

Estou aqui pela noite, pela paz, pelo ar, pelo clima. Pelo silêncio.

Porque a vida pode ser exatamente do jeito que eu quero, e é assim que eu penso que devo fazer. Por mais que eu ainda não esteja onde deveria estar, a carga é tão grande, que a fuga se faz vital. 

Preciso de silêncio, de horas de solidão. Por qualquer motivo, não consegui me abster dela. Já faz parte de mim não ser parte de nada.

Permito-me seguir então. E enfrentar o desafio da culpa que a rotina me traz, me fazendo sentir que não vale a pena.

Vale sim, só tenho que me convencer. Só assim é possível sobreviver, enfim.

segunda-feira, 4 de março de 2013

O mesmo caminho

Você me chama assim de longe, quando eu menos espero. Ou quem sabe já esperava sim, mas finjo que não, porque assim é melhor. Pra mim, pra você, pra todo mundo. Todo mundo, bonita, é mais ninguém.

Me deixo, me enlaço em teus braços, daquele jeito que todo mundo quer. Daquele jeito que todo mundo faz, cheio de intenções, de desejos nus. Mas o meu abraço, você vê que - no fundo - não é assim.

Você me seduz com seus olhos, com seus grandes olhos, e sabe que o faz. Cada palavra que sai de tua boca tem desenho próprio, se molda, se pinta, sai feito uma bela nota de um blues. E eu que tanto sei ser blues, só presto atenção, e em câmera lenta recebo estes toques, mastigo com calma, engulo você.

Eu sei, teu caminho é um perigo, porque tu calculas, sabe até onde dá. E sabe que dá. Sabendo, eu também, mergulho de vez nessa sua forma de se transformar. Fingir, atuar, agir como se cada madrugada dessas fosse como as outras, mas não, nunca é. É sempre demais.

Depois, no meio daquele blá-blá-blá que usamos apenas para maquiar a sedução, me perco no assunto, pergunto algo fora, você já responde, pra me confirmar que entendeu tudo, enfim. Não estamos ali, já estamos lá, dentro um do outro envolvidos pela fumaça dos cigarros e pela bebida dos deuses, num quarto de hotel, bem perto do centro que é pra ouvir o som do cinza imortal.

O mesmo caminho que hoje te encanta é aquele que eu, quando jovem, tomei. Não tenho muito a te ensinar, só tenho a mostrar, e quando vejo que tu não sabes nada e que tens tanta sede em saber o que é bom...ah, eu mudo minha rota, volto pro caminho, misturo o perigo e a vontade de ser [aquilo que eu era, que eu tanto amava], e já estou aí.

Não pare de me entorpecer com esse quadro louco que eu nos inseri. Assuma a parcela de culpa que você não tem, e me chame de novo - ainda que de longe - que quem sabe eu não finja que não te vi.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Contagem



Mudaram o esquema. Não me avisaram, é claro, mas acho que até tentaram. Eu é que não vi.

Agora funciona assim, pode esquecer o relógio: ele já não serve mais. Pode aprender a contar porque nem olhar o sol consegue ser mais, assim, bom método.
Mudou a contagem, o tempo se rebelou. Chega de padrões, de sincronismo, de uniformidade. Cansou de ser previsível, o grande mestre. Agora o tempo anda do jeito que ele bem quer.
Com direito a paradas, inclusive, se assim considerar necessário.

Se você sai de casa as quatro e meia [ou talvez, as cinco], pode crer, chegará no trabalho as oito. Ou oito e dez, oito e quinze. Conta três horas e reza pro santo que mais confia.
Agora, após bater o ponto, pode apostar: até as dez passa voando. Depois disso, a cada dois minutos são inseridos pedaços de hora.
Tem fé.
Tem fé que logo chega seis da tarde, tarda mas não falha. E não falha mesmo, fixo promessa aqui.
Que as oito e meia da noite já estará em casa, rápido assim.

Agora, se está sempre em casa, pare de lavar a louça um momento e olhe pela janela. Olhe o movimento por três horas seguidas e comprove o que digo: voltará para a louça em quinze minutos.
E como se bastasse o conselho, te asseguro a não se preocupar, porque quinta-feira está aí. É, nem se vê direito, mas a parada pra pensar é no domingo a noite. Quando viu, já foi.

Estabelece-se, então, uma relação de carinho com a poltrona. Até a TV, que fica o dia todo ligada, fica carinhosamente quente. Calor quase humano. Estas, sim, são as verdadeiras companhias a qualquer hora, e durante horas. Quantas quiser, aliás.

Até o texto, veja só, virou vítima. Comecei agora pouco, segunda-feira a tarde, e acabei de terminar. Inspiração é assim mesmo, o texto vem todo de uma vez.