sexta-feira, 1 de março de 2013

Contagem



Mudaram o esquema. Não me avisaram, é claro, mas acho que até tentaram. Eu é que não vi.

Agora funciona assim, pode esquecer o relógio: ele já não serve mais. Pode aprender a contar porque nem olhar o sol consegue ser mais, assim, bom método.
Mudou a contagem, o tempo se rebelou. Chega de padrões, de sincronismo, de uniformidade. Cansou de ser previsível, o grande mestre. Agora o tempo anda do jeito que ele bem quer.
Com direito a paradas, inclusive, se assim considerar necessário.

Se você sai de casa as quatro e meia [ou talvez, as cinco], pode crer, chegará no trabalho as oito. Ou oito e dez, oito e quinze. Conta três horas e reza pro santo que mais confia.
Agora, após bater o ponto, pode apostar: até as dez passa voando. Depois disso, a cada dois minutos são inseridos pedaços de hora.
Tem fé.
Tem fé que logo chega seis da tarde, tarda mas não falha. E não falha mesmo, fixo promessa aqui.
Que as oito e meia da noite já estará em casa, rápido assim.

Agora, se está sempre em casa, pare de lavar a louça um momento e olhe pela janela. Olhe o movimento por três horas seguidas e comprove o que digo: voltará para a louça em quinze minutos.
E como se bastasse o conselho, te asseguro a não se preocupar, porque quinta-feira está aí. É, nem se vê direito, mas a parada pra pensar é no domingo a noite. Quando viu, já foi.

Estabelece-se, então, uma relação de carinho com a poltrona. Até a TV, que fica o dia todo ligada, fica carinhosamente quente. Calor quase humano. Estas, sim, são as verdadeiras companhias a qualquer hora, e durante horas. Quantas quiser, aliás.

Até o texto, veja só, virou vítima. Comecei agora pouco, segunda-feira a tarde, e acabei de terminar. Inspiração é assim mesmo, o texto vem todo de uma vez.



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