terça-feira, 25 de junho de 2013

Shakespeare


Gosto de gente articulada. Nem sei a porcentagem destes seres no nosso meio, mas sei que é bem pequena,  e por isso dou uma atenção especial em suas habilidades. Há quem os transforme em monstros: Manipuladores! Inescrupulosos! Sem caráter!, diriam. Mas não ligo, porque é tão difícil ser categórico, que uma deslizada - quando bem feita - no meio da conversa chega até a dar nojo, entendo, é normal. O bem-organizar das palavras embrulha o estômago de quem não sabe fazer, traz palpitações no peito daqueles que já foram atropelados por um bom discurso, e invoca a ira indomada dos últimos: os que ousam interromper, porém durante a arguição, metem os pés pelas mãos. E a última, a que deixa mesmo todo mundo louco, é a tal da segurança. Pessoas articuladas são seguras de si - ainda que saibam não valer, lá, um vintém; do que dizem - ainda que seja uma grande besteira; do que vestem - tudo bem, você já entendeu. E essa segurança abala as estruturas ao redor.
Gosto de pessoas articuladas porque eu sou assim.

Gosto também de gente espontânea. Entretanto, desta vez, porque eu não sou assim. Não sou e nunca saberei como é soltar uma expressão tão bonita assim, de primeira, no susto, sem pensar, porque essas coisas ou se nasce sendo, ou só na próxima. Admiro principalmente porque quem é não sabe que é (ou não acha que é), e essa quase falsa modéstia traz ainda mais charme a qualquer ocasião. Aquela expressão única, que traz até uma dancinha, quando se toca sua música preferida (ou qualquer música, por que não?), sempre me despertaram encanto, desde bem menino. Curiosamente, assim como tem gente que faz curso pra ser articulado, já vi gente fazendo curso pra ser espontâneo [tão útil quanto, garanto]. Como é que alguém tem a audácia de dizer que é possível se aprender uma coisa destas?
Gosto de pessoas espontâneas porque há toda uma pureza em sorrir. Gosto porque eu não sou assim, e porque aos poucos vou vendo que é preciso completar o que falta de algum jeito.

Insisto


 “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”.
  Amyr Klink (em Mar Sem Fim)




Em nome de todas as coisas que não têm nome e que, ainda sim, celebram-se por si só.
Em nome de todas a viagens que ainda irão acontecer. Cheias de sons e de palcos, porque é preciso entrar de cabeça - mergulhar, enfim - pra poder fugir de qualquer coisa. E fugir do que é normal vai ser sempre a melhor parte.



segunda-feira, 24 de junho de 2013

As vezes, arrisco.



Te ví
Juntabas margaritas
Del mantel
Ya sé que te traté bastante mal
No sé si eras un ángel o un rubí
O simplemente te ví.

Te ví
Saliste entre la gente a saludar
Los astros se rieron otra vez
La llave de mandala se quebró
O simplemente te ví.

Todo lo que diga está de más
Las luces siempre
Encienden en el alma
Y cuando me pierdo
En la ciudad
Vos ya sabes compender,
Es sólo un rato no más
Tendría que llorar
O salir a matar
Te ví, te ví, te ví y
Yo no buscaba a nadie y te ví.

Te ví
Fumabas unos chinos
En madrid
Hay cosas
Que te ayudan a vivir
No hacías otra cosa que escribir
Yo simplemente te ví.

Me fui
Me voy de vez en cuando
A algún lugar
Ya sé no te hace gracia
Este país
Tenías un vestido y un amor
Yo simplemente te ví.

Nameless

Quis provar do teu mistério
E agora estou aqui

Tentando te entender
Tentando decifrar você
Seus olhos me confundem
E esse silêncio,
já não sei

Tentando descobrir
O que me trouxe até você
O que te trouxe a mim?
Por que não deu pra me esconder?

O gosto do café na boca
Amargo
Pensou que podia vencer
Seus medos
Jurava que ia conseguir
Olhou nos olhos e perdeu
Seu tempo

Lembrou daquele encontro, então
Bem tarde
Chegou a cogitar, talvez,
Futuro
Resolveu desprezar toda a
Verdade
Continuar com tudo, então

Passa das quatro horas
Não quero nem tentar dormir
Ou você vai embora (outra vez)
Ainda não sei me despedir

Passaram dois, três dias
Não soube nada de você
Mas logo você volta
Bagunçando tudo outra vez


sábado, 22 de junho de 2013

Quebra-cabeça


Ruídos da noite chuvosa me fazem lembrar quem sou. E como cheguei até aqui, quando ouvi os mesmos barulhos pela primeira vez. Quando vi que estava sozinho, e que ninguém poderia me salvar além de minha força.

As ruas da mesma noite não me deixam esquecer a bela imperfeição do amor e da ferida que dói e, sim, se sente. E cada gota de chuva se mistura com o que vem dos olhos, quando penso em meus inúmeros erros.

Palavras brutalmente arrancadas, assim, a força; sentimento explodindo e impregnando as paredes de vinho; emoções transbordando, vasando, e as deixando confusas e bonitas. Penso na parte que se derramou e que não volta mais pra dentro, tendo servido ou não. Não há de existir desperdício do que se sente, posso apostar.

Penso nas armaduras, nas minhas, nas não. Penso na bandeira branca já levantada: abaixe a guarda, pra entrar o bem. O resto vem devagar: o nome, a cor, o lugar. 

A forma dita o caminho, juntemos os pedacinhos, que é isso que a gente é.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Canção em vermelho

O mundo fala
Meu mundo cala
Seu cheiro fica
Você se vai

Vem mais um vinho
Dou mais um trago
Do teu afago
Me lembro bem

Não temos tempo
Mas temos tudo
Tudo a seu tempo
Som, atuação 

Se eles não cuidam 
[e até se cuidam]
Se eles só correm 
[e a gente, não]
Já decidimos
Sim, ficaremos
Melhor assim.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A covardia da última visita

Este texto foi uma das minhas grandes inspirações, para escrever tudo o que escrevo hoje. É um texto de 2008, e o autor é o Gravata, do blog Bico de Pena.
Hoje é um dia em que eu precisava escrever uma trama tão intensa quanto esta. Mas não consegui. Por isso compartilho abaixo aquilo que considero um dos melhores.

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2008, Cartagena

Como em todas as tardes, vai à praça e joga pedaços de pão aos pombos. E pensa. Pensa muito. Sempre na mesma coisa. Houve um tempo em que escolhia os assuntos em que pensar; hoje, não possui mais essa liberdade. O assunto é sempre o mesmo.

Uma mente monotemática.

O saco com pães, os pombos, o gramado verde, o banco, sua roupa... Tudo faz parte de um quadro monótono, uma pintura que se repete a cada dia, bem como se repete, sempre, a toda hora, o mesmo pensamento.

A mesma história.

* * *

1963, Rio de Janeiro

Deram um abraço apertado naquela despedida chata e triste; como são, sem dúvida, as despedidas desse tipo:

- Você não volta?

- Não tão cedo...

- E você nem o conheceu...

- Ah! Num dia não deu pra mim, no outro ficou impossível para ele. Acho que foi melhor assim. Aliás, nunca dá certo quando você promove esses encontros. Qual foi a vez em que algum desses moços tinham algo a me dizer?

- Esse é diferente! Acredite!

- É sempre assim...

Essa foi a conversa de despedida. Uma amenidade boba, para que se distraíssem em vez de pura e simplesmente chorar.

As duas amigas se separariam; e sabiam que dali em diante seria muito difícil haver um reencontro, já que uma permaneceria no Brasil, a outra moraria na Colômbia.

* * *

1963, Cartagena

Ela segura o envelope numa mão e, com o dedo indicador da outra, segue atentamente cada linha daquela carta. Já a leu talvez umas cem, duzentas vezes. Como isso foi acontecer? Um trecho a impressiona:

"...sei que parece bobo, e talvez seja definitivamente bobo, mas vou sempre pensar o que poderia ter sido, nessa grande hipótese, nesse tudo-nada que eu crio em minha mente a cada vez que penso em você... já vi sua foto, já soube de coisas suas, mas nunca a olhei nos olhos..."

A carta indica, evidentemente, um homem pelo qual ela se apaixonaria. Estava determinada a responder.

* * *

1972, São Paulo

Está há três anos morando na capital paulista, não se acostuma com nada da "cidade cinza" (é como ele se refere ao lugar), mas seu ódio à "terra da garoa" é amenizado sempre que constata a competência do serviço de correio. Chegou mais uma carta dela:

"...fico triste, muito triste, muito triste de verdade (...) não sei como faremos agora, não sei de mais nada, isso é tudo muito estranho para mim (...) tenho certeza do meu amor e também tenho certeza de seus sentimentos, mas como faremos agora? (...) parece que tudo acaba por aqui, não é? Nunca pudemos nos ver, nunca conseguimos, trabalho de um lado, trabalho de outro, distância, dinheiro, uma certa acomodação, e agora esse seu casamento (...) Talvez esse ponto final seja uma coisa boa para nós, mas eu não sei pensar sobre isso, ainda, sem chorar muito..."

Ele se odiava. Sentia-se o homem mais infeliz do mundo. Seu casamento seria dali a cinco meses, estava noivo havia mais de um ano, mas parece que somente agora os fatos pesavam sobre sua cabeça como sempre deveriam ter pesado.

E ela estava coberta de razão em tudo; ele sabia disso. Mas, agora, o que fazer...? Responder? Ignorar? Aceitar o ponto final?

* * *

1979, Cartagena

Ela nunca se apegou a rotina alguma. Nunca. Mas as idas à agência postal sempre foram a melhor parte de seu dia; ao menos, de sua semana. Infalivelmente, toda sexta-feira, lá estava a carta. Lá estavam novas páginas que ela lia e guardava na mesma caixa.

Já alugava quase dez. E quanto a isso contava com a ajuda de uma grande amiga que trabalhava na agência postal. Seu marido não poderia saber, ela tomava todos os cuidados e também tinha plena ciência que, lá no Brasil, ele também tomava precauções parecidas.

"...claro que entre nós há um amor infinito, e é essa a natureza de todo amor - ao menos presumo que seja, ou então o que sentimos vai além do amor e essas pessoas todas estão alguns degraus abaixo de nossa felicidade (...) Nossa relação soaria estranha a qualquer um. Como poderíamos denominá-la? Platonismo epistolar? Amor de cartas? Não sei, não sei mesmo. Talvez nem queira saber e o que menos precisamos agora é de denominações. Você está aí, casada e morando na Colômbia, eu aqui no Brasil, também casado (...) A vida nos separa, mas nos unimos nem que seja por birra..."

* * *

1986, São Paulo

Leu mais uma vez, antes de guardar o envelope no armário de seu escritório. Ele se orgulha dessa biblioteca secreta, dessa coleção única de edições exclusivíssimas. É o que resta a quem não tem outro meio de viver o que sente.

Mas a carta desta semana foge de todos os padrões...

"...e confesso estar cansada, extremamente cansada, dessa vida que levo (...) Quantos anos eu tenho? Nem eu sei mais. Parece que vivi uma mentira. Se ainda houvesse filhos. Mas não! E você também não teve filhos. Precisamos sim ficar juntos. Precisamos. Você e eu sabemos disso. Eu quero que você venha para cá. Eu vou me separar. A partir da semana que vem, sou uma mulher solteira. Não vou até aí, não vou fazer escândalo e respeitarei o seu tempo. Quando vier, serei sua. Já sou sua..."

* * *

1986, Cartagena

Ela sempre foi pragmática, mas ao mesmo tempo uma romântica sonhadora. Talvez apenas ela própria entendesse tais comportamentos contraditórios. Depois do desabafo e da promessa cumprida, esperava que algo melhor lhe chegasse pelo correio. Porém...

"...não consigo me separar agora, sei que talvez você possa me chamar de fraco por isso, mas simplesmente não sei como fazer isso assim, de uma hora para outra (...) tenho certeza de que você precisa repensar essa decisão antes de por em prática uma medida tão drástica (...) e inclusive pensei no fato de que nunca trocamos uma única foto; no início, foi charme de sua parte, depois ficou como uma promessa (...) você não viveu uma mentira, eu não vivi uma mentira, nossas vidas são reais, e em algum momento nos cruzaremos, ficaremos juntos, você e eu sabemos disso, mas infelizmente não há como ser agora..."

Ela chorou. Essa era uma possibilidade, ela sabia. E o que fez foi aquilo que poderia fazer após a leitura da carta: chorou, chorou e chorou.

* * *

1992, São Paulo

São quase seis anos sem receber uma única carta. Ele já mandou pelo menos umas duzentas, mas sem qualquer retorno. É claro que ele entende os motivos desse silêncio, mas ao mesmo tempo tudo é muito preocupante.

Os amigos em comum já estão perdidos no tempo. Telefones, endereços, e talvez até os nomes, enfim, tudo foi esquecido, tudo ficou para trás. Como encontrá-la agora? Será que ela está bem? Será que algo aconteceu?

* * *

1996, São Paulo

Ele ainda não sabia como reagir diante do que leu. Desde que começaram as correspondências, e eram apenas dois jovens apaixonados, essa foi a emoção mais violenta que o assolou.

Infelizmente, o sentimento de então já não tem muita semelhança com a empolgação apaixonada das primeiras cartas. O que o dominou, naquele instante, foi o ódio. Ódio de si prório, ódio da própria covardia, ódio, tristeza, pânico. Tudo de ruim.

"...depois de sua quinta carta, confesso que tomei coragem e a abri, de modo que fiquei um tanto emocionado. Me desculpe invadir sua intimidade, mas a pessoa a quem você dirige seus textos não mora mais nesta casa, e isso há alguns anos (...) demorei para escrever porque fui atrás da destinatária, e justamente não sabia como responder diante do que fiquei sabendo (...) nesta única carta que li, pude saber que vocês nunca se conheceram, então é certo dizer que jamais se conhecerão, mas talvez você possa visitá-la, ainda que seja para prestar sua homenagem póstuma (...) mas também não sei se a idéia é boa, acho que fica a seu critério (...) mas, se vier, faço questão de acompanhá-lo, eu e minha esposa, para que não apenas visite o cemitério, mas principalmente tenha uma ótima estadia nesta cidade..."

Ele respondeu à carta prontamente, sem obedecer aos antigos rituais e regras de tempo. Comprou as passagens e viajaria na semana seguinte. A carta de resposta - e agradecimento - foi enviada com os dados do vôo.

Mas ainda sentia o mais profundo ódio de si próprio. Deixou a história de sua vida passar, deixou tudo acontecer sem que fizesse coisa alguma. O que fazer agora? Nada! Mas a inação também seria algo péssimo. Estava decidido a pelo menos fazer uma única visita, ainda que póstuma, para chorar o que deveria ser chorado.

* * *

1996, Cartagena

A idéia havia dado certo! Seu amigo, o único até então a saber da história, definitivamente era um profundo conhecedor da alma masculina; e, claro, também da humanidade.

Porque as pessoas - ele dizia - sempre acham tempo para os velórios. Sempre! O sentimento de culpa as domina e tudo que mais desejam, com a maior sinceridade e do fundo de seus corações, é que aquilo seja um pesadelo, uma peça, uma brincadeira de mau gosto, qualquer coisa que não a realidade.

No fim das contas, era isso mesmo.

Ainda assim, ela tinha receio de como ele reagiria ao saber que foi envolvido numa brincadeira de tão péssimo gosto. Mas nenhum receio ou sentimento superava a ansiedade com que ela contava os segundos até a hora da chegada do avião.

* * *

1996, Cartagena

Ela já ouviu infinitas vezes a mesma notícia na TV. Não acredita, não pode ser verdade. Já chegou ao ponto de ler alguns jornais brasileiros. Mas não havia como fugir: ele estava entre as vítimas do acidente, na lista de passageiros.

O amor de sua vida morreu na queda do avião, e seu corpo jazia em meio à selva, sabe-se lá onde. Nunca, em toda sua vida, ela sentiu tanta culpa. Essa culpa horrível, inescapável, que a acompanharia de forma permanente.

* * *

2008, Cartagena

Como sempre, ela joga pedaços de pão aos pombos. Como sempre, ela vai da casa para a praça, da praça até o porto, do porto até sua casa. No caminho - sempre o mesmo -, encontra pessoas sem nome, pombos sem nome, cachorros e gatos sem nome.

São sempre os mesmos, sempre anônimos. Sempre a mesma tristeza.

E ela nem mesmo tem coragem para se matar. Gostaria, pensa nisso quase todo dia, mas falta coragem. Talvez exista algum heroísmo no suicídio, e ela não se vê como alguém com um mínimo de coragem ou coisa que o valha.

Ela convive com a culpa de ter levado à morte o único amor de toda sua vida. Passa todos os dias de sua vida pensando em como seria ter uma vida de verdade.

Uma existência tão amarga que não lhe cabe lágrimas, desabafos... Nada. Tudo que lhe cabe é uma rotina besta, os pombos e seres anônimos e o mundo que, como sempre, serve de cenário e nada mais.

* * *

2008, Rio de Janeiro

Na roda de carteado, mais uma vez pedem que ele conte a tal "história da ressurreição". No começo, os desavisados simplesmente não acreditam. Depois, diante de algumas confirmações, todos ficam atônitos.

Ele não tem prazer algum em tal narrativa, e talvez a repita tantas e tantas vezes como uma forma de penitência:

- Quando eu digo que nasci de novo não sou como aquele sujeito que levou um tiro na cabeça e a bala se desviou sem machucá-lo de forma séria. No meu caso, isso também teve a ver com a cabeça dura, mas num sentido um pouco mais figurativo... Eu ia embarcar. Juro. Estava prestes a embarcar. Desisti. Covardemente desisti. Já em casa, vendo o jornal, fiquei sabendo da notícia, como todos vocês. Liguei apressadamente para meus pais, velhinhos, para que não se assustassem caso meu nome aparecesse. Até hoje algum tio ou tia ainda pensa que estou morto. Só os credores é que não se deixaram enganar...

Todos caem na gargalhada, mas ele os olha com semblante sério.

- Não riam disso. Eu perdi o único amor da minha vida. Eu iria até uma cidade que deveria ter conhecido havia muito tempo para visitar seu túmulo. Desisti porque isso seria covarde demais. Seria um atestado de covardia. Nós somos assim, não é? Sempre temos tempo para os mortos. Ela não merecia tamanha imbecilidade de minha parte. E, depois disso tudo, principalmente do meu, digamos, "renascimento", pedi a separação e cá estou com vocês, seus palermas, dando uma aula de tranca em plena tarde de quarta-feira!

Agora, sim, todos puderam rir sem culpa alguma.

Apenas ele, em silêncio, amargava aquela tristeza de quem não teve coragem o bastante para viver a própria vida. A mesma tristeza de quando, em 1996, abriu aquela fatídica carta. É a isso que se resume sua existência.

Uma existência tão amarga que não lhe cabe lágrimas, desabafos... Nada. Tudo que lhe cabe é uma rotina besta, os pombos e seres anônimos e o mundo que, como sempre, serve de cenário e nada mais.

Adaptação


 - Mas você é um escritor, certo?
 - Eu era. Agora eu sou um bêbado, e essa é uma profissão muito desgastante, não dá pra ser as duas coisas.
 - E você vai beber tudo isso?
 - Estou com uma grande intenção de fazer isso.
 - Mas então de onde saem as suas estórias?
 - Da minha imaginação. A maior força já criada e disponibilizada para o homem. Acontece que, com o álcool, eu consigo chegar onde ninguém mais conseguiu.
 - Por isso o prêmio de melhor romance?
 - Sim, por isso.
 - E você contou esse segredo no discurso?
 - Não, Flora. Eu não contei.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Jane


Você vem, mas não vem
Está e não está
Te amo e não sei
Se devo dizer
Não devo escrever
Você não quer mais
Me ver e não ver
Não pode esperar?
Pra que ser tão prático?
E ficar tão longe
Não sei ser tão rápida
Um dia eu resolvo
E fico contigo
E vamos pra longe
Viver nossa paz.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Who wants?

"(...) e quem disse que eu não vou viver para sempre? Já pensou?, 'O homem que descobriu a fonte da juventude', não é legal?"
Jack Sparrow



É preciso olhar ao redor e perceber com delicadeza: existem pessoas admiráveis. E os motivos são tantos, e tão diferentes, que não é o caso de partir logo para a reflexão do "Sou ou não sou?". Não ainda.
Parar e pensar; parar e olhar; parar e reparar. Algumas pessoas nos fazem bem apenas por serem unicamente quem são. E esta exclusão dos interesses é um exercício tão difícil no contexto em que vivemos, que fica quase impossível descrever. Não é de hoje que cruzamos o tempo do dou-aqui-recebo-lá, e por isso o impasse.

Veja este exemplo: houve um homem que trabalhou a vida toda em uma ótica. Desde os doze anos - já que na época não havia impedimento para a idade - ali, olhando para as lentes, para as armações, estudando na prática. Foram mais de quarenta anos ininterruptos de trabalho até que se tornou o melhor e mais habilidoso, um artista, pode-se dizer. Dando banho em médicos dos olhos por aí.
Acontece que este homem, por detrás das lentes, possuía uma grande história de vida. E é por este motivo que se tornou admirável: fazia as pessoas enxergarem não só pelos olhos. 
Nos lugares em que se apresentava por todo o país, sequer pegava em uma lente ou desenhava um risco no quadro-negro. Ele estava ali para ensinar vida, para ensinar amor, estrada, sorte, trabalho, ajuda, gentileza, poder, jogos, determinação. Visão.
É claro que este homem existe. Assim como tantos e tantas que estão à nossa volta e que trazem tanta bagagem em sua pouca conversa, basta ouvir com atenção.

Existe uma grande diferença entre ser e convencer que se é. A vida não é uma entrevista de emprego.
Em uma breve conversa é possível identificar quem é. Aquele que, por detrás das olheiras traz sinceridade, não importa sobre o que esteja falando. Basta prestar um pouco mais a atenção, e usar toda a sua intuição. Entregar seu coração a uma conversa, e será possível entender. Este é o significado da honestidade.

No meio da enganação do dia-a-dia, optar pelo princípio: honestidade é transparência. Quando a verdade vem, ela não precisa de nenhum pilar para se manter verdade. Ela vem íntegra, pura, límpida. E torna as pessoas admiráveis.

Pessoas que vivem a verdade irão viver para sempre.

Ainda neste raciocínio, será possível perceber quando algo não é honesto. Se alguém precisa dizer que passou por algo, para mostrar, convencer que passou, então significa que aquele aprendizado não lhe serviu para nada. A experiência não precisa ser apresentada.

Assim é que um nome perdurará até a eternidade. Quando seus feitos forem transmitidos para gerações em seguida e em seguida, de tão grandiosos.

Estar ao lado de gente assim é ter prazer em ouvir. As grandes lições não estão nos cadernos.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Projeção

Desculpe a intromissão, meu grande amigo
Você chegar e ver-me aqui, sentado
É que eu sei, a tua porta, não se fecha
E hoje só estou bom pra tua conversa.
Sei que fazia tempo que não vinha
Mas saiba, não me esqueço, desta luz
Que entra pela fresta da janela
E deixa esta poltrona ainda melhor.
Não tô legal, mas sei, você não sabe
Nem meu bom velho uísque tem descido
Não tenho conseguido olhar nos olhos
Não tenho me esforçado com ninguém.
As ruas não me acolhem como há tempos
Há tiros na tevê, não em meu peito
Tem dias que até rogo por um destes
É que um olhar vazio não mostra medo.
Nos bares, já não caibo na cadeira
Meu chapéu ainda chama a atenção
E agora colocaram gente chata
Pra dentro e fora do balcão.
Obrigado, meu amigo, por teu ombro
Pelo café, tua força e paciência
Até hoje só te ensinei jogos sujos
Mas contigo é que aprendo o que é ser gente.

sábado, 1 de junho de 2013

Cada qual


Nunca me esquecerei do sorriso daquela menina.

Nem de suas outras tantas formas de olhar, e de me olhar, e de fazer com que a vida fosse mais simples. Mais próxima de tudo aquilo que, talvez, nunca seria.

De todos os mistérios que rodeavam aqueles lábios e toda aquela sensibilidade, de certo que o mais enigmático era sua transparência.

Não por entregar tudo assim, de bandeja, mesmo porque a tal guria vivia em uma luta constante para se manter firme, escoltada pelos próprios pensamentos, com sentimentos impenetráveis [apesar de explodirem por dentro] e com um escudo blindando seu passado, tão recente, e tão esquisito.

O segredo era sua capa de seda a cobrir todo esse arsenal. Uma forma só dela de mostrar quem era a quem quisesse enxergar [e não apenas ver, por tentativas mil], de ter expressões tão imprevisíveis que tornava, assim, praticamente impossível reconhecê-la logo de cara.

A combinação entre seu rosto e sua aura puramente mutáveis, se hospedava no fundo dos olhos de cada um.

E em cada novo olhar lançado, uma nova menina. Surgia uma nova Violeta [ e há quem tenha nome mais bonito?], cada qual com seu poder de sedução, de encantamento e de fazer o outro parar. Sim, ela não era uma menina de parar o trânsito, mas bastava olhar no fundo dos seus olhos e desmontar por inteiro. Ainda não conheço alguém que tenha resistido.

Ah...

Nunca me esquecerei de você, menina, porque a cada lente você já mudou. A cada memória, você ainda me faz desmoronar [ um homem deste tamanho, veja só].

Nunca me esquecerei porque você nunca se foi. Porque você jamais irá.