quarta-feira, 12 de junho de 2013

A covardia da última visita

Este texto foi uma das minhas grandes inspirações, para escrever tudo o que escrevo hoje. É um texto de 2008, e o autor é o Gravata, do blog Bico de Pena.
Hoje é um dia em que eu precisava escrever uma trama tão intensa quanto esta. Mas não consegui. Por isso compartilho abaixo aquilo que considero um dos melhores.

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2008, Cartagena

Como em todas as tardes, vai à praça e joga pedaços de pão aos pombos. E pensa. Pensa muito. Sempre na mesma coisa. Houve um tempo em que escolhia os assuntos em que pensar; hoje, não possui mais essa liberdade. O assunto é sempre o mesmo.

Uma mente monotemática.

O saco com pães, os pombos, o gramado verde, o banco, sua roupa... Tudo faz parte de um quadro monótono, uma pintura que se repete a cada dia, bem como se repete, sempre, a toda hora, o mesmo pensamento.

A mesma história.

* * *

1963, Rio de Janeiro

Deram um abraço apertado naquela despedida chata e triste; como são, sem dúvida, as despedidas desse tipo:

- Você não volta?

- Não tão cedo...

- E você nem o conheceu...

- Ah! Num dia não deu pra mim, no outro ficou impossível para ele. Acho que foi melhor assim. Aliás, nunca dá certo quando você promove esses encontros. Qual foi a vez em que algum desses moços tinham algo a me dizer?

- Esse é diferente! Acredite!

- É sempre assim...

Essa foi a conversa de despedida. Uma amenidade boba, para que se distraíssem em vez de pura e simplesmente chorar.

As duas amigas se separariam; e sabiam que dali em diante seria muito difícil haver um reencontro, já que uma permaneceria no Brasil, a outra moraria na Colômbia.

* * *

1963, Cartagena

Ela segura o envelope numa mão e, com o dedo indicador da outra, segue atentamente cada linha daquela carta. Já a leu talvez umas cem, duzentas vezes. Como isso foi acontecer? Um trecho a impressiona:

"...sei que parece bobo, e talvez seja definitivamente bobo, mas vou sempre pensar o que poderia ter sido, nessa grande hipótese, nesse tudo-nada que eu crio em minha mente a cada vez que penso em você... já vi sua foto, já soube de coisas suas, mas nunca a olhei nos olhos..."

A carta indica, evidentemente, um homem pelo qual ela se apaixonaria. Estava determinada a responder.

* * *

1972, São Paulo

Está há três anos morando na capital paulista, não se acostuma com nada da "cidade cinza" (é como ele se refere ao lugar), mas seu ódio à "terra da garoa" é amenizado sempre que constata a competência do serviço de correio. Chegou mais uma carta dela:

"...fico triste, muito triste, muito triste de verdade (...) não sei como faremos agora, não sei de mais nada, isso é tudo muito estranho para mim (...) tenho certeza do meu amor e também tenho certeza de seus sentimentos, mas como faremos agora? (...) parece que tudo acaba por aqui, não é? Nunca pudemos nos ver, nunca conseguimos, trabalho de um lado, trabalho de outro, distância, dinheiro, uma certa acomodação, e agora esse seu casamento (...) Talvez esse ponto final seja uma coisa boa para nós, mas eu não sei pensar sobre isso, ainda, sem chorar muito..."

Ele se odiava. Sentia-se o homem mais infeliz do mundo. Seu casamento seria dali a cinco meses, estava noivo havia mais de um ano, mas parece que somente agora os fatos pesavam sobre sua cabeça como sempre deveriam ter pesado.

E ela estava coberta de razão em tudo; ele sabia disso. Mas, agora, o que fazer...? Responder? Ignorar? Aceitar o ponto final?

* * *

1979, Cartagena

Ela nunca se apegou a rotina alguma. Nunca. Mas as idas à agência postal sempre foram a melhor parte de seu dia; ao menos, de sua semana. Infalivelmente, toda sexta-feira, lá estava a carta. Lá estavam novas páginas que ela lia e guardava na mesma caixa.

Já alugava quase dez. E quanto a isso contava com a ajuda de uma grande amiga que trabalhava na agência postal. Seu marido não poderia saber, ela tomava todos os cuidados e também tinha plena ciência que, lá no Brasil, ele também tomava precauções parecidas.

"...claro que entre nós há um amor infinito, e é essa a natureza de todo amor - ao menos presumo que seja, ou então o que sentimos vai além do amor e essas pessoas todas estão alguns degraus abaixo de nossa felicidade (...) Nossa relação soaria estranha a qualquer um. Como poderíamos denominá-la? Platonismo epistolar? Amor de cartas? Não sei, não sei mesmo. Talvez nem queira saber e o que menos precisamos agora é de denominações. Você está aí, casada e morando na Colômbia, eu aqui no Brasil, também casado (...) A vida nos separa, mas nos unimos nem que seja por birra..."

* * *

1986, São Paulo

Leu mais uma vez, antes de guardar o envelope no armário de seu escritório. Ele se orgulha dessa biblioteca secreta, dessa coleção única de edições exclusivíssimas. É o que resta a quem não tem outro meio de viver o que sente.

Mas a carta desta semana foge de todos os padrões...

"...e confesso estar cansada, extremamente cansada, dessa vida que levo (...) Quantos anos eu tenho? Nem eu sei mais. Parece que vivi uma mentira. Se ainda houvesse filhos. Mas não! E você também não teve filhos. Precisamos sim ficar juntos. Precisamos. Você e eu sabemos disso. Eu quero que você venha para cá. Eu vou me separar. A partir da semana que vem, sou uma mulher solteira. Não vou até aí, não vou fazer escândalo e respeitarei o seu tempo. Quando vier, serei sua. Já sou sua..."

* * *

1986, Cartagena

Ela sempre foi pragmática, mas ao mesmo tempo uma romântica sonhadora. Talvez apenas ela própria entendesse tais comportamentos contraditórios. Depois do desabafo e da promessa cumprida, esperava que algo melhor lhe chegasse pelo correio. Porém...

"...não consigo me separar agora, sei que talvez você possa me chamar de fraco por isso, mas simplesmente não sei como fazer isso assim, de uma hora para outra (...) tenho certeza de que você precisa repensar essa decisão antes de por em prática uma medida tão drástica (...) e inclusive pensei no fato de que nunca trocamos uma única foto; no início, foi charme de sua parte, depois ficou como uma promessa (...) você não viveu uma mentira, eu não vivi uma mentira, nossas vidas são reais, e em algum momento nos cruzaremos, ficaremos juntos, você e eu sabemos disso, mas infelizmente não há como ser agora..."

Ela chorou. Essa era uma possibilidade, ela sabia. E o que fez foi aquilo que poderia fazer após a leitura da carta: chorou, chorou e chorou.

* * *

1992, São Paulo

São quase seis anos sem receber uma única carta. Ele já mandou pelo menos umas duzentas, mas sem qualquer retorno. É claro que ele entende os motivos desse silêncio, mas ao mesmo tempo tudo é muito preocupante.

Os amigos em comum já estão perdidos no tempo. Telefones, endereços, e talvez até os nomes, enfim, tudo foi esquecido, tudo ficou para trás. Como encontrá-la agora? Será que ela está bem? Será que algo aconteceu?

* * *

1996, São Paulo

Ele ainda não sabia como reagir diante do que leu. Desde que começaram as correspondências, e eram apenas dois jovens apaixonados, essa foi a emoção mais violenta que o assolou.

Infelizmente, o sentimento de então já não tem muita semelhança com a empolgação apaixonada das primeiras cartas. O que o dominou, naquele instante, foi o ódio. Ódio de si prório, ódio da própria covardia, ódio, tristeza, pânico. Tudo de ruim.

"...depois de sua quinta carta, confesso que tomei coragem e a abri, de modo que fiquei um tanto emocionado. Me desculpe invadir sua intimidade, mas a pessoa a quem você dirige seus textos não mora mais nesta casa, e isso há alguns anos (...) demorei para escrever porque fui atrás da destinatária, e justamente não sabia como responder diante do que fiquei sabendo (...) nesta única carta que li, pude saber que vocês nunca se conheceram, então é certo dizer que jamais se conhecerão, mas talvez você possa visitá-la, ainda que seja para prestar sua homenagem póstuma (...) mas também não sei se a idéia é boa, acho que fica a seu critério (...) mas, se vier, faço questão de acompanhá-lo, eu e minha esposa, para que não apenas visite o cemitério, mas principalmente tenha uma ótima estadia nesta cidade..."

Ele respondeu à carta prontamente, sem obedecer aos antigos rituais e regras de tempo. Comprou as passagens e viajaria na semana seguinte. A carta de resposta - e agradecimento - foi enviada com os dados do vôo.

Mas ainda sentia o mais profundo ódio de si próprio. Deixou a história de sua vida passar, deixou tudo acontecer sem que fizesse coisa alguma. O que fazer agora? Nada! Mas a inação também seria algo péssimo. Estava decidido a pelo menos fazer uma única visita, ainda que póstuma, para chorar o que deveria ser chorado.

* * *

1996, Cartagena

A idéia havia dado certo! Seu amigo, o único até então a saber da história, definitivamente era um profundo conhecedor da alma masculina; e, claro, também da humanidade.

Porque as pessoas - ele dizia - sempre acham tempo para os velórios. Sempre! O sentimento de culpa as domina e tudo que mais desejam, com a maior sinceridade e do fundo de seus corações, é que aquilo seja um pesadelo, uma peça, uma brincadeira de mau gosto, qualquer coisa que não a realidade.

No fim das contas, era isso mesmo.

Ainda assim, ela tinha receio de como ele reagiria ao saber que foi envolvido numa brincadeira de tão péssimo gosto. Mas nenhum receio ou sentimento superava a ansiedade com que ela contava os segundos até a hora da chegada do avião.

* * *

1996, Cartagena

Ela já ouviu infinitas vezes a mesma notícia na TV. Não acredita, não pode ser verdade. Já chegou ao ponto de ler alguns jornais brasileiros. Mas não havia como fugir: ele estava entre as vítimas do acidente, na lista de passageiros.

O amor de sua vida morreu na queda do avião, e seu corpo jazia em meio à selva, sabe-se lá onde. Nunca, em toda sua vida, ela sentiu tanta culpa. Essa culpa horrível, inescapável, que a acompanharia de forma permanente.

* * *

2008, Cartagena

Como sempre, ela joga pedaços de pão aos pombos. Como sempre, ela vai da casa para a praça, da praça até o porto, do porto até sua casa. No caminho - sempre o mesmo -, encontra pessoas sem nome, pombos sem nome, cachorros e gatos sem nome.

São sempre os mesmos, sempre anônimos. Sempre a mesma tristeza.

E ela nem mesmo tem coragem para se matar. Gostaria, pensa nisso quase todo dia, mas falta coragem. Talvez exista algum heroísmo no suicídio, e ela não se vê como alguém com um mínimo de coragem ou coisa que o valha.

Ela convive com a culpa de ter levado à morte o único amor de toda sua vida. Passa todos os dias de sua vida pensando em como seria ter uma vida de verdade.

Uma existência tão amarga que não lhe cabe lágrimas, desabafos... Nada. Tudo que lhe cabe é uma rotina besta, os pombos e seres anônimos e o mundo que, como sempre, serve de cenário e nada mais.

* * *

2008, Rio de Janeiro

Na roda de carteado, mais uma vez pedem que ele conte a tal "história da ressurreição". No começo, os desavisados simplesmente não acreditam. Depois, diante de algumas confirmações, todos ficam atônitos.

Ele não tem prazer algum em tal narrativa, e talvez a repita tantas e tantas vezes como uma forma de penitência:

- Quando eu digo que nasci de novo não sou como aquele sujeito que levou um tiro na cabeça e a bala se desviou sem machucá-lo de forma séria. No meu caso, isso também teve a ver com a cabeça dura, mas num sentido um pouco mais figurativo... Eu ia embarcar. Juro. Estava prestes a embarcar. Desisti. Covardemente desisti. Já em casa, vendo o jornal, fiquei sabendo da notícia, como todos vocês. Liguei apressadamente para meus pais, velhinhos, para que não se assustassem caso meu nome aparecesse. Até hoje algum tio ou tia ainda pensa que estou morto. Só os credores é que não se deixaram enganar...

Todos caem na gargalhada, mas ele os olha com semblante sério.

- Não riam disso. Eu perdi o único amor da minha vida. Eu iria até uma cidade que deveria ter conhecido havia muito tempo para visitar seu túmulo. Desisti porque isso seria covarde demais. Seria um atestado de covardia. Nós somos assim, não é? Sempre temos tempo para os mortos. Ela não merecia tamanha imbecilidade de minha parte. E, depois disso tudo, principalmente do meu, digamos, "renascimento", pedi a separação e cá estou com vocês, seus palermas, dando uma aula de tranca em plena tarde de quarta-feira!

Agora, sim, todos puderam rir sem culpa alguma.

Apenas ele, em silêncio, amargava aquela tristeza de quem não teve coragem o bastante para viver a própria vida. A mesma tristeza de quando, em 1996, abriu aquela fatídica carta. É a isso que se resume sua existência.

Uma existência tão amarga que não lhe cabe lágrimas, desabafos... Nada. Tudo que lhe cabe é uma rotina besta, os pombos e seres anônimos e o mundo que, como sempre, serve de cenário e nada mais.

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