terça-feira, 25 de junho de 2013

Shakespeare


Gosto de gente articulada. Nem sei a porcentagem destes seres no nosso meio, mas sei que é bem pequena,  e por isso dou uma atenção especial em suas habilidades. Há quem os transforme em monstros: Manipuladores! Inescrupulosos! Sem caráter!, diriam. Mas não ligo, porque é tão difícil ser categórico, que uma deslizada - quando bem feita - no meio da conversa chega até a dar nojo, entendo, é normal. O bem-organizar das palavras embrulha o estômago de quem não sabe fazer, traz palpitações no peito daqueles que já foram atropelados por um bom discurso, e invoca a ira indomada dos últimos: os que ousam interromper, porém durante a arguição, metem os pés pelas mãos. E a última, a que deixa mesmo todo mundo louco, é a tal da segurança. Pessoas articuladas são seguras de si - ainda que saibam não valer, lá, um vintém; do que dizem - ainda que seja uma grande besteira; do que vestem - tudo bem, você já entendeu. E essa segurança abala as estruturas ao redor.
Gosto de pessoas articuladas porque eu sou assim.

Gosto também de gente espontânea. Entretanto, desta vez, porque eu não sou assim. Não sou e nunca saberei como é soltar uma expressão tão bonita assim, de primeira, no susto, sem pensar, porque essas coisas ou se nasce sendo, ou só na próxima. Admiro principalmente porque quem é não sabe que é (ou não acha que é), e essa quase falsa modéstia traz ainda mais charme a qualquer ocasião. Aquela expressão única, que traz até uma dancinha, quando se toca sua música preferida (ou qualquer música, por que não?), sempre me despertaram encanto, desde bem menino. Curiosamente, assim como tem gente que faz curso pra ser articulado, já vi gente fazendo curso pra ser espontâneo [tão útil quanto, garanto]. Como é que alguém tem a audácia de dizer que é possível se aprender uma coisa destas?
Gosto de pessoas espontâneas porque há toda uma pureza em sorrir. Gosto porque eu não sou assim, e porque aos poucos vou vendo que é preciso completar o que falta de algum jeito.

Nenhum comentário: