sexta-feira, 26 de julho de 2013

Homeopatia


Como uma droga ou um vício qualquer, funciona simples: sei onde está, como e com quem encontrar, e após dez anos (10 anos!) de consumo ininterrupto aprendi finalmente como usar e fazer de verdade a cabeça.

A música me é mais forte que qualquer outra forma de prazer. [e olha que, quem me conhece, sabe como eu lido com o prazer]

A cena corre leve: chega a hora de começar. Nos bastidores, todos preparados com o figurino já a postos, conversando ansiosos. Disfarçando a tensão. E então todos se abraçam, mas não em grupo, se abraçam um por um: "Bom show", ou uma mensagem de força que preferir. Eu sempre gostei mais de "Vamos arrebentar!". Até agora, tem funcionado.

Subimos então, e as luzes se apagam. Existem alguns segundos necessários após a música ambiente parar e antes do som começar, preenchido sutilmente pelos sussurros e comentários. Não posso ouvi-los com clareza, só sei que estão ali.

O espaço entre os primeiros acordes e o "Muito obrigado, até a próxima!" é sempre enigmático.

Faço o exercício de emendar a noite, tomo dezoito cafés, escrevo dezenove páginas, penso em tudo vinte vezes. Eu não quero dormir, eu não posso dormir, exatamente por saber que - tal qual um doce qualquer - a rebatida do dia seguinte é fulminante. 

Por que essa dor que me dá vontade apenas de pegar a estrada e seguir rumo ao próximo show? Por que as harmonias que delicadamente inverto me fazem pensar nela e me sentir, agora, tão só? 

Desde o primeiro abraço sinto falta daqueles olhos ali embaixo. Mas não é só isso, e sim é o êxtase ao contrario, a euforia garganta afora. Jogo fora, não resolve.

Deus me encha de força e acalme meu coração. Dai-me a fortaleza que sou e a frieza que tenho em momentos de ameaça, e ajude-me a atropelar a dor do dia seguinte. A bad trip, como chamariam os mais jovens. 

Crianças, vocês ainda não chegaram nem perto da parte bad. Alerto: prefiram onde estão.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Amor pra recomeçar



Te desejo, vez em quando na vida, últimos capítulos de novela. Todos se desculpando, quem era durão agora podendo chorar e os amores que não deram certo durante estes meses, que finalmente se tornem casamentos.
Inclusive o seu.
Desejo que você continue com seus escudos, e até os melhore, mas que vá a partir de agora aprendendo a usá-los nos momentos certos, e a derrubá-los no chão quando der. Só aviso que para isso vai ter que apanhar muito de cara limpa, e peço que não tenha medo.
Desejo não estar por perto quando isso acontecer. Ainda me machuca ver você se machucando e ter que deixar acontecer.
Rezo para o meu Deus pedindo que você não caia nestas armadilhas perigosas que estão aparecendo [às vezes, tão bem disfarçadas só pra ti]. A gente não tem tempo suficiente pra errar todos os erros do mundo, então que você pegue este clichê e anote bem os erros dos outros.
E que todo este veneno que injetam em ti entre em suas veias, e te faça mais forte, e que você se encha de toda a parte má. Só é possível ser uma boa pessoa quando se sabe do que o mal é capaz, e isso é tanto, tanto.
Você está no ápice da melhor parte, na metade da pior parte, no terço das consequências, no quarto da sabedoria. Saiba disso, mas não pense nisso.
Toda essa intensidade e não-comemoração se dá pela distância, entenda bem. Entenda que te quero bem e que me incomodam muitas coisas. Faz tempo que adquiri minha liberdade, e você está começando agora. Você demorou tanto pra chegar que me prendi, e agora é hora de começar tudo de novo. Onde, se não aqui? Quando, se não agora?
Se não te desejo luz, paz, dinheiro, que você realize todos os seus desejos e tudo mais, você saberá bem porque. Guarde bem o que é dos outros, traga-me sua melhor parte, que o que é seu já está aqui.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Letras certas em momentos tortos


Já tive que ir a missa obrigado, já tentei ser um homem casado
Já aprendi a fingir meu sorriso, já fui sincero e já tive juízo
Já troquei de lugar minha cama, já fiz comédia, eu já fiz drama
Já ouvi cada voz que me chama, eu já fui bom e já tive má fama
Já fui ético, antipático, fui poético, fui fanático
Fui apático, fui metódico, sem vergonha, fui caótico
Eu já li paulo coelho, eu já escutei tudo que era conselho
Eu já preguei o evangelho, cheguei a achar que eu era velho
Já fiz tanta coisa que nem me lembro do que eu era contra ou fui a favor
O que me dava prazer, hoje só me dá dor
Nunca aprendi o que é o amor
E ouvi uma voz, que diz: "não há razão"
Você sempre mudando já, não muda mais
E já que estou cada vez mais igual
Não sei o que fazer comigo
Já chorei de tanta mágoa, já fiz tempestade em copo d'água
Já tentei a sorte na gringa, já aprendi que não tenho ginga
Eu já votei em tucano, já fui ovo lacto vegetariano
Insano, já fui santo e profano
Fiz na sua frente e por baixo dos pano
Já estudei teologia e não creio mais naquilo em que cria
Já sofri de claustrofobia, de teimosia e cleptomania
Já provei, já fumei, já tomei, já deixei, assinei, viajei, já peguei
Já sofri, já iludi, já fugi, já assumi, fui e voltei, afirmei e menti
E com toda essa falsidade, minhas mentiras já são verdades
Já tive de tudo o que queria, e já me contentei com mixaria

Já fui em cana, já tive grana, passei rasteira em muito bacana
Opinei e me equivoquei, nunca assumi pra ninguém que errei
Sem diploma, nem salário, já fui sócio majoritário
Já escrevi tanto nome no braço, eu já preenchi tudo que era espaço
Fui psicólogo, fui astrólogo, já fui leigo, fui enólogo
Fui alcoólatra, fui atleta, fui obeso e já fiz dieta
Já cuspi e mandei pro caralho, o lugar onde hoje eu trabalho
E agora eu só me distraio fazendo versão de rock uruguaio

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Overload


Estou cansado de mim mesmo. Esgotado de ser quem sou. Irritado com o som da minha própria voz.
Não obstante, isso não se deve ao mundo. 

O mundo não me pede satisfações porque fujo bem.
O mundo não me conhece direito porque minto bem.
O mundo não me traz conselhos porque disfarço bem.
Por fim, o mundo não me cobra. Também porque já sei fazer isso bem, muito mais e com muito mais ímpeto do que deveria.

Estou cansado de mim mesmo, tortura por autobiografia.

Meu dia-a-dia é trazer sensações boas às pessoas em forma de nostalgia. Resgato emoções e as transformo em sorrisos, arrepios, palmas, bilhetes de papel.

E para fazê-lo direito, fui usado como cobaia durante a criação. Era o único jeito de saber se funcionaria mesmo.
Foram fotos, discos, livros, 
lugares, vistas, viagens, 
cheiros (ah, os cheiros!), marcas, beijos,
comidas, bebidas, emails,
tudo revivido assim, 
de forma mais física, impossível.
Funciona, reviver uma retrospectiva - quando se pode, somente, assisti-la - é de se suspirar.

Contudo não escapei do que parece ser uma overdose de mim mesmo.  Agora basta: chegou o tempo do silêncio.



quinta-feira, 4 de julho de 2013

A casa e a vista do nascer do sol.

Interior de Minas gerais, Junho de um ano qualquer. Seis e pouquinho da manhã...



 - Ai, menino, de novo essa música?
 - Não é demais, guria?
 - Não! Hunf...quero dormir
 - Tá bem, mas vai ter que dormir ouvindo a Sinfonia Inacabada
 - Morra, Schubert!
 - hahahahah, vem pra cá vai, olha essa vista do sol! Tem café aqui também
 - Hum, café?
 - O meu, ainda, imperdível.
 - Bobo. Esse sol tá lindo mesmo.

Um gole de café...

 - Este sol demorou...
 - É inverno, o que você queria?
 - Não, falando sério. Custou tanto pra gente ver o sol daqui de cima. Longe de tudo.
 - Ah...ah. Eu sempre soube que conseguiríamos.

Silêncio embaraçoso...

 - Pára a música, pega o violão!
 - Você dança?
 - Não sei dançar mais sem você, menino.
 - Claro que sabe. Dança pra mim!

E aquela dança ao som de simples acordes foi delicada, leve e sensual. Fazia frio, então ela dançava de moletons e com a blusa de lã que ele usava pra dormir, mas vá lá...

 - Que delícia...posso tocar este violão o dia todo, se você dançar assim
 - Não, tenho planos pra nós
 - Hein?
 - Vem cá!



 E o resto do dia, o resto da vida, se explicam por si.



terça-feira, 2 de julho de 2013

Hora de voltar

Chega de procrastinar. Já não há nada a fazer aqui fora.

Lembro-me muito mal de porque fui entrar no meio de toda essa gente, e essa não-busca por coisa nenhuma passou a me torturar. O que é que este meio, de fato, veio a me oferecer?

Em meio a uma reflexão, me pego em um tempo em que observava demais, lia demais, pensava demais e falava de menos. Por Deus, quando foi que comecei a falar tanto assim? Até tenho uma teoria: percebi que estava num meio onde não tinha muito a aprender, e então, passei a ensinar. Palestras em mesa de boteco, verdadeiros monólogos durante um almoço qualquer. 

Foi então que passei a não suportar mais ouvir minha própria voz, mudei meu sotaque, empobreci meu vocabulário, mudei meu olhar, enfim. Mas hey, por que ninguém me avisou? Aqui não é mesmo pra mim.

É hora de voltar pra selva, onde os perigos são muito maiores porque são só meus, e porque já estão aqui dentro. Onde o filtro é gigante e, sim, tão blasé quanto precisa ser. Onde, por fim, posso muito mais ouvir do que falar, aprender do que ensinar.
É tempo de olhar pra dentro. Ao contrário do que em minha ultima visita - onde a selva estava bagunçada e perigosa - hoje vejo um grande campo vazio e devastado. Não há muito o que explorar, o que em compensação, mostra muito espaço pra se colocar o que quiser. Melhor [re]começar do jeito certo, então.

Que eu seja bem vindo de volta. Trazendo apenas o sorriso da garota confusa e cheia de esperanças no peito, tenho fome de silêncio e sede por tudo o que há de novo. E com certeza há.