terça-feira, 14 de outubro de 2014

Dazed and confused



Era exatamente assim que eu estava. Num dia qualquer, de um mês qualquer, daquele ano. Qualquer ele que fosse.
Saí, atravessei ruas e avenidas da maior cidade do país, assim. Exatamente - repito - neste mesmo nível de embriaguez. E corri.
E voei.
E fui até o melhor lugar do mundo. Aquele onde a noite me recebia todas vezes em que precisava, em sua única maneira, com sua única trilha sonora, visual, cheiro ou característica qualquer que fosse.
Cheguei vivo. E ali investi - sim, porque jogar fora é jogar na poça d'água - todo um dinheiro que não deveria ter existido. Não naquela noite.

O tempo passou.

E apesar de me lembrar tão bem do passado, hoje me encontro em tal estado de embriaguez - nem menos, nem mais - que permite que eu compare, reflita, sofra e chore. E eu choro.
Choro porque há paixão, há amor, há tesão, há arrepio e medo, e tudo isso não é pela noite. Não é por elas. Mas sim, inevitavelmente, por ela.

A cabeça gira, faz calor, os violinos gritam em meus ouvidos e ainda sim, sinto o perfume na lembrança. O perfume que não está aqui.

Tudo se inverteu. A idade, o modelo, a cor, o tamanho, a textura, o padrão, agora já não faz mais sentido. Até a trilha sonora mudou completamente para aquilo que eu jamais pensei que iria ouvir assim, no meio da noite, em meio a lanternas, ou filmes na tv.

Mas tudo ficou inexplicável e incrivelmente bom.

Conforme as linhas se embaralham pela tela, temo o futuro, sinto o desejo, choro de dor, engulo a saudade, atropelo a incompatibilidade - que palavra difícil de escrever, essa! - , brigo com o medo, anseio o futuro. Parafraseio: Preparo-me para o pior, espero pelo melhor, recebo o que vier.

E se há torpor e confusão, por que não, ouvir Led Zeppelin? Só porque há alguém que gosta do outro lado da linha?

Não por isso.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Replay


Paro. Volto, volto tudo. Começo de novo, assisto, volto. Assisto em câmera lenta, sem perder sequer um movimento, e vou em frente.

Aquele momento merece mil vezes.

Nunca mais pensei que fosse parecer adolescente. Assim, pra mim, praticamente iniciante. Mãos suadas, desculpas esfarrapadas, pernas inquietas, borboletas. Claro, lá mesmo.

Poderia ficar a noite toda ali. Só olhando seus olhos me olhando, decorando cada traço do seu rosto, tentando encontrar algum defeito que me fizesse ter vontade de correr. Mas correr pra longe, e não mais ainda pra dentro de ti. Já que já estamos assim, bagunçados.

Mas não. A gente precisa falar, e por isso, a fala ficou sem controle. Uma metralhadora de palavras, e em pouco tempo já deu pra perceber que podia ser perfeito. Droga! E pensando bem, eu tinha e tenho tanto a te dizer, que foi até um pouco confuso, reconheço. Sorte que bebia um pouco entre uma declaração e outra.

Assim, volto a fita mais uma vez e presto atenção naquele abraço, nas mãos se tocando enquanto nosso perfume se misturava, nos olhares de todos em volta tentando entender o que não precisava ser explicado. E depois pulo a parte difícil, e vou logo pro final...

Aquele beijo que veio lá do fundo, chegou nos lábios e parou ali. O corpo apertou, as batidas dos corações pulsavam em sintonia, meu rosto já sentia o seu e de repente um choque. Se não estivesse bem firme, talvez fosse arremessada contra a parede. Aí você podia fazer o que quisesse.

Repito mais uma vez a cena toda, de trás pra frente, cuido do que quero ver, vejo até o que não devia. Como pode?

Preciso tirar essa cena de mim.

Vem e me traz uma nova?

Quero replay.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Two to Tango



Quando parei no sinal, apenas respirei. Vidrei os olhos naquela luz vermelha que ia aumentando, aumentando...já era claro que faltava emoção. Tarde da noite, quase sem perspectiva, o caminho de casa quase vazio - não fosse a loucura dessa cidade - e tão cheio de possibilidades.

Ouvi um ronco de motor, chegando junto com um cheiro de óleo que eu já conhecia de algum lugar. 

Era ela. 

Na hora, quase travei, tão grande o susto. Fiz só o que consegui: acenei um sim com a cabeça...mudo, entre um segundo e outro no contador ali do poste. Ela sorriu, enquanto falava no celular, e retribuiu: sim. Óbvio, com a cabeça.

Começou, então, uma estranha corrida.

Deixei que ela fosse na frente...sempre confiei na minha máquina. E ela foi mesmo! Porém, no caminho, deixando vestígios para que eu soubesse que caminho seguir, por onde andar. Coisa de quem quer ser encontrada.

Comecei a gostar da brincadeira. Chegava perto, ultrapassava, fazia um sinal...e a deixava ir novamente. Até que numa dessas, ela desapareceu. Comi poeira, diriam os fanáticos...

Ainda sim, tenho minha fama, e peguei um atalho. Chão batido e pista estreita nunca me deram medo, e não é que quase encostei nela lá na frente? Estava indo bem novamente.

Resolvi pegar leve. Ela ja mostrou que tem medo e que é melhor ir com calma, então vamos rodar a noite toda, se preciso. Pois bem...foi que em uma fração de segundo, pronto! Sumiu novamente!

De lá de cima da rampa, dava pra ver os faróis lá longe, o suporte para bicicletas, a forma dos cabelos balançando contra a luz.

Fiquei tão desnorteado que até parei o carro, encostei, desci e pisei na terra fofa. Ainda havia poeira subindo, e eu aqui tendo que pisar no freio. 

Ainda te fecho por aí, em um estacionamento ou uma praça qualquer. Ah, você vai ver...

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Inverno de 97



Mais um ciclo de inverno que acabou comigo. Todos os anos, desde aquele noventa e sete, é a mesma coisa...


Naquela noite, saí do trabalho apressado, louco para que, em algum dos bares por entre as ruas estreitas, pudesse rolar algum rock n' roll. Até com a fita cassete do Stray Cats no bar do Mota eu ficaria feliz. E fui.

Ainda de uniforme - e não tinha a menor intenção de trocar de roupa - entrei pelo fundo do bar. O Mota, meu amigo, me recebeu olhando para aquele monte de cadernos que preenchia enquanto a noite rolava. Me deu até mais atenção do que eu queria, mas tudo bem.

Peguei meu uísque, cowboy porque ainda não tinha aprendido a ser americanizado, e parei de frente para uma banda de eighties rock.  Olhei para o lado e a vi: cabelos quase loiros, saia quase vestido, anel quase aliança, batom quase madura. Mas era só uma menina, que me retribuiu o olhar: Prazer quase te conheço.

Claro, não fui. A cidade é muito grande, são muitos bares, muitas músicas, muitas bebidas...por que ali? Naquele bar feio e escuro do Mota? Tomando uísque de rua, iria encontrar um sorriso daqueles, com Separate ways na trilha sonora?

Tomei mais um gole, fechei os olhos, senti o blend, deixei tudo descer com calma, e abri novamente. Ela já estava indo embora, quase como um vulto. Olhou para trás como quem finge esperar uma amiga, e logo retomou. 



Depois daquele noventa e sete e de seus litros de Jack, cigarros e mais cigarros, Beethoven em loop no toca fita do carro, orações intercaladas com as marchas do meu monza, arma descarregada na cintura,  noites frias e solitárias de terno e chapéu...
Jurei para mim mesmo que nenhum inverno jamais seria como aquele.

Não funcionou.




Em tempo: como eu amava aquele carro!

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Sós assim.

Naquele dia, deu certo.

Foi até difícil de acreditar, porque demorou tanto! Mas aconteceu de forma quase tão inusitada quanto ele havia imaginado. Como ela tanto temia.

E foi simples, como deveria ser. Ali, no corredor da maionese e da mostarda, ele comparava duas marcas despretensiosamente. Ela, entrou no corredor distraída empurrando seu carrinho discreto com algumas maçãs, creme dental e um vinho com o rótulo para baixo. Vai saber.

O que sei é que quando ela percebeu, não deu pra voltar atrás. Esses carrinhos não têm marcha ré. Era hora de encarar, engolir seco, disfarçar o coração na garganta...

 -Ai, meu Deus...
 - ...
 - ...
 - ...

Se ele tivesse derrubado os dois potes amarelos, seria cena de novela. Mas não, a vida não é assim.

 - Oi?
 - ...oi!
 - Ai, desculpa!

E a abraçou. Era só o que precisava fazer, o que queria fazer, porque sabia o que iria acontecer...e porque aconteceu: foi correspondido. Desesperadamente correspondido.

 - ...por que?
 - Não me deixa mais fugir, vai? Faz alguma coisa?
 - Posso te segurar aqui até fechar o expediente do mercado, comecei agora!

Ela riu. Claro que riu, porque ria todas as vezes, porque a moça mulher era encantada por aquele rapaz e pelo bom humor que vinha junto com aquelas duas covinhas.

Ele não. Fechou os olhos e, pra manter o mistério, só abaixou a cabeça e relaxou. O mundo precisava daquilo. O dele, e o dela.

Enfim, sós.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Can't fight the night


Quando a noite está em seu mais profundo silêncio e intensidade, o que se traduz em aproximadamente três e meia, todas as coisas se confundem. As imagens enganam, as palavras entregam duplos, triplos sentidos, os olhares e suas intenções - ou mesmo suas não intenções - se misturam completamente, desordenadamente.

A noite continua implacável.

As pessoas mudaram, se mudaram, desapareceram, apareceram. Estão ali, e não estão mais. Tudo acontece muito rapidamente, visto que todos os sentidos estão aguçados, então por que não a noção de tempo?

Os sorrisos foram substituidos, inibidos, alguns desprezados, outros enaltecidos desmerecidamente. Os sorrisos continuam envolvendo e criando esperanças. Milagrosamente.

Ainda sobrevive o suspense, a chama, a loucura quieta esperando sua explosão. À noite tudo vem à tona...

São gritos, barulhos, cheiros, toques, movimentos, luzes, beijos, gostos, força, brutalidade, sensibilidade, fumaça, respirações, dores, observações, idas, chegadas, empurrões, ações, disfarces, esconderijos...

Até perco o fôlego.

Não se trata de escolha. Quem cansou da noite nunca pertenceu a ela, não se engane. Essa vida não é para poucos, menos ainda para interessados, entusiastas, curiosos, corajosos, metidos. Depois que o sol se põe, a vida recusa amadores.

Odeio amadores.

Porque não basta amar. É preciso ser. O coração dá o pulso do ponteiro dos segundos, no lado direito do seu relógio. E se a noite não está dentro de você, como deixá-la sair assim que escurecer?

Cada noite quem faz é você. E não existe noite ruim, apenas aquela que você se fechou em seus pensamentos diurnos.




"Só a noite é minha amiga, a quem friamente confesso a natureza noturna dos meus infernos diários. Eu tenho o mesmo segredo dos malditos solitários: ninguém sabe a natureza dos meus infernos diários."
(Fagner)

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Eu preciso te contar.

Eu preciso te contar.

Não sei bem quando, ou mesmo ao certo como, só sei que você iria gostar de saber, entende?

Tudo bem se não.

O que importa é que apesar de todas as mudanças, talvez a origem não seja assim tão desprezível. O jeito como tudo começou ajuda a explicar parte da razão de como tudo está, ou estará.

As canções que ouvi nesses últimos anos, os filmes que assisti, os lugares - e principalmente, os tantos palcos - em que passei. Será que vai ser tão emocionante ouvir quanto está sendo o viver?
Juro que espero, e até rezo para, que sim.

Você precisa saber das tantas coisas loucas e boas que vi e ouvi, que senti, que fiz sentir. E sei que não vai se importar se eu esconder uma ou outra, para o nosso próprio bem.

Aliás, espero saber dispará-las de acordo com o que você puder ouvir.

Você precisa saber das pessoas, de muitas delas. E conhecer, então, já pensou? Me emociono só de pensar, que você possa vir a trocar certas confidências com alguém que me conheceu nem que seja um pouco.

E se este texto tem cara de póstumo é porque depois que você chegou tenho pensado muito nisso. Nessa coisa de missão cumprida.

A propósito, daqui do escritório, os cachorros dos vizinhos latem tão alto que parece até que estão aqui dentro. E pela quantidade de uísque que já bebi, desejar que o mundo acabe em silêncio já é um mantra.

.

Agora que você já está assim, e que nossos momentos juntos estão cada vez mais frequentes, penso que realmente fará diferença as canções que ouvimos no carro. As pessoas que encontramos por aí, a forma como sua simpatia deixou nosso dia mais leve, e até aquela conversa que você quase acompanhou se não tivesse dormido no meio do caminho. 

Que os recursos de hoje, e do futuro, permitam que você leia tudo o que quiser desta coleção de registros - se assim for a tua vontade. E se não for, que os mesmos recursos te ajudem a destruí-la para sempre, afinal, muita gente que deveria - e também que não deveria! - já foi ajudada e/ou prejudicada pelas minhas palavras.

Saiba que elas sempre foram sinceras. E que por trás de qualquer mistério, ali estará a minha verdade, tentando contribuir para que você construa a sua.

Eu preciso te contar que muita coisa está para mudar. Todo dia.

Por isso guarde esta data!

A. O. Do.

sábado, 28 de junho de 2014

Bem fechados

Já não sei mais em quem, ou em quê botar a culpa por esses espaços vazios entre um texto e outro. Acho que já tentei me enganar com várias desculpas, mas nenhuma delas me pareceu convincente o suficiente para me tranquilizar: falta de tempo, vida de adulto, dedicação ao trabalho, emburrecimento...tudo parece comum.

No fim, o que me pega mesmo é o medo de assumir que não tenho pensado. Não o suficiente, não no que interessa, enfim. Sem loucura. Será?

Vez em quando vem uma enxurrada. Quatro, cinco textos de uma vez. Mas ainda sim, tenho guardado muito pra mim. E tenho ficado doente, de um jeito até perigoso. Do jeito mais seco possível, fazendo jus à história do homem que se sufocou com as próprias palavras que não disse.

Andei relacionando a coisa de rede social vs. profundidade - afinal, antes essas coisas não existiam. 

Curiosamente tenho trocado aquelas reflexões frente a cachoeiras ou montanhas por horas rolando a timeline. Soa ridículo, e é.

Novamente me vejo parado aqui, na trilha que me leva para a porta da selva. Olhando para o caminho e tentando enxergar o que me levará de volta para este porão que tanto me fez bem e me alimentou, por todos esses anos. Uísque? Algo mais pesado? Perfumes de corredor?

Vou tentando. Como me disseram, dia desses: cada vez mais, de olhos bem fechados.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Tomara




Desde que me aproximei da música, de fato como deveria ter feito aos quatorze anos e não agora, como adulto, houve uma avalanche de acontecimentos tão violenta e rápida que até me sinto a vontade de atribuir a culpa pela minha ausência dos textos.

E a principal mudança começou com aquele choque pós show. Quem me conhece – e até quem não me conhece, mas pode ver aqui neste blog – sabe que cada show lindo sempre foi uma tortura por carregar consigo uma força maior que vinha no dia seguinte, carregando uma tristeza indescritível. Daquelas de me derrubar mesmo.

A grande mudança está relacionada à intensidade dos fatos: se eu escolhi viver da minha música, não sobreviveria se ficasse mal a cada manhã seguinte. Não me torturaria desta forma. E foi então que parei de sentir a dor, acordava no dia seguinte com aquela sensação de missão cumprida, mas perdi o medo de que aquilo tudo um dia acabasse, perdi a emoção de ter movido o coração e o sentimento de tantas pessoas na noite anterior, perdi. Perdi tudo. 

Até o dia em que fiz um show maravilhoso. Forte, intenso, firme do começo ao fim. A banda estava maravilhosa, os graves todos fazendo tremer as estruturas – assim do jeito que eu gosto – e as vozes tão afinadas e potentes trazendo até lágrimas por trás dos aplausos. Um verdadeiro espetáculo!
E no outro dia não teve jeito. 

Foi então que percebi que deveria continuar, seguir tocando cada coração, provocando cada sorriso, seduzindo cada calor e só assim cumpriria a verdadeira missão da música: mudar tudo. Um espetáculo musical não vale nada se não mudar tudo na vida de alguém. Agora, isso vai acontecer toda noite? Depende de você.

Depende de mim.