terça-feira, 29 de abril de 2014

Se não, agora?




Uma mulher, certa vez, me disse: o violão é mágico. Conselho idiota que ouviu de alguém que tocava o instrumento no meio de um churrasco qualquer (não que eu nunca tenha feito isso, mas vá lá).
O instrumento não é mágico. O artista, sim.

E foi assim meu reencontro com Luiza. Se não se lembra dela, volte algumas casas e jogue o dado novamente.

Quando a vi, quase não acreditei. No meio de mais de dez milhões de pessoas, e sabe-se lá quantos bares, tocando blues então nem se fala, lá estava ela. Misteriosamente linda, perigosamente sedutora, inocentemente manipuladora. Luiza.

O cruzar os olhares não durou mais que cinco segundos. Eu em cima do palco, novamente de chapéu. Ela olhou, focou, e desviou. Demorou pra perceber, apesar das características, teve que buscar na memória e eu, paciente que sou, apenas esperei, a acompanhando com o olhar. Até que a recompensa chegou.

Ela percebeu. E então mirou novamente o palco, onde eu calculadamente olhava para baixo como quem está procurando por algo. Voltei o olhar e, agora sim, o Oi chegou com tudo. 

Ela sorriu. Aquele sorriso tímido e sagaz que diz: “Deus, não acredito que isso está acontecendo”. É, Luiza, eu também não. Logo após receber meu sorriso de volta, sinalizou com as duas mãos:  “e agora?”. Não entendi, sorri, e deixei a noite continuar.

Ele ainda estava lá. Tantos meses depois, e ele ainda estava lá. Desta vez, fazendo marcação serrada, procurando o destino de seus olhos, contendo o mexer dos seus quadris ao ritmo de meu blues. Algum dia o homem tem que descobrir a mulher que tem.

O destino de todo músico é fazer a trilha sonora para a mulher que deseja se divertir com o homem que ela engana. Por aqui, as coisas não seriam diferentes.

Quando então, Luiza? Quando, então?

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Do not come back




Das tantas mudanças que ocorreram quando resolvi resolver minha vida até que minha pele, minhas veias, minha cabeça e meu coração não aguentem mais – sim, nesta ordem – há uma que ainda mexe comigo, volta e meia. O tal do dinheiro.

Principalmente quando me deparo com fatos como o de hoje. Recebo uma foto de um amigo, feliz e solitário, saindo da loja da Harley com sua nova aquisição. Tomara que eu não precise dizer a você qual é. Mas preciso contar a história dele, e o episódio da minha.

Na ocasião, resolvemos nos candidatar à mesma vaga. No maior estilo “que vença o melhor” de vida. O resultado? Empatamos. Acontece que este tipo de processo é lento, e durante o intervalo entre a prova inicial e a entrevista final, eu já estava me transformando, e me apaixonando cada vez mais pela vibração das cordas do meu contra-baixo. Inevitavelmente, e mais que cordialmente, cedi. Não fui à entrevista final. Entreguei o premio – e não estou falando da vaga, me entenda – de bandeja. Meu amigo, claro, aceitou. Fim.

Tenho sempre que me lembrar disso: eu escolhi não andar de moto sem rumo pelas estradas maravilhosas deste país. Escolhi e escolho todos os dias, quando vivo o que eu vivo.

E eu posso, sim, listar os benefícios – como tem qualquer escolha, naturalmente. Mas não vou fazer isso, porque não estamos falando de disputa. Estamos falando apenas da crise, da instabilidade, que (por Deus!) não sei por quanto tempo ainda terei que ser forte e seguir com ela.

A crise acontece ainda, vez em quanto, e se ainda estiver aqui, saiba que vai continuar ouvindo falar dela. Até não ouvir falar mais, não repentinamente. 

No mais, Hit the Road, Jack. Nos vemos no fim da Estrada.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Woof Woof




Sinto o blend lentamente. Escolho o velho número sete do Tenessee, o perfumado, suave, agradável e principalmente: amigo. Pra todas as horas.

Eu precisava dar uma pausa. Ou melhor, precisava nada, mas não entendia muito bem e alguém me convenceu que sim. Droga! Então parei, sabendo do quão provisória era minha decisão, eu parei.
Vivo na noite, a passeio e a trabalho. Faço a noite, viro a noite, começo a noite e consequentemente, a termino. Bem ou mal, não importa. O que importa é aquilo que só quem está no meu time sabe (e quem não está, a partir de agora, passa a saber) : uma noite é diferente da outra. 

O poeta que escreveu que as noites são todas iguais não bebeu uísque o suficiente. O mesmo vale para os dias, as mulheres, as canções. Cada elemento é único.

No ritmo intenso em que me encontrava, fazia cinco shows por semana. As vezes seis. E o cão engarrafado de Vinicius sempre comigo, me acompanhando, aconselhando, encorajando e muitas vezes me avisando quando não fazer nada além de imaginar. Algum outro poeta brasileiro disse “meu melhor amigo é o meu amor”. Esse sim devia beber muito uísque.

Eu bebia. Todo show, meia garrafa. Parecia coisa de remédio, batia certinho. E ainda na linha do remédio, digo que nunca me senti mal. Pelo contrário: a vida pode ser maravilhosa. E era, toda noite.
Cheguei a dar entrevistas neste estado pós-meio-Jack, fechar contratos ótimos, visitar pessoas, e por existir uma força superior: “quase” fazer filhos lindos.

Até que um dia, resolvi rever as entrevistas, os contratos, falar com as pessoas. E alguém me avisou: para.

E eu parei.

Hoje estou escrevendo este texto acompanhado já do segundo copo, e do copo de água geladíssima (como de costume), que ainda não chegou nem na metade. 

Acho que comecei.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Alive



Há tantos episódios pra contar, que fico mesmo sem reação, sem texto. Não me lembro de ter tido um bloqueio destes assim, tão longo, nos últimos cinco ou seis anos. 

Seis anos é tempo pra caramba.

Associo isso a minha breve parada com o uísque. Mas pode ser que seja só uma coincidência. Tem que ser.

Pois bem. Hoje ele está aqui, só por via das dúvidas.

Na trilha, Late night blues. Preciso me lembrar de falar do blues (me ajude).

Brincar de adulto me trouxe algumas chatices. Até aí, sem novidades, mas é bom reforçar. Chato. Mesmo! Principalmente porque problemas de adulto me afastaram do uísque, dos textos e das madrugadas. Baita covardia, penso. 

Em troca, me aproximaram da música. Preciso me lembrar também de falar da música – como um todo.

Algumas dores me carregaram no colo e por isso essa madrugada vale mais que as outras. E isso começa no que sobrou das minhas referências. Preciso me lembrar de falar do provável afastamento definitivo da minha infância. Isso vai dar uma série de capítulos.

Também tem a ver com o dinheiro. Com o que tenho e com o que não tenho. Preciso me lembrar disso também, oh céus!

Nessa bagunça toda me recordo que havia pensado em fazer textos especiais para minha prole. Dois anos se passaram e continuo só falando de mim. Pensando melhor, acho que isso pode cumprir ainda mais o propósito inicial do que qualquer babaquice que podia ter vindo assim, sem noção.

Por fim, só quero dizer que o intervalo também teve seus pontos positivos. Uma série de transformações, revelações, reencontros, poxa vida. Tomara que eu não transforme isso aqui em uma retrospectiva.

E tomara que você tenha paciência.