quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Replay


Paro. Volto, volto tudo. Começo de novo, assisto, volto. Assisto em câmera lenta, sem perder sequer um movimento, e vou em frente.

Aquele momento merece mil vezes.

Nunca mais pensei que fosse parecer adolescente. Assim, pra mim, praticamente iniciante. Mãos suadas, desculpas esfarrapadas, pernas inquietas, borboletas. Claro, lá mesmo.

Poderia ficar a noite toda ali. Só olhando seus olhos me olhando, decorando cada traço do seu rosto, tentando encontrar algum defeito que me fizesse ter vontade de correr. Mas correr pra longe, e não mais ainda pra dentro de ti. Já que já estamos assim, bagunçados.

Mas não. A gente precisa falar, e por isso, a fala ficou sem controle. Uma metralhadora de palavras, e em pouco tempo já deu pra perceber que podia ser perfeito. Droga! E pensando bem, eu tinha e tenho tanto a te dizer, que foi até um pouco confuso, reconheço. Sorte que bebia um pouco entre uma declaração e outra.

Assim, volto a fita mais uma vez e presto atenção naquele abraço, nas mãos se tocando enquanto nosso perfume se misturava, nos olhares de todos em volta tentando entender o que não precisava ser explicado. E depois pulo a parte difícil, e vou logo pro final...

Aquele beijo que veio lá do fundo, chegou nos lábios e parou ali. O corpo apertou, as batidas dos corações pulsavam em sintonia, meu rosto já sentia o seu e de repente um choque. Se não estivesse bem firme, talvez fosse arremessada contra a parede. Aí você podia fazer o que quisesse.

Repito mais uma vez a cena toda, de trás pra frente, cuido do que quero ver, vejo até o que não devia. Como pode?

Preciso tirar essa cena de mim.

Vem e me traz uma nova?

Quero replay.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Two to Tango



Quando parei no sinal, apenas respirei. Vidrei os olhos naquela luz vermelha que ia aumentando, aumentando...já era claro que faltava emoção. Tarde da noite, quase sem perspectiva, o caminho de casa quase vazio - não fosse a loucura dessa cidade - e tão cheio de possibilidades.

Ouvi um ronco de motor, chegando junto com um cheiro de óleo que eu já conhecia de algum lugar. 

Era ela. 

Na hora, quase travei, tão grande o susto. Fiz só o que consegui: acenei um sim com a cabeça...mudo, entre um segundo e outro no contador ali do poste. Ela sorriu, enquanto falava no celular, e retribuiu: sim. Óbvio, com a cabeça.

Começou, então, uma estranha corrida.

Deixei que ela fosse na frente...sempre confiei na minha máquina. E ela foi mesmo! Porém, no caminho, deixando vestígios para que eu soubesse que caminho seguir, por onde andar. Coisa de quem quer ser encontrada.

Comecei a gostar da brincadeira. Chegava perto, ultrapassava, fazia um sinal...e a deixava ir novamente. Até que numa dessas, ela desapareceu. Comi poeira, diriam os fanáticos...

Ainda sim, tenho minha fama, e peguei um atalho. Chão batido e pista estreita nunca me deram medo, e não é que quase encostei nela lá na frente? Estava indo bem novamente.

Resolvi pegar leve. Ela ja mostrou que tem medo e que é melhor ir com calma, então vamos rodar a noite toda, se preciso. Pois bem...foi que em uma fração de segundo, pronto! Sumiu novamente!

De lá de cima da rampa, dava pra ver os faróis lá longe, o suporte para bicicletas, a forma dos cabelos balançando contra a luz.

Fiquei tão desnorteado que até parei o carro, encostei, desci e pisei na terra fofa. Ainda havia poeira subindo, e eu aqui tendo que pisar no freio. 

Ainda te fecho por aí, em um estacionamento ou uma praça qualquer. Ah, você vai ver...

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Inverno de 97



Mais um ciclo de inverno que acabou comigo. Todos os anos, desde aquele noventa e sete, é a mesma coisa...


Naquela noite, saí do trabalho apressado, louco para que, em algum dos bares por entre as ruas estreitas, pudesse rolar algum rock n' roll. Até com a fita cassete do Stray Cats no bar do Mota eu ficaria feliz. E fui.

Ainda de uniforme - e não tinha a menor intenção de trocar de roupa - entrei pelo fundo do bar. O Mota, meu amigo, me recebeu olhando para aquele monte de cadernos que preenchia enquanto a noite rolava. Me deu até mais atenção do que eu queria, mas tudo bem.

Peguei meu uísque, cowboy porque ainda não tinha aprendido a ser americanizado, e parei de frente para uma banda de eighties rock.  Olhei para o lado e a vi: cabelos quase loiros, saia quase vestido, anel quase aliança, batom quase madura. Mas era só uma menina, que me retribuiu o olhar: Prazer quase te conheço.

Claro, não fui. A cidade é muito grande, são muitos bares, muitas músicas, muitas bebidas...por que ali? Naquele bar feio e escuro do Mota? Tomando uísque de rua, iria encontrar um sorriso daqueles, com Separate ways na trilha sonora?

Tomei mais um gole, fechei os olhos, senti o blend, deixei tudo descer com calma, e abri novamente. Ela já estava indo embora, quase como um vulto. Olhou para trás como quem finge esperar uma amiga, e logo retomou. 



Depois daquele noventa e sete e de seus litros de Jack, cigarros e mais cigarros, Beethoven em loop no toca fita do carro, orações intercaladas com as marchas do meu monza, arma descarregada na cintura,  noites frias e solitárias de terno e chapéu...
Jurei para mim mesmo que nenhum inverno jamais seria como aquele.

Não funcionou.




Em tempo: como eu amava aquele carro!

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Sós assim.

Naquele dia, deu certo.

Foi até difícil de acreditar, porque demorou tanto! Mas aconteceu de forma quase tão inusitada quanto ele havia imaginado. Como ela tanto temia.

E foi simples, como deveria ser. Ali, no corredor da maionese e da mostarda, ele comparava duas marcas despretensiosamente. Ela, entrou no corredor distraída empurrando seu carrinho discreto com algumas maçãs, creme dental e um vinho com o rótulo para baixo. Vai saber.

O que sei é que quando ela percebeu, não deu pra voltar atrás. Esses carrinhos não têm marcha ré. Era hora de encarar, engolir seco, disfarçar o coração na garganta...

 -Ai, meu Deus...
 - ...
 - ...
 - ...

Se ele tivesse derrubado os dois potes amarelos, seria cena de novela. Mas não, a vida não é assim.

 - Oi?
 - ...oi!
 - Ai, desculpa!

E a abraçou. Era só o que precisava fazer, o que queria fazer, porque sabia o que iria acontecer...e porque aconteceu: foi correspondido. Desesperadamente correspondido.

 - ...por que?
 - Não me deixa mais fugir, vai? Faz alguma coisa?
 - Posso te segurar aqui até fechar o expediente do mercado, comecei agora!

Ela riu. Claro que riu, porque ria todas as vezes, porque a moça mulher era encantada por aquele rapaz e pelo bom humor que vinha junto com aquelas duas covinhas.

Ele não. Fechou os olhos e, pra manter o mistério, só abaixou a cabeça e relaxou. O mundo precisava daquilo. O dele, e o dela.

Enfim, sós.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Can't fight the night


Quando a noite está em seu mais profundo silêncio e intensidade, o que se traduz em aproximadamente três e meia, todas as coisas se confundem. As imagens enganam, as palavras entregam duplos, triplos sentidos, os olhares e suas intenções - ou mesmo suas não intenções - se misturam completamente, desordenadamente.

A noite continua implacável.

As pessoas mudaram, se mudaram, desapareceram, apareceram. Estão ali, e não estão mais. Tudo acontece muito rapidamente, visto que todos os sentidos estão aguçados, então por que não a noção de tempo?

Os sorrisos foram substituidos, inibidos, alguns desprezados, outros enaltecidos desmerecidamente. Os sorrisos continuam envolvendo e criando esperanças. Milagrosamente.

Ainda sobrevive o suspense, a chama, a loucura quieta esperando sua explosão. À noite tudo vem à tona...

São gritos, barulhos, cheiros, toques, movimentos, luzes, beijos, gostos, força, brutalidade, sensibilidade, fumaça, respirações, dores, observações, idas, chegadas, empurrões, ações, disfarces, esconderijos...

Até perco o fôlego.

Não se trata de escolha. Quem cansou da noite nunca pertenceu a ela, não se engane. Essa vida não é para poucos, menos ainda para interessados, entusiastas, curiosos, corajosos, metidos. Depois que o sol se põe, a vida recusa amadores.

Odeio amadores.

Porque não basta amar. É preciso ser. O coração dá o pulso do ponteiro dos segundos, no lado direito do seu relógio. E se a noite não está dentro de você, como deixá-la sair assim que escurecer?

Cada noite quem faz é você. E não existe noite ruim, apenas aquela que você se fechou em seus pensamentos diurnos.




"Só a noite é minha amiga, a quem friamente confesso a natureza noturna dos meus infernos diários. Eu tenho o mesmo segredo dos malditos solitários: ninguém sabe a natureza dos meus infernos diários."
(Fagner)