terça-feira, 16 de setembro de 2014

Inverno de 97



Mais um ciclo de inverno que acabou comigo. Todos os anos, desde aquele noventa e sete, é a mesma coisa...


Naquela noite, saí do trabalho apressado, louco para que, em algum dos bares por entre as ruas estreitas, pudesse rolar algum rock n' roll. Até com a fita cassete do Stray Cats no bar do Mota eu ficaria feliz. E fui.

Ainda de uniforme - e não tinha a menor intenção de trocar de roupa - entrei pelo fundo do bar. O Mota, meu amigo, me recebeu olhando para aquele monte de cadernos que preenchia enquanto a noite rolava. Me deu até mais atenção do que eu queria, mas tudo bem.

Peguei meu uísque, cowboy porque ainda não tinha aprendido a ser americanizado, e parei de frente para uma banda de eighties rock.  Olhei para o lado e a vi: cabelos quase loiros, saia quase vestido, anel quase aliança, batom quase madura. Mas era só uma menina, que me retribuiu o olhar: Prazer quase te conheço.

Claro, não fui. A cidade é muito grande, são muitos bares, muitas músicas, muitas bebidas...por que ali? Naquele bar feio e escuro do Mota? Tomando uísque de rua, iria encontrar um sorriso daqueles, com Separate ways na trilha sonora?

Tomei mais um gole, fechei os olhos, senti o blend, deixei tudo descer com calma, e abri novamente. Ela já estava indo embora, quase como um vulto. Olhou para trás como quem finge esperar uma amiga, e logo retomou. 



Depois daquele noventa e sete e de seus litros de Jack, cigarros e mais cigarros, Beethoven em loop no toca fita do carro, orações intercaladas com as marchas do meu monza, arma descarregada na cintura,  noites frias e solitárias de terno e chapéu...
Jurei para mim mesmo que nenhum inverno jamais seria como aquele.

Não funcionou.




Em tempo: como eu amava aquele carro!

Um comentário:

Quem escreve disse...

Queria escrever minhas quase verdades como essa quase crônica sua. Saudade. Venha pro café!