quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O poeta

Não existe a menor possibilidade de escrever qualquer coisa frente a Vinicius de Moraes:

A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante.
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza 
E a sua alma é uma parcela do infinito distante
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende. 
Ele é o etemo errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibilidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes
Olhando o espaço imenso da sua alma.
O poeta sorri.
Sorri à vida e à beleza e à amizade
Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.
O poeta é bom.
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras
Sua alma as compreende na luz e na lama
Ele é cheio de amor para as coisas da vida
E é cheio de respeito para as coisas da morte.
O poeta não teme a morte.
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.
A sua poesia é a razão da sua existência
Ela o faz puro e grande e nobre
E o consola da dor e o consola da angústia. 
A vida do poeta tem um ritmo diferente
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Elohima


Parece até que sei quando você está aqui.
Sinto seu cheiro, que vem por todos os lados, entra pelas janelas, pelas portas, pelos poros, e vai até onde deve ir: o ponto mais profundo.
Estou cochilando no sofá e ouço uma voz. A sua voz. Acordo, corro para a janela, olho pelos cantos, miro o céu e penso que você ainda está perto, que se eu correr eu alcanço, que o perfume que entrou foi porque você quase tocou o interfone e subiu. Claro que o porteiro iria deixar, até ele te conhece. Até ele sabe que você não se vai. Nunca.
Volto ao sofá e com ajuda dos gurus tecnológicos procuro suas pistas. O pior: encontro. Estão todas aqui, pulsando, notificando, invadindo meu corpo e me atingindo de um jeito sísmico. Meu coração quase para três vezes por minuto.
Porque essa semana lembrei de tanta coisa e te trouxe até aqui, quando havia apenas ecos e eu e você, e após a primeira dose que nos daria coragem já estávamos intrínsecamente nos devorando. Sem tempo para qualquer bloqueio, principalmente psicológico, ou talvez emocional, moral, foda-se: varamos a noite.
Não me lembro daquele orgasmo mas me lembro do primeiro. 
Não me lembro qual o desfecho mas me lembro daquele aniversário.
O nosso.
E não houve café da manhã porque os minutos aceleraram e você entrou correndo. Mas houve uma dor avassaladora como aquela que costumávamos sentir, e que nos tirou a energia até esgotar, e a alma ter que sair do corpo pra nos dar um tapa na cara e dizer: fujam enquanto é tempo.
Fujimos. Porém não do jeito certo.
E enquanto um de nós estiver vivo, o voo da borboleta do outro lado do mundo me trará teu perfume e um tufão. 
Fico com o segundo.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Já deu

Quando tudo parece tremer, desestabilizar, sair do controle. Quando tudo causa dor, e quando não dor, náuseas, taquicardia, medo, angústia. Quando o corpo pede e a cabeça não dá.

A meta é ir.

Porque o amor exitou: fez devastar tudo, destruir os sonhos, alimentar o monstro, bagunçar por dentro e por fora - e nos arredores, veja só - e sair sem deixar vestígios. Ufa!
Porque a vontade de fazer as coisas certas foi encoberta por uma camada de sofreguidão e grosseria, restando apenas uma vontade incontrolável de não obedecer a ninguém e deixar tudo pra trás. Tudo.

Então, a meta é ir.

Só que desta vez importa sim como, para onde, e principalmente, quando. Não importa muito o porquê, afinal, vale repetir: ir. É a meta.

Parafraseio a mosquinha: a seta no alvo.

Vale fugir, vale correr, vale em segredo e em público também. Vale ir rápido, ir parando e apreciando a paisagem, voando ou cavalgando, com ou sem pressa de chegar. 
Curioso ser fim do ano e se pensar em planejar. Entretanto é preciso, então seja o que Deus quiser, porque não há fé mais bonita do que a d'Ele na gente mesmo, e do que a nossa em nós. Mesmo.

E se tudo der certo, bem...vai dar tudo certo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Beat it

Chegou um dia em que notei que meu egoísmo e egocentrismo estavam demais. Que aquelas pessoas que me disseram isso não eram loucas, eu estava mesmo precisando pisar no freio. 
Pisei.
E então começaram as humilhações, o desrespeito e as grosserias. A vida funciona conforme você quer.
Epa! Será esse um pensamento egocêntrico novamente?
Pois é, tive que voltar. 
Voltei.
Porque não gosto de dividir os comportamentos na minha cabeça. Uma hora mocinho, outra bandido, uma hora coitado, outra fodão, uma hora manda, outra abaixa a orelha. Não! As coisas devem obedecer uma lógica, o sol está aí pra todo mundo (ou quase, mas vá lá) e é preciso ter alguma firmeza. Aquele patrão que pisa em todo mundo mas em casa obedece a mulher pianinho me serviu de bom exemplo.
O problema é que as tentativas continuam. Quando foi que as pessoas se tornaram tão difíceis? Ou será que isso são os tais reflexos da vida adulta - que já está aqui faz tantos anos - e ainda não aprendi. Como assim? Ainda?
Nessa, a segunda problemática é que não gosto do embate. Talvez desde aquela vitória injusta na infância eu não me sinta preparado para discutir. Evito, ao máximo, fujo, passo batido, me faço de desentendido até que tudo volte ao normal. Não sou do tipo que não leva desaforo pra casa: eu levo sim, e muito. Meu orgulho não é inflado, deixo bater, não me defendo. Resisto e aguento, quieto, calado, respirando. Não vejo grande vantagem em ser do outro jeito, sabe?
Mas e aí, se cada um vê só o seu lado? Se o dinheiro é mais importante, que a arte, que a história, que o contexto, que o ponto principal, que a vida? Qual é o caminho para um ser egocêntrico mas que não sabe brigar?
É preciso achar um jeito de viver sozinho, mas um jeito que funcione. Porque este imitando saco de pancada não vai durar muito.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

No return


Será que errei o caminho? Que fiz a escolha errada lá atrás, e estas são as tais consequências? Ou será que continuo fazendo as escolhas erradas todos os dias?
Me lembro bem de quando cheguei e vi tudo o que estava me esperando: todos os prazeres, os cheiros, sabores, toques e arrepios, ali a disposição para alguém que estava preso e supostamente condenado a seguir o exemplo sujo e limitado de uma geração mal explorada. 
Abracei.
E conforme tudo foi evoluindo, adotei comportamentos, estratégias, possibilidades, desenhei perfis, estudei, criei um universo a parte. Tudo isto em função dessa forma de viver. Afinal, era preciso.
Agora quando olho para o rumo que as coisas tomaram, fico pensando se de fato era isso mesmo. Percebo que certos caminhos não podem ser trilhados novamente, e que não há como retornar. E por mais que eu opte por outras alternativas, é como se houvesse uma marca, que permanecerá eternamente, que insistirá em me lembrar de tudo o que houve e do que devo (ou não) pensar, olhar, fazer, obedecer ou mandar. 
Ao passo que a outra alternativa parecia ignorante e passiva, agora ela se torna interessante. Porque escolhi o caminho mais gostoso e este é sempre o mais difícil. Só não pensava que a dificuldade abriria meus poros para a entrada de toda essa energia, vinda de todo lado, uma linha de fogo. 
Se não há caminho de volta, só resta seguir em frente. E se não sei direito pra onde, está chegando a hora de olhar tudo de cima, mapear tudo de novo, e tomar uma nova decisão.
Aguardo as consequências.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A corrida

As vezes acredito que há uma beleza na inconstância e nessa coisa toda de viver com medo. Na palpitação, na instabilidade - seja emocional, psicológica, espiritual, afetiva - e na insegurança. 
As vezes, não.
E é nestas vezes que não, que um desmoronamento acaba comigo e coloca tudo a perder em poucos minutos. Está tudo perdido a partir de então. 
Me movo lentamente, observo tudo com um ar de pessimismo e até uma certa insignificância, cumprimento as pessoas mas não sustento a simpatia por mais que alguns instantes, nem mesmo a música me prende a atenção. Critico. Suicido. Destilo. E o efeito continua em cascata, se alastrando pela noite e agravando a arritmia, me dilacerando por dentro e jogando tudo pra fora em forma de energia. 
Eu não choro. Não vomito. Sinto que preciso colocar tudo pra fora mas há um bloqueio. Gozo. Não resolve mais. O tempo médio de volta não passa de segundos, e a vida passa a girar novamente como o relógio do registro.
Viajo. Sumo, desligo, desconecto - assim que é mais moderno - e quando penso que tem volta, tudo volta e volta rápido. Parece até que nem fui.
Penso então que a solução tem que vir de dentro pra fora, e há de vir. Só não sei ao certo quando (de fato, não sei se alguém sabe nesta vida) e me desespero. E é aí que o coração não segura a onda.
Encho a cabeça de trabalho. A cabeça, o corpo, tudo. O tempo passa então a correr em maratona desenfreada, roubando minhas horas, meus minutos e meus sentimentos. 
O tempo está levando a minha vida embora.

E eu estou deixando.

sábado, 31 de outubro de 2015

Muros e Grades

por Engenheiros do Hawaii

Nas grandes cidades do pequeno dia-a-dia
O medo nos leva a tudo, sobretudo a fantasia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia

Nas grandes cidades de um país tão violento
Os muros e as grades nos protegem de quase tudo
Mas o quase tudo quase sempre é quase nada
E nada nos protege de uma vida sem sentido
O quase tudo quase sempre é quase nada
E nada nos protege de uma vida sem sentido

Um dia super
Uma noite super
Uma vida superficial
Entre as sombras
Entre as sobras
Da nossa escassez

Nas grandes cidades de um país tão irreal
Os muros e as grades
Nos protegem de nosso próprio mal
Levamos uma vida que não nos leva a nada
Levamos muito tempo pra descobrir
Que não é por aí...não é por nada não
Não,não, não pode ser...é claro que não é
Será?

Meninos de rua, delírios de ruína
Violência nua e crua, verdade clandestina
Delírios de ruína, delitos e delícias
A violência travestida, faz seu trottoir
Em armas de brinquedo, medo de brincar
Em anúncios luminosos, lâminas de barbear!

Viver assim é um absurdo (como outro qualquer)
Como tentar um suicídio (ou amar uma mulher)
Viver assim é um absurdo (como outro qualquer)
Como lutar pelo poder (lutar como puder)

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Lapso


Dirijo pela cidade, e me lembro de um tempo em que costumava andar por aí. Dirijo e paro pegar um refrigerante, no mesmo local onde diariamente me passavam um café, na rima, revigorante. E enquanto penso no trabalho, penso nas broncas que devia dar e não o fiz, nas indisciplinas e na falta de vontade de ser babá de gente grande. Faço umas continhas e a quantidade de gente que eu odeio continua aumentando. Olho na lista de mensagens e entre as várias oportunidades de ser o último romântico, opto por ser mais um, em silêncio, calado, respondo mentalmente e jogo o telefone no painel. Não compro (mais) flores, não faço (mais) via sacra, evito. E entre marchas e marchas eu me revolto - novamente quieto - com o planejamento bosta do trânsito. E a caminho do escritório, lembro que esqueci a chave do escritório. Que esqueci onde foi parar aquele objeto, aquele contrato, aqueles cabos. Duvido de mim mesmo e começo a pensar no que mais posso estar deixando de lembrar. Tenho medo. Estou perdendo a mão e não sei o que fazer a respeito. Tento lembrar de quem eu era, aquele que encantava e apaixonava e causava todos aqueles transtornos deliciosamente administráveis, e que agora eu não consigo nem pensar em como era capaz. Não sei o que estou fazendo aqui dentro deste ser, que engoliu os anos que se passaram e agora me transformou em um ser burro. Me sinto burro. Fiz trocas injustas, comigo e com os outros, e substituições irreversíveis. Perdi as coisas boas que havia deixado no passado prontas para me salvar, e foi tudo minha culpa. Troquei a inteligência, a sagacidade, a habilidade de ser abstrato e ao mesmo tempo interessante, tudo por algo que ainda não sei bem o que é ou onde está. Troquei o prazer em demonstrar meu conhecimento e vomitar conteúdo pela preguiça e pelo silêncio. Foi embora a vontade de parecer estar ensinando (isso dava mais prazer quando eu era um garoto ensinando gente velha - agora eu sou o velho). Enquanto continuo dirigindo pela cidade, todos estes pensamentos rodam e meu coração perde o ritmo. Acelera e desacelera alternando tão rapidamente que começa a me dar medo, e em frações de segundo e pensamento já estou em meu velório, olhando de fora, e vendo todo aquele circo acontecer. Que coisa mais ridícula. Continuo alternando entre pensamentos de morte e pensamentos violentos que simulam todas as brigas no trânsito que eu teria se resolvesse brigar. Se tivesse um taco de beisebol e um pavio curto, se não levasse desaforo pra casa, se soubesse lutar ou por fim, se fosse de fato alguém assim. Não sou, e acho mesmo que essas coisas não se torna do nada, talento nato de ser babaca, impossível desenvolver. Aí não há música que dê vontade de ouvir, pulo todas, enquanto penso se ainda quero continuar fazendo isso que acabei de começar a fazer e já quero sumir da frente deste monte de gente com ego gigante. Não tem problema ter o ego enorme se você for capaz de ir lá e se tornar admirável, o que infelizmente está atrelado ao extremo inverso. Preciso de férias, preciso chorar, acalmar os ânimos e pensar mais lógica e determinadamente. Porque definitivamente, não ando bem. Só dirijo.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Dossiê [2]


O grito é o desespero
a mão que puxa a alma do avesso
Acorrentada no dia a dia.

Envelopes deslizam sob mil portas
O cotidiano dá errado
Mas o café não queima a boca.

A tinta é tóxica
A farinha também
Mas o bolo tem cheiro bom

O palco é o esconderijo
Mais se esconde, mais se mostra
E e só pra quem tem coragem

De se abrir para o mundo em troca de um pouco de paz.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Dossiê


Há redemoinhos e pesadelos,
olhos no céu,
tiros no escuro,
golpes no estômago,
e vozes.
Principalmente vozes.
Na cabeça do artista.

Não se pode entender com clareza,
não pelos métodos comuns.
Essa ilimitada incompreensão
não precisa de culpa
Nem de falsos sorrisos
Ou olhares vazios
Apenas silêncio!

Inacreditáveis sonhos, desejos,
advérbios e poréns
irão surgir
naquelas linhas expulsas,
daquelas notas exorcizadas,
do pincel empunhado,
das sapatilhas rasgadas,
da maquilagem inabalável,
na máscara quase tatuada.

O corpo, um tanque de guerra
A cabeça então, misteriosa taberna
Onde acontecem
os melhores encontros
os grandes negócios
e histórias inesquecíveis
e amores correspondidos
possíveis ou impossíveis
No canto dos pensamentos.


terça-feira, 2 de junho de 2015

Grand Central


Se o mundo é sem paciência
Sem tempo, sem gentileza
Pra que você agir assim?

Não há mais agenda pra um Oi
E aquele café, só depois
Depois, me diga, do quê?

Nessa geração tão alheia a tudo
A gente bem que podia ir na contramão [não?]
Porque cada vez que você se esquiva
Ou que me atropela em tua lista
Nos põe em perigo, ali na multidão.

Se lembra que sempre odiamos perder?
Agora que havia algo em nosso favor
Inescrupulosa distância
Não merecemos viver mais com ânsia
Te encontro na estação bem perto das seis.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Pietra (parte I)


Santiago, Chile. Maio de 1989.



Depois de 15 anos, finalmente havia encontrado um lugar. A rua nunca foi a oitava maravilha criada pelo homem, porém para fugir do tal primeiro mundo, valia tudo. E apesar dos trapos e panos que costumava chamar de figurino, no meio da bagunça do banjo e do violão havia uma gaita: a companheira das noites frias.

"Porque babe, babe, babe babe...desde que eu comecei a te amar, é que vivo no limite, e quase perco minha cabeça..."

Assopro e canto aos quatro ventos em meio à madrugada. E entre um gole e outro daquele conhaque, cortesia do velho Benito pra eu ir embora da Taberna sexta passada, me lembro de perguntar: por que você se foi?

Porque naquela noite...

 - E se eu te levar pra casa? E se eu te disser como me sinto?
 - Acho que não vou correr de medo...
 - Vou pensar em todas as canções que posso cantar pra você, sabe...?
 - Por favor, não me obrigue, já não sabe que somos um?
 - Minha música só é música se eu te falar do meu amor. E se você me deixar entrar, há outros lugares em que posso te levar. É só você me dar sua mão...

Até que ela desapareceu. Misteriosamente se escondeu, de maneira que mesmo estando em todos os pontos, dedilhando em cada estação daquela Londres chuvosa, não a enxergava. Por tantas e tantas vezes, em meio aos sobretudos, vestidos e casacos, pensava tê-la visto com seu sorriso incomparável. E em fração de segundos aquela imagem desaparecia inexplicavelmente, tão rápida quanto o trem que se fora.

Desde que peguei o avião e resolvi ficar por aqui, onde nenhuma das esquinas havia ouvido um bom blues, decidi que não podia mais sofrer com sua ausência. 
Enquanto você dançava em teatros luxuosos e hotéis dourados, no fundo também sabia o quanto um artista sofre todos os dias. Toda a negação, toda a rejeição e indiferença pelas quais somos submetidos vão muito além da bilheteria. 

E mesmo assim você me deixou. 

Foi assim que me tirou a coragem de compor qualquer canção de amor, ainda que por dentro eu deseje - do ponto mais frio e da maneira mais cruel - que você sofra e sangre de amor, assim, desesperadamente - e por mim, é claro - há um bloqueio que só me permite contar e cantar nossas histórias mais lindas. As mais divertidas são as que mais me rendem moedas.

Não sou dos mais arrumados, muito menos bem apessoado, mas continuo tirando alguns sorrisos. E usando aquele perfume que me prometeu não acabar até você chegar.
Mas de que adianta? Se a cada olhar cheio de segundas intenções, vou me lembrar dos seus cabelos. E ainda que eu acabe em um quarto de hotel, cheio de luxúria e desejo, a noite terminará novamente com o Benito me expulsando...: "A sua Pietra está ganhando dinheiro na Europa, agora vai dormir!"

Vou tentar.




segunda-feira, 11 de maio de 2015

Véspera de quinta


Era uma noite de quarta-feira, por volta das onze. Quase não havia desculpas para sair de casa: em frente à TV após um dia de trabalho naturalmente esmagador, até o som da cidade já começava a diminuir seu volume. Uma quarta qualquer, uma véspera de quinta, que antecedia a tão esperada sexta.
Menos para Diego. E por isso ele saiu.

Aquela definitivamente não era uma noite qualquer. E a tal rosa escondida no quintal tinha destino: Poliana. 
Este já era o quarto ano seguido, de quase idas, quase vindas, sustos, declarações, lágrimas, promessas de novela e até apelos desesperados. E naquele dia, daquele mês, obviamente Poliana o esperaria ansiosa.

Quando chegou, não precisou dar nenhum sinal. Ela já estava lá, escondida atrás da cortina, na janela do que seria a sala de estar. A luz se apagou rapidamente.
Entre a dúvida se aquilo foi ou não um disfarce e o tempo de seus cabelos chegarem até o portão, Diego lembrava da última vez em que estiveram frente a frente, quase que em um trailer de filme...

"...Eu ali, no balcão, daquele bar que já há alguns anos foi derrubado - junto com a quadra toda - e deu lugar a um hotel seis estrelas. Pra quê tantas estrelas? Nenhuma delas vale a meia luz somada a meu Dry Martini.
Foi quando ela chegou, e da porta de entrada já me viu. Andou em minha direção, desfilando seus cabelos negros e fingindo que conseguia enxergar sem óculos. Como um comercial americano, exibia sutilmente - daquele jeito que ela e somente ela conseguia fazer - as curvas delicadas de seu corpo jovem e perfeito, através de cada pedaço de seu vestido.
Parou em minha frente, e sorriu. Levantei e a alguns centímetros de distância, esbocei um sorriso de canto e minha cara blasé. Que, por sinal, ela adorava.
Sem precisar de nenhuma palavra, nos beijamos muito lentamente. O pub lotado não importava, o barulho da música e das conversas em volta se ensurdeceu, dando espaço apenas para as batidas do coração dela, tão acelerado quanto o meu. 
Nem parece verdade que isso já faz tanto tempo..."

Até que Poliana bateu no vidro do carro: TOC, TOC, TOC! E Diego, que estava preso no tempo e nas lembranças, demorou alguns segundos pra se situar. Mas abriu a porta.
Vestida do jeito que ele mais gostava, ou seja, simples, sem maquiagens nem disfarces, sentou ao seu lado. Bateu a porta, respirou fundo...e desta vez não sorriu.
Fitaram-se por alguns instantes, engolindo em seco, buscando palavras e tentando entender se elas eram mesmo necessárias. 
Diego, que gostava de truques de mágica, rapidamente passou a mão entre os cabelos de Poliana e dali tirou a rosa, que ainda estava perfumada e bela, e a aproximou de seu rosto agora com os óculos.
Ela enfim sorriu, ainda que tímida e sem graça - bem diferente daquele sorriso do balcão.

 - Obrigada...
 - Não podia deixar de tr...
 - Você tem que ir.
 - Ora, o que houve? Eu estou aqui, e isso é por nós. Aliás, tudo sempre foi sobre nós.
 - Diego, entrar na igreja vestida como a noiva que você jamais imaginou só faz sentido se for você que está lá me esperando.
 - Acredite, eu estarei.

Então se olharam novamente, e com um olhar tão penetrante que se permitiam invadir um ao outro. Almas trocando de corpo e bagunçando tudo do outro lado, como imensas casas recebendo um furacão que tira tudo do lugar.
Pra recuperarem suas almas de volta, se abraçaram. Um abraço tão apertado e tão carinhoso ao mesmo tempo que aliviou cada tensão.

Não é preciso dizer que se ama para, de fato, amar. E não disseram.

E agora, apesar de tê-lo deixado ir, Poliana nunca se foi.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O plano


Não há segredos quando se está sozinho.
Tudo já foi tão bem escondido, maquiado, disfarçado, e principalmente trocado. Todos os segredos se tornaram boas mentiras, e alguém já as repetiu tantas vezes até que agora viraram verdades.
Persuasivas, convincentes, convictas. 
Fatos.

É possível escolher sua companhia, sempre. Mesmo que essa seja apenas de si mesmo.
Mas nem sempre dá pra viver disso, e por isso é preciso se convencer. Repetir todos os dias a si mesmo, seja por um exemplo próximo, pelo que o velho Buk escreveu, ou até por aquele cara legal daquele filme. Bem, isso até ajuda.
Entretanto, não fomos programados para escolhermos algo para sempre. Muito menos uma coisa dessas.

Por toda essa materialidade do que nos rodeia, já poderia ser mais simples nos acostumarmos com a inconstância. Dos outros, da natureza, e claro, a nossa também. Afinal as variáveis sempre surgem pra nos lembrar de que não mandamos em nada, de que não temos controle, de que o rio deve sim seguir seu fluxo. Não importa necessariamente para onde.

E pra quem gosta de ficar planejando, calculando, simulando e imaginando - curiosamente, como eu - resta apenas a previsão do fim. O fim sempre estará lá, onde deve estar. Ainda que breve, ou talvez um pouco mais a frente. De um jeito que a gente nem esperava, não queria, e mesmo dizendo que já sabia, não existe plano b.

Ou existe.

quinta-feira, 19 de março de 2015

No que você está pensando!?


As coisas perderam um pouco o significado por aqui. E muitas outras além do significado, naturalmente, tornando esse universo da escrita quase anônima uma grande coisa do passado. 
Ainda que passado hoje em dia já possa ser apenas uma semana.
Confesso que gostava do mistério. De ninguém saber quem eu era, onde morava, qual bagagem eu tinha e o que de fato teria me movido e inspirado ao escrever um determinado texto. Fosse ele uma reflexão, um devaneio, uma poesia ou um conto.

Mesmo sempre tendo escrito meus textos com outros propósitos - dentre eles: canalizar minhas energias (positivas ou negativas), registrar aquele momento para a eternidade, saber que eu não podia contar com muito na vida e ainda sim as palavras estariam lá - tenho que dizer que ficava feliz quando minha mensagem atingia alguém inimaginável. 
Neste contexto de o texto ir parar em diferentes lugares do mundo - obrigado estatísticas do blog - é que conheci pessoas, viajei para outros lugares. Mental e fisicamente.

Hoje, não enxergando mais como dar prioridade para o blog e vendo que os outros blogs também não andam trazendo nada, quase botei a culpa na idade. Será que fiquei mais velho? Mais ocupado!? Isso me torna um desocupado quando escrevia muito!?
Não é isso.
E só penso que não é quando lembro dos textos que lia, das pessoas que os escreviam e do universo em que cada uma delas estava: todas trabalhando muito, correndo muito, e ainda sim por aqui.

Então me lembro de uma discussão interessante que sempre rolava. E sim, entre os que escreviam para seus blogs havia muitas discussões de fato interessantes...sobre publicar um livro. Toda a dificuldade, a burocracia, o acesso, a parte financeira, a falta de incentivo, tudo isso fazia com que rapidamente desistíssemos da idéia. O blog era, então, uma válvula de escape. Uma forma de poder publicar sua idéia para que alguém pudesse ler - e neste caso, alguém quer dizer toda a internet. Uau!

Por fim, o botão Post na rede social resolveu este problema. Não é preciso estar inspirado, escrever tudo corretamente (caso se tenha essa preocupação), organizar o texto, os episódios, as frases, pensar no formato, se terá ou não imagem, se ficou muito curto, muito longo, não importa mais. 

Simples assim.

Como consequência, tudo tornou-se público. Quando se posta, já podem ver sua foto, saber seu nome (O verdadeiro, Oh, céus!), onde você mora, o que já fez e o que faz da vida, sua família, onde esteve, onde está, e tantas outras coisas. Tudo tornou-se assim: chato.