terça-feira, 26 de maio de 2015

Pietra (parte I)


Santiago, Chile. Maio de 1989.



Depois de 15 anos, finalmente havia encontrado um lugar. A rua nunca foi a oitava maravilha criada pelo homem, porém para fugir do tal primeiro mundo, valia tudo. E apesar dos trapos e panos que costumava chamar de figurino, no meio da bagunça do banjo e do violão havia uma gaita: a companheira das noites frias.

"Porque babe, babe, babe babe...desde que eu comecei a te amar, é que vivo no limite, e quase perco minha cabeça..."

Assopro e canto aos quatro ventos em meio à madrugada. E entre um gole e outro daquele conhaque, cortesia do velho Benito pra eu ir embora da Taberna sexta passada, me lembro de perguntar: por que você se foi?

Porque naquela noite...

 - E se eu te levar pra casa? E se eu te disser como me sinto?
 - Acho que não vou correr de medo...
 - Vou pensar em todas as canções que posso cantar pra você, sabe...?
 - Por favor, não me obrigue, já não sabe que somos um?
 - Minha música só é música se eu te falar do meu amor. E se você me deixar entrar, há outros lugares em que posso te levar. É só você me dar sua mão...

Até que ela desapareceu. Misteriosamente se escondeu, de maneira que mesmo estando em todos os pontos, dedilhando em cada estação daquela Londres chuvosa, não a enxergava. Por tantas e tantas vezes, em meio aos sobretudos, vestidos e casacos, pensava tê-la visto com seu sorriso incomparável. E em fração de segundos aquela imagem desaparecia inexplicavelmente, tão rápida quanto o trem que se fora.

Desde que peguei o avião e resolvi ficar por aqui, onde nenhuma das esquinas havia ouvido um bom blues, decidi que não podia mais sofrer com sua ausência. 
Enquanto você dançava em teatros luxuosos e hotéis dourados, no fundo também sabia o quanto um artista sofre todos os dias. Toda a negação, toda a rejeição e indiferença pelas quais somos submetidos vão muito além da bilheteria. 

E mesmo assim você me deixou. 

Foi assim que me tirou a coragem de compor qualquer canção de amor, ainda que por dentro eu deseje - do ponto mais frio e da maneira mais cruel - que você sofra e sangre de amor, assim, desesperadamente - e por mim, é claro - há um bloqueio que só me permite contar e cantar nossas histórias mais lindas. As mais divertidas são as que mais me rendem moedas.

Não sou dos mais arrumados, muito menos bem apessoado, mas continuo tirando alguns sorrisos. E usando aquele perfume que me prometeu não acabar até você chegar.
Mas de que adianta? Se a cada olhar cheio de segundas intenções, vou me lembrar dos seus cabelos. E ainda que eu acabe em um quarto de hotel, cheio de luxúria e desejo, a noite terminará novamente com o Benito me expulsando...: "A sua Pietra está ganhando dinheiro na Europa, agora vai dormir!"

Vou tentar.




segunda-feira, 11 de maio de 2015

Véspera de quinta


Era uma noite de quarta-feira, por volta das onze. Quase não havia desculpas para sair de casa: em frente à TV após um dia de trabalho naturalmente esmagador, até o som da cidade já começava a diminuir seu volume. Uma quarta qualquer, uma véspera de quinta, que antecedia a tão esperada sexta.
Menos para Diego. E por isso ele saiu.

Aquela definitivamente não era uma noite qualquer. E a tal rosa escondida no quintal tinha destino: Poliana. 
Este já era o quarto ano seguido, de quase idas, quase vindas, sustos, declarações, lágrimas, promessas de novela e até apelos desesperados. E naquele dia, daquele mês, obviamente Poliana o esperaria ansiosa.

Quando chegou, não precisou dar nenhum sinal. Ela já estava lá, escondida atrás da cortina, na janela do que seria a sala de estar. A luz se apagou rapidamente.
Entre a dúvida se aquilo foi ou não um disfarce e o tempo de seus cabelos chegarem até o portão, Diego lembrava da última vez em que estiveram frente a frente, quase que em um trailer de filme...

"...Eu ali, no balcão, daquele bar que já há alguns anos foi derrubado - junto com a quadra toda - e deu lugar a um hotel seis estrelas. Pra quê tantas estrelas? Nenhuma delas vale a meia luz somada a meu Dry Martini.
Foi quando ela chegou, e da porta de entrada já me viu. Andou em minha direção, desfilando seus cabelos negros e fingindo que conseguia enxergar sem óculos. Como um comercial americano, exibia sutilmente - daquele jeito que ela e somente ela conseguia fazer - as curvas delicadas de seu corpo jovem e perfeito, através de cada pedaço de seu vestido.
Parou em minha frente, e sorriu. Levantei e a alguns centímetros de distância, esbocei um sorriso de canto e minha cara blasé. Que, por sinal, ela adorava.
Sem precisar de nenhuma palavra, nos beijamos muito lentamente. O pub lotado não importava, o barulho da música e das conversas em volta se ensurdeceu, dando espaço apenas para as batidas do coração dela, tão acelerado quanto o meu. 
Nem parece verdade que isso já faz tanto tempo..."

Até que Poliana bateu no vidro do carro: TOC, TOC, TOC! E Diego, que estava preso no tempo e nas lembranças, demorou alguns segundos pra se situar. Mas abriu a porta.
Vestida do jeito que ele mais gostava, ou seja, simples, sem maquiagens nem disfarces, sentou ao seu lado. Bateu a porta, respirou fundo...e desta vez não sorriu.
Fitaram-se por alguns instantes, engolindo em seco, buscando palavras e tentando entender se elas eram mesmo necessárias. 
Diego, que gostava de truques de mágica, rapidamente passou a mão entre os cabelos de Poliana e dali tirou a rosa, que ainda estava perfumada e bela, e a aproximou de seu rosto agora com os óculos.
Ela enfim sorriu, ainda que tímida e sem graça - bem diferente daquele sorriso do balcão.

 - Obrigada...
 - Não podia deixar de tr...
 - Você tem que ir.
 - Ora, o que houve? Eu estou aqui, e isso é por nós. Aliás, tudo sempre foi sobre nós.
 - Diego, entrar na igreja vestida como a noiva que você jamais imaginou só faz sentido se for você que está lá me esperando.
 - Acredite, eu estarei.

Então se olharam novamente, e com um olhar tão penetrante que se permitiam invadir um ao outro. Almas trocando de corpo e bagunçando tudo do outro lado, como imensas casas recebendo um furacão que tira tudo do lugar.
Pra recuperarem suas almas de volta, se abraçaram. Um abraço tão apertado e tão carinhoso ao mesmo tempo que aliviou cada tensão.

Não é preciso dizer que se ama para, de fato, amar. E não disseram.

E agora, apesar de tê-lo deixado ir, Poliana nunca se foi.