segunda-feira, 11 de maio de 2015

Véspera de quinta


Era uma noite de quarta-feira, por volta das onze. Quase não havia desculpas para sair de casa: em frente à TV após um dia de trabalho naturalmente esmagador, até o som da cidade já começava a diminuir seu volume. Uma quarta qualquer, uma véspera de quinta, que antecedia a tão esperada sexta.
Menos para Diego. E por isso ele saiu.

Aquela definitivamente não era uma noite qualquer. E a tal rosa escondida no quintal tinha destino: Poliana. 
Este já era o quarto ano seguido, de quase idas, quase vindas, sustos, declarações, lágrimas, promessas de novela e até apelos desesperados. E naquele dia, daquele mês, obviamente Poliana o esperaria ansiosa.

Quando chegou, não precisou dar nenhum sinal. Ela já estava lá, escondida atrás da cortina, na janela do que seria a sala de estar. A luz se apagou rapidamente.
Entre a dúvida se aquilo foi ou não um disfarce e o tempo de seus cabelos chegarem até o portão, Diego lembrava da última vez em que estiveram frente a frente, quase que em um trailer de filme...

"...Eu ali, no balcão, daquele bar que já há alguns anos foi derrubado - junto com a quadra toda - e deu lugar a um hotel seis estrelas. Pra quê tantas estrelas? Nenhuma delas vale a meia luz somada a meu Dry Martini.
Foi quando ela chegou, e da porta de entrada já me viu. Andou em minha direção, desfilando seus cabelos negros e fingindo que conseguia enxergar sem óculos. Como um comercial americano, exibia sutilmente - daquele jeito que ela e somente ela conseguia fazer - as curvas delicadas de seu corpo jovem e perfeito, através de cada pedaço de seu vestido.
Parou em minha frente, e sorriu. Levantei e a alguns centímetros de distância, esbocei um sorriso de canto e minha cara blasé. Que, por sinal, ela adorava.
Sem precisar de nenhuma palavra, nos beijamos muito lentamente. O pub lotado não importava, o barulho da música e das conversas em volta se ensurdeceu, dando espaço apenas para as batidas do coração dela, tão acelerado quanto o meu. 
Nem parece verdade que isso já faz tanto tempo..."

Até que Poliana bateu no vidro do carro: TOC, TOC, TOC! E Diego, que estava preso no tempo e nas lembranças, demorou alguns segundos pra se situar. Mas abriu a porta.
Vestida do jeito que ele mais gostava, ou seja, simples, sem maquiagens nem disfarces, sentou ao seu lado. Bateu a porta, respirou fundo...e desta vez não sorriu.
Fitaram-se por alguns instantes, engolindo em seco, buscando palavras e tentando entender se elas eram mesmo necessárias. 
Diego, que gostava de truques de mágica, rapidamente passou a mão entre os cabelos de Poliana e dali tirou a rosa, que ainda estava perfumada e bela, e a aproximou de seu rosto agora com os óculos.
Ela enfim sorriu, ainda que tímida e sem graça - bem diferente daquele sorriso do balcão.

 - Obrigada...
 - Não podia deixar de tr...
 - Você tem que ir.
 - Ora, o que houve? Eu estou aqui, e isso é por nós. Aliás, tudo sempre foi sobre nós.
 - Diego, entrar na igreja vestida como a noiva que você jamais imaginou só faz sentido se for você que está lá me esperando.
 - Acredite, eu estarei.

Então se olharam novamente, e com um olhar tão penetrante que se permitiam invadir um ao outro. Almas trocando de corpo e bagunçando tudo do outro lado, como imensas casas recebendo um furacão que tira tudo do lugar.
Pra recuperarem suas almas de volta, se abraçaram. Um abraço tão apertado e tão carinhoso ao mesmo tempo que aliviou cada tensão.

Não é preciso dizer que se ama para, de fato, amar. E não disseram.

E agora, apesar de tê-lo deixado ir, Poliana nunca se foi.

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