quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O poeta

Não existe a menor possibilidade de escrever qualquer coisa frente a Vinicius de Moraes:

A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante.
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza 
E a sua alma é uma parcela do infinito distante
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende. 
Ele é o etemo errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibilidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes
Olhando o espaço imenso da sua alma.
O poeta sorri.
Sorri à vida e à beleza e à amizade
Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.
O poeta é bom.
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras
Sua alma as compreende na luz e na lama
Ele é cheio de amor para as coisas da vida
E é cheio de respeito para as coisas da morte.
O poeta não teme a morte.
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.
A sua poesia é a razão da sua existência
Ela o faz puro e grande e nobre
E o consola da dor e o consola da angústia. 
A vida do poeta tem um ritmo diferente
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Elohima


Parece até que sei quando você está aqui.
Sinto seu cheiro, que vem por todos os lados, entra pelas janelas, pelas portas, pelos poros, e vai até onde deve ir: o ponto mais profundo.
Estou cochilando no sofá e ouço uma voz. A sua voz. Acordo, corro para a janela, olho pelos cantos, miro o céu e penso que você ainda está perto, que se eu correr eu alcanço, que o perfume que entrou foi porque você quase tocou o interfone e subiu. Claro que o porteiro iria deixar, até ele te conhece. Até ele sabe que você não se vai. Nunca.
Volto ao sofá e com ajuda dos gurus tecnológicos procuro suas pistas. O pior: encontro. Estão todas aqui, pulsando, notificando, invadindo meu corpo e me atingindo de um jeito sísmico. Meu coração quase para três vezes por minuto.
Porque essa semana lembrei de tanta coisa e te trouxe até aqui, quando havia apenas ecos e eu e você, e após a primeira dose que nos daria coragem já estávamos intrínsecamente nos devorando. Sem tempo para qualquer bloqueio, principalmente psicológico, ou talvez emocional, moral, foda-se: varamos a noite.
Não me lembro daquele orgasmo mas me lembro do primeiro. 
Não me lembro qual o desfecho mas me lembro daquele aniversário.
O nosso.
E não houve café da manhã porque os minutos aceleraram e você entrou correndo. Mas houve uma dor avassaladora como aquela que costumávamos sentir, e que nos tirou a energia até esgotar, e a alma ter que sair do corpo pra nos dar um tapa na cara e dizer: fujam enquanto é tempo.
Fujimos. Porém não do jeito certo.
E enquanto um de nós estiver vivo, o voo da borboleta do outro lado do mundo me trará teu perfume e um tufão. 
Fico com o segundo.