terça-feira, 8 de novembro de 2016

A sede

O tempo é de limpeza. Não há outra palavra que se encaixe tão bem quanto a própria expressão.

São picadas de cobra, copos quebrados, cães raivosos, e a energia em volta a se desestablizar. Magnetismo e sensibilidade bruscamente prejudicados por uma nuvem que insiste em obscurecer a tão recente luz.

Os poros continuam abertos.

Pela primeira vez olho para o futuro e não sinto medo. Pelo contrário, sinto sede. Não porque a vida pode ser melhor - e ainda que, definitivamente, será! - e sim pela angústia que trouxe a coragem, e pela coragem que trouxe a decisão.

A parte mais difícil está rolando.

O horizonte com um por-de-sol lindo anuncia um outro caminho. O céu e o mar infinitos em si dão o seu recado, convencendo enfim de que há um outro lado esperando para ser descoberto, explorado, enfim, reconhecido como sendo então.

Na ansiedade de fazer as coisas acontecerem - traços de um quase cético capricorniano - corro como quem quer mergulhar e seguir a nado. Já em cima da hora de pegar impulso, quando olho em volta, percebo que aquelas mãos que um dia me seguraram  - em qualquer fase que tenha tentado, assim,  me jogar -  já não estão mais aqui. Paro na beira, respiro fundo e penso...parece que agora o mergulho e, principalmente o não mergulho, dependem apenas de mim.

Molho então os lábios, agradeço aos céus, e me sento na pedra. Valorizo a contemplação, sinto a brisa, fecho os olhos.

Minha sede é do destino.




quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Waiting Silence

Os dias, que correram longos, tornaram o mês mais curto. 

Um tiro.

Nisso, não pude conter as lágrimas ao sentar na janela e vê-la ali - como diria o poeta - tão redonda, imensa e amarela. Somente uma lua cheia é capaz de canalizar toda e qualquer turbulência. Ainda, tão poderosa, tem essa força em qualquer lugar do mundo.

E quando as nuvens insistiam em tentar escondê-la de mim, desviava sutilmente os olhos e encontrava seu corpo ali, iluminado pela luz do abajur, formando o que os meus amigos fotógrafos dizem ser a sombra perfeita. Um pouco rude, talvez, decepcioná-los, mas estou mais perto da perfeição do que qualquer flash.

Mais uma taça de vinho enquanto você dorme e suspira profundo. E ao contornar a curva de seus quadris, paro os olhos em seu rosto, todo desenhado. Bebo mais um pouco e agradeço pelo privilégio de estar aqui.

Por um instante, então, volto no tempo alguns anos. Penso naquelas madrugadas frias e em toda aquela trilha sonora. Junto versos de todas as canções que ouvimos, percebo a forma como elas falam da gente e como amar você é algo assim, bonito, para mim.

Ainda emocionado, me perco nos sentidos...porém não nos pensamentos. E talvez, de todas as promessas e declarações, tenham estas sido feitas em silêncio ou por palavras, a mais forte continua sendo a que nos manteve aqui. A que faz cada ano passar assim, leve e despercebido.

Hoje, enquanto esperamos o silêncio após toda a confusão, consigo em certos momentos respirar tranquilo como este seu sono cansado e lindo. A noite tem que passar, o dia tem que agir, e assim o coração se acalma, os olhos se fecham, e só fica o perfume e o silêncio.

Até de manhã.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Misto e amor

Dava pra ver. Impossível dizer que não. E não é porque sou um voyeurista, amante do exibicionismo. Mas aquilo era demais. Era pra ver.

O sábado amanheceu pra mim por volta das dez. Levantei, fiz o meu café, e calmamente segui até a janela da sala - sabe como é, quando a gente mora em apartamento pode ser melhor que a tevê - pra ver a vista. 

E eles estavam lá. Ou melhor, ali. Bem ali, na varanda. No sétimo - ou pelo menos, contei sete, antes de perder a noção do resto todo - do prédio bem a minha frente.

Queimei a boca.

Até então, estavam semi-nus. Ela era linda, pequena das coxas rijas e torneadas. Curvilínea, a mulher fazia qualquer violão quebrar as cordas de inveja apenas com aquela calcinha-shortinho-meu-deus-me-tira-daqui e um soutien, ambos brancos. 
E ele, fazia o perfil rebelde, braços tatuados e magro, mas não de academia. Até poderia descrever outros detalhes, mas para meu prazer, ela estava em sua frente.

Aos beijos, ela o abraçava com aqueles pezinhos trinta-e-quatro delicadamente levantados, enquanto ele a envolvia com uma mão em seus cabelos e a outra segurando firme naquela cintura que por si só, já chamava a atenção. A mão que passeava pela nuca, agarrava os cabelos castanho-claros daquela pequena mulher, puxando sua cabeça levemente pra trás enquanto ele arranhava o pescoço dela com aquela barba por fazer. 

E eu ali. Parado, nem fiz questão de espiar. Eu estava assistindo, e o cheiro bom do meu café já se misturava com a cena toda.

Então ele a virou, brusca e suavemente de um jeito que ela já apoiou suas pequenas mãos no corrimão da varanda, e segurou firme. Com a cabeça abaixada, se contorcia até que seus quadris se encaixassem nos dele. As mãos grandes e também tatuadas, se inverteram, a da nuca passou para a cintura, e a da cintura...desta vez, agarrou com força os cabelos dela, fez a tradicional volta do pulso, e puxou! Quase que ouvi o gemido, de que finalmente se encaixaram. Dentro. Fundo.

Naquela hora, com a cabeça levantada, pude ver o rosto lindo daquela mulher. E eis que gelei: ela abriu os olhos. Ela me viu. Eu vi. E ela viu que eu vi. Porém, antes mesmo que pudesse me sentir o maior invasor de sua privacidade, ela sorriu e se contorceu mais uma vez.

Eu era convidado. 

Começaram então um ritmo forte, profundo. Ele grande, ela pequena, apertando aquele corrimão cada vez mais forte. E a cada puxada nos cabelos eu podia ver os dentes correndo pelo pescoço delicado, e o sorriso aberto de quem está aproveitando bem a manhã de sábado.

Eis que, enfim, o êxtase. A cada movimento mais forte e mais profundo, agora com ela em pé envolvendo seus braços pelo pescoço e ombros largos do homem mais sortudo que eu podia ter conhecido hoje, um gemido mais gostoso de se ouvir. 

Pra eles, pra mim, e para o prédio todo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

3:25

Parece até que o relógio parou, naquele dia que eu cheguei mais tarde.

Sabe como é, as vezes a gente trabalha demais. E como algum poeta já disse, sofre demais, corre demais, só pra te ver, meu bem.

Eu corri. E cheguei.

Antes mesmo de colocar a cerveja na geladeira, e já escondendo nas mãos o docinho (pra fazer o velho truque de tirar detrás da tua orelha, tão bobinho, e que ainda te faz sorrir) reconheci a voz vindo das caixas de som feias e empoeiradas. 
Era ele: Frank Sinatra. O mesmo, desde aquelas primeiras noites. Desta vez, embalando seu sono, toda encaixada no sofá. 

Deve ser mesmo difícil esperar.

Entrei de mansinho, tirei os sapatos, e parei por um instante ali, de frente pra parede que você resolveu pintar naquele dia, quando acordou toda inspirada. 

Te olhei por alguns minutos, encantado pelo seu sono dos anjos, enquanto em sua volta só o que se via eram telas e os diferentes tipos de lápis todos espalhados pelo tapete.

Sentei na beirada do sofá e recolhi os desenhos silenciosamente. É, você desenha. Até nisso me perco ao falar, quando me perguntam o que me atraiu em você.

Eis que dentre todas as folhas, uma me chamou a atenção, me fazendo até derrubar as primeiras. Parecia-se mais com uma foto, de tão rica e cheia de detalhes. Cheio de alma, aquele desenho. A sua alma.
Era uma foto nossa, de alguns anos atrás. Seus cabelos mais curtos, os meus mais longos, o mesmo sorriso. Disfarçadamente escondido pelas suas mãos na minha barba, enquanto a outra envolvia meu pescoço. Era aquela foto, que eu nunca te dei, egoísta que só. 

Se eu bem te conheço desde aquele tempo, você tratou de fazer a sua. Ainda sabendo como você gosta de detalhes, o elogio: ficou impecável. 

Passei minhas mãos grandes pelo seu rosto e cabelos, e ajeitei o edredom velhinho que você tanto gosta, cobrindo seus ombros. Você sorriu, tentou dizer algo, sem sucesso. Ri o mesmo sorriso bobo da foto de tanto tempo e do desenho de minutos atrás. 

Olhei no relógio, ja eram três e vinte e cinco.

Agradeci.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A luz

O caminho nunca deixou de ser árduo e - como gostam de dizer por aí - tortuoso. Se usar o pior sentido, fica ainda melhor.

Naquela noite, foi inevitável encarar o que a selva preparou (talvez assim, até com carinho) e receber o que já me seria de direito. Por que não?

Após a subida da montanha, por entre a mata fechada e os espinhosos galhos, a fácil decisão de que o cume era um bom ponto de descanso finalmente fez sentido. Então, contemplar uma lua minguante quase que desenhada por uma criança, de tão linda, fez as horas todas parecerem minutos. Ouvia ao fundo, porém com a clareza dos velhos discos e daquela Gradiente empoeirada, o poeta entregando-se: "...baby, Since I've Been Loving You, I'm about to lose, I'm about to lose, lose my worried mind".

Eis que surge no horizonte aquilo que traria, definitivamente, a transformação. O céu rapidamente se clareando anunciava que talvez não estivesse, assim, exatamente preparado - e quando é que, afinal, se está? - porém, não disse com todas as letras o quanto seria difícil.

Em minutos, uma luz forte, brilhante e linda, ofuscava a vista da paisagem, me transportando para uma outra atmosfera. 

Queimava. Sentia um calor intenso que começou em meu rosto e em instantes já dominava meu corpo. Os olhos abertos apenas viam a luz, e minha cabeça insistia em ouvir aquela música. Primeiro, tirei toda a roupa, minha pele ardia e meus cabelos já faziam os pensamentos se confundirem. 

Depois, quando senti que deveria, me despi completamente daqueles pensamentos do passado. Quantos sentimentos terríveis de se lidar, que sempre demandaram tanta energia - muitas vezes, possuídas por uma maldade implícita - e quantas formas de se defender e se garantir a própria sobrevivência.

Ainda sim, com aquela luz e aquele calor hostilmente mostrando a que veio, senti: é possível viver. Nu. 

E então, chorei. Soluçava como uma criança que se perdeu no parque, enquanto aquela luz me abraçava e o cheiro bom que sentia, me trazia paz. Chorei. Um choro puro como se estivesse assim, pouco a pouco, limpo. Livre, e pronto pra olhar pra frente com bons olhos. 

Toda limpeza gera dor. Mesmo a mais bonita das formas de se livrar do que parece mau. Essa dor, traz consigo, uma grande paz. Quero crer que isso é real. 

Quero ver, com bons olhos, o que irá ficar depois que a luz abaixar. 

Algo vai ficar. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A torre

Vem cá e olha essa vista, linda
Que o sol já chegou
Que o tempo chegou
E é mesmo a hora de se acalmar

Ainda que o coração não entenda
Não acredite no que a boca diz
E deixe tudo ir pra este rabisco
No guardanapo da mesa do café

Quem é que manda, afinal?

Se o mundo virou um redemoinho
Logo agora que os pés não estavam no chão
Sem querer, nos fizeram voar por aí
[até por acaso, escrevo aqui de cima, veja só]
Pra vermos as coisas todas
De outra forma

Palavras chegam sem controle
Metralhadas para que não haja tempo
Nem pra responder
Nem pra respirar
Pra não se dar o luxo de acreditar
Definitivamente

Que somos o que somos

Vem cá e ouve essa música, linda
Que daqui do alto da torre
Somos invencíveis

Que enquanto o perigo está lá fora
Trabalhando sem descanso
Arrastamos os móveis
Dançamos no meio da sala

Até que as lágrimas apareçam
E enfim reconheça-se ali
O que chamam de
Gratidão.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Let it shine


Então, no terceiro dia, acordou.

Não, não havia uma pedra fechando uma caverna. Havia, dentre tantas coisas, a janela, a varanda, e o céu que já trazia o sol pra ser sua companhia.

E havia ela. 

Ela estava lá, debaixo do mesmo cobertor e servindo de colo para que os dois, todo tortos naquele sofá, sequer percebessem que adormeceram em meio às próprias palavras.

Infinitas palavras.

Ao abrir os olhos, ousou acompanhar o movimento da luz do sol cortando os prédios e desenhando romanticamente um céu de nuvens e sombras. Tentou recuperar o último assunto da noite, sem sucesso.
Após dois, três...quatro momentos de puro êxtase na madrugada, o vento frio entrou por baixo da porta e aquele colo parecia perfeito. Sabe que adormeceram, cansados e felizes, mas foi incapaz de se lembrar onde pararam.

Talvez com a mudança no ar, eis que a rainha despertou de seu sono, e logo sorriu...
 - Dormimos!
 - E agora, como vou decidir?
 - Entre...?
 - Melhor é dormir ou acordar com você?
(Riram. Bobos de dar inveja!)
 - Deixa que eu te faço um café...

E a ouvindo fazer música de cozinha, vestiu suas roupas ali jogadas pelo chão. Olhava ainda para a varanda, imóvel, enquanto o sol ia chegando e invadindo a sala. 
Com os raios, brilharam também cabelos louros, agora segurando duas canecas de café. Preto. Forte e quase puro, como deveria ser.
Sentiram a mistura dos perfumes com o cheiro do café passado e trataram de entregar-se, um ao outro, num abraço...o sol, que agora perdia o medo, deu toda a cor para a cena mais linda de todos os romances europeus.
Ficaram então ali, sabe-se Deus por quantos minutos, olhando-se nos olhos e profundamente mergulhando, sem medo, naquilo que não conheciam.

Chico estava certo: É preciso muitos anos de cotidiano pra saber o que é a verdadeira boca de café.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Silent Lucidity

No meio de toda aquela confusão, você chegou.
Me trouxe um papel e me mostrou, com um brilho nos olhos e um batom vermelho, me dizendo entre lábios que agora é a hora, que finalmente podíamos ir, juntos, sorrindo e comemorando. Você estava convicta.
Sem entender muito bem, continuei caminhando pela rua. Parecia uma festa popular, ou algo assim. Até que logo cheguei a um pequeno palco de pallets, onde se apresentava um dos meus cantores preferidos. Por Deus, era ele! 
Fiquei e cantei, Palavras e Silêncios, com um gaiteiro chorador e o povo todo no arrasta-pé. Você me abraçou por trás e me beijou a nuca, enquanto permanecia imóvel, ainda sem acreditar que era mesmo aquele show.

Tudo isso, porque quando acordei, procurei por você e demorei pra entender que foi apenas um sonho. Tudo isso porque essa foi sua noite de aniversário, e nem lembrei.

Ou quase.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Drive


Com a visão encoberta, quase turva, ressurgem os erros do passado. E ainda com essa imensa vontade de mudar o curso, os planos, e a forma ousada de tratar a tudo e a todos, fica impossível evitar e não atropelar cruelmente o que insiste em tentar bloquear o caminho. Frio e impetuoso como uma máquina, o grande mal do capricórnio.

São dias difíceis estes, de se sentir como um vilão, e de quase acreditar que não há mais volta, como se fosse o fim da novela a única salvação. As decisões tomadas com cautela e exagerada lucidez tornam o dia a dia mais duro. E mesmo que em meio a natureza, tudo ainda parece cinza, seco. Uma névoa dificultando a percepção e confundindo a interpretação.

Caminhando por entre os carros, é possível sentir a vida se diluindo a cada segundo do semáforo, a cada gota de suor e de sangue que escorreu ou que ficou. Não há muito sentido, de fato, em sair. Entretanto, havia menos ainda em ficar, e por isso o sofrimento de agora é necessário. Drástica e inescrupulosamente necessário.

Subitamente, os mesmos pensamentos atormentam, esmagam, colocam tudo a perder. Mil situações que poderiam ter ocorrido, que levariam desde a prisão perpétua até a morte imediata, o simulacro em seu estado mais puro, a escolha da pílula vermelha pela azul, os flashes e a falta de exatidão dos fatos trazendo turbulência e uma disritmia profunda.

Que Deus perdoe essa imensa incoerência e arrogância. E que o amor vença, pois mesmo a pior das dores ainda não foi capaz de superar.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Ratos

Texto escrito em 15 de agosto de 2010, e estava até hoje como rascunho. Do tempo que eu era bom. Do tempo em que eu me achava bom.




Eles existem. Estão por toda parte, a sujar cada um dos ambientes com suas asquerosas patas imundas.

São, muitas vezes, imperceptíveis. Noutras, pode-se distinguir assim, só pelo cheiro. Dão nojo, estas criaturas.

Primeiro convidam-te a entrar, assim, cordialmente. "Vem comigo?", dizem, atenciosamente.
Não temos outra alternativa, nós, os de alma limpa. Aprenda a jogar e jogue, ou caia fora. Aprenda a digerir, e engula! Ou, caia fora.

Todavia tome cuidado, olhe pra frente, perceba. Você pode se apaixonar, pode cair no véu do veneno, das vestes dos vermes. E então, um abraço! Já se foi mais um.

Inalar o seu cheiro entorpecente é quase alternativa inescapável, portanto inspire, espire, deixe sair esta droga de você. Toda ela, sem fragmentos, que podem se alojar aí dentro e fazer você começar a pensar como um deles. E se não tomar mais cuidado, a parte que fica será sempre maior, e terei de dizer novamente: adeus.

Os ratos estão a dominar cada um dos cantos da rua, dos bares, dos palcos e prédios, do topo dos ares, também dos mosteiros, e de qualquer terra debaixo do céu.

Cruelmente substituem os humildes, perfuram bondosas intenções, penetram por entre os corredores de paz e perfuram as veias onde corre sangue puro, envenenam, se envenenam, e mostram sua força assim quando se unem, exalando sua impureza e espalhando a discórdia.

...

Respiro e engulo em seco. Não é possível estar em um ambiente com muitos deles, e não se sentir assim, angustiado. Vejo alguns dos poucos que eu contava ali contaminados pela excrescência da imundisse, e respiro novamente.


Agradeço por não ter aceitado o convite, e por nunca deixa-me envolver pela fumaça do lodo que envolve aquela presença estuporada.


Eu estou de fora. Ainda bem, eu caí fora.

Pensamento XVII

Escrito em Abril de 2011, em um momento de paz em meio à toda essa turbulência. Que saudade.

Quando o período é de paz, as loucuras deixam de se manifestar. Não deixam de existir, não desaparecem, mas de alguma forma não estão aqui. Vai saber.
De qualquer maneira, tem lá sua parte boa estar em paz: este é o momento de observar as loucuras que estão à volta.

A carta

Após ter passado certo tempo, de todas as confusões, os conflitos, os choques físicos e mentais, chegou a fatídica hora de fazer uma limpeza em tudo. Tudo o que ainda podia não fazer parte, ali, daquele ambiente.

Até que ela chegou àquela gaveta empoeirada e bagunçada onde ele costumava guardar todos os objetos não categorizados. Organizado, que só, aquela era sua válvula de escape.

Não havia, de fato, muitos objetos importantes. Ao abrir e sentir o cheiro, a agora então vítima do boom das distâncias do século, pôde lembrar de como foi difícil vê-lo partir com todas as suas coisas. Quase sentiu novamente a dor. Quase.

E entre umas moedas estrangeiras, comprovantes bancários e objetos de papelaria, um envelope branco padrão, sem selo ou mesmo ter sido fechado. Estando em sua propriedade, se sentiu no direito de abrir - mesmo temendo encontrar o que nunca quis de fato descobrir. E abriu...



Gostei tanto de você. Tanto, tanto. 
Pelas mais diversas e, até por muitas vezes, estranhas razões.
Gostei tanto de você que agora nem parece verdade que estou a tantas milhas de distância.
Quando olho para o alto mar sem fim, só me vem ao pensamento todo o sentimento confuso e perturbador que me trouxe até aqui. Todas as vezes em que parei em frente ao portão no meio da madrugada e, estando ou não sob efeito de todo o ópio que encontrei na noite, tive taquicardia e forcei meus ouvidos buscando sua respiração. Não por saudade, definitivamente, não. Mas sim para saber se estava ofegante ou se apenas dormia o sono dos justos. 
Sempre admirei sua justiça.
E por isso não fui capaz de lidar com seus momentos de loucura e explosão, ultimamente, não tão raros.
Confundi a paixão com amor. Troquei a admiração e o respeito por amor. E por fim, quando tudo isso já havia sido soterrado - delicada e gradualmente - pela poeira dos anos, misturei um sentimento profundo de posse e de excesso de proteção com o que, em meu mais profundo e doloroso âmago, parecia ser amor.
Ao me ver, já total e irreversivelmente imerso, só pude me entregar à solidão - esta, também com o passar e o pesar dos anos, já não mais por opção - e consumir ainda mais a perda de tudo aquilo que poderia ser bonito e cheio de calor. 
Eu perdi a mim mesmo.
Fiquei doente, perdi amigos, inimigos, quilos, bens materiais. Perdi tudo menos aquela segurança de olhar nos olhos do interlocutor e convencê-lo de que ele quer o que eu quero. 
E por isso, fugi. Não que lhe deva qualquer satisfação, no auge do meu orgulho e minha grosseria, tão feios, tão feios.
Agora, em qualquer oceano do mundo, percebo que talvez este seja o lugar mais longe que poderia estar de ti. Ainda em cima do palco, que tanto nos distanciou, porém a dezenas de milhares de milhas de distância.
Não te peço perdão pois não penso que preciso. E segundo, porque também não penso que mereço. Apenas reconheço que a culpa foi toda minha e que, como sempre fiz, saio mais uma vez sem colocar ponto final.
Não sei o que é um ponto final assim como não sei dizer o que é o amor.
E então navego em busca do que eu possa ser. Para que um dia, talvez, descubra algo ou alguém que eu possa amar. E por fim, tudo estará esclarecido.
Não importa quanto tempo leve.

P.S.: Cuide bem dela. 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Hawaii

Depois daquele rito pós reencontro, enfim Raíssa levou Ricardo ao seu apartamento.
Quando ele colocou os pés pra dentro, já sentiu uma energia diferente, sintonizada, gostosa. Ali era o lugar.
E não podia ser por menos, afinal, aquela visita já era uma dívida há pelo menos onze anos...até que veja só, aconteceu.
Tiraram os sapatos, um tapete peludo que cobria toda a sala fez Ricardo se sentir nas nuvens, observando rapidamente a varanda, e se jogando no sofá inteiro branco, pronto pra ser manchado com todo o vinho que aquela noite pedia. E olha que ainda eram pouco mais de seis da tarde...
Raíssa guardou as garrafas na geladeira, e voltou toda charmosa com duas cervejas nas mãos: - "A próxima é sua, bonitão!" - Com um shorts curto o suficiente pra provocar e uma blusinha bem a vontade.
Ricardo respirou fundo depois de observar cada centímetro daquela pequena mulher e só conseguiu dizer uma palavra:
 - "Saúde!"
Era um brinde e tanto.
Assim, em duas ou três horas - sabe lá! - foram quinze garrafas e setecentas histórias. Agora com os dois já alegres o suficiente pra saírem cantando Frank Sinatra pelas ruas de NYC, a música lá fora já nem incomodava mais. As palavras foram se acabando naturalmente, dando lugar às mãos que se tocavam, envolviam a nuca e o rosto, deslizavam por onde podiam ir.
Raíssa suave e leve, em um rápido movimento, já estava sobre Ricardo. Sentou sobre seu colo com as pernas abertas envolvendo sua cintura e entrelaçando pelas costas, passou a mão pelo seu pescoço e deu-lhe então um beijo bom. Não há outra definição para esse beijo. Quando a vontade já é tanta que ultrapassa a barreira da avaliação,
Logo, os dois se moviam tão sincronizadamente que já se sentiam completamente conectados mesmo com tanta roupa ali naquele espaço.
Ricardo se levantou e Raíssa já estava de joelhos, pronta. Tirou sua blusa pra libertar seus instintos e logo ja o possuía em sua boca, enquanto massageava suavemente suas honras e tentava engolí-lo por inteiro. Nada fácil, o que deixava tudo ainda mais excitante.
As calças de Ricardo já haviam se rendido, todas jogadas no chão...e ao mesmo tempo em que olhava para o teto e fechava os olhos quase enlouquecendo com a situação, levantou Raíssa com sua força milimetricamente calculada a colocando agora de costas para si - enquanto puxava seus lisos cabelos loiros e mordiscava seu pescoço - fazendo suas pernas tremerem, sua virilha se lambuzar de sua vontade, seu corpo arrepiar e pedir mais, e mais, e mais...
Agora, então, sem sinal de qualquer pano, Raíssa levou aquele homem de quase 1.90m para seu quarto. Abriu as janelas e, toda nua, abriu as cortinas...
 - Hoje os vizinhos saberão o que é um reencontro memorável!
Debruçou-se então de joelhos na cama, com as mãos na janela, e pediu...implorou, com um charme e uma delicadeza quase francesa...
 - Vem...com tudo!
Ricardo só pensava nas mil formas de possuir aquela mulher, tão pequena e sensual, feita para seus moldes: todo grande.
Seguiu e, com os movimentos certos, chegava até o fundo de Raíssa, agora já em êxtase e totalmente amolecida. A linda e loira tremia enquanto sentia Ricardo deslizar por dentro...suas mãos acompanhavam, deslizando sobre suas coxas e apertando seu quadril. De repente uma mão vinha e puxava seu cabelo com a força suficiente para que pudesse sentir Ricardo novamente lá no fundo. Prazer e dor, uma loucura indescritível.
Raíssa terminou a noite em seu ápice por três ou quatro vezes, amolecendo suas pernas e perdendo os sentidos, caindo de sono, adormecendo no sono dos justos...
Até acordarem pela manhã. Entrelaçados, grudentos e grudados, em toda a sua essência.
A vida não demanda explicações para o que é pra ser.
Assim, será.



Post Mem

Bebo todo o vinho
Que desce como sangue
Porque definitivamente
Não deveria estar aqui.
Apesar disso, respeito os fatos
O tempo, os atos
Se ainda estou, ora pois
Há suas razões.
O estado desaba por inteiro
Bagunça a programação,
E enquanto causa raiva em uns
Alívio em outros
Desespero em nós
Insiste em regredir para o século passado
Por que não, retrasado?
Abro então a vitrola,
Tal qual vivesse longe daqui
Nem sei onde, mas sim
Onde queria estar
E sento.
E imagino.
As folhas do outono continuam a cair
Enquanto faço sua trilha sonora
Para aplausos unânimes
De gente que me odeia
Que me evita
Que me inveja e
Que me excita.
E Miles Davis me acompanha
Pra eu poder pensar se você vai ler isso
Daqui a vinte ou trinta anos.
(Ah, como eu queria...)

Bebo todo o vinho.
Porque o segredo já foi revelado
E a vida não seguirá como deveria ser
Ao menos não há quatro ou cinco anos.
Agora então, entendo, o que a pequena abelha me disse
Em um zunido qualquer
Que só fiz uso indevido de quem não merecia
(Ah, que sofrimento!)
E o olho no céu continua lendo minha mente
Insistindo em mostrar o caminho.

Bebo todo o vinho.
Porque preciso abrir minha mente e pensar
Longe, alto, avante, maior, mais forte e mais intenso
Porque joguei tanta coisa fora e fiquei só com o essencial
De propósito, pra testar e ver, que sim, dá pra viver só com isso.
Percebo que enganei todas as dificuldades
A vida toda
Sempre com um atalho, um caminho, um seguro
Um plano que enfim não me permitisse sofrer o que
Talvez
Devesse.
Porque quando pensei que sofria, era só o começo
E foi ali que aprendi com os erros dos outros
Pra poder, assim, desviar as rotas
Encontrar subterfúgios
Seguir assim, camuflando meus erros
Culpando cruelmente inocentes
Inescrupulosamente.

Bebo todo o vinho.
Por enfim, por não saber ao certo
Se isso é o certo ou
Se carregarei pra toda a vida
A culpa.
Ainda sim, há algo maior
Que precisa de mim
E que me chama
Em sonho e em vida
Até com certa frequência
Pra me lembrar que, de fato
Se estou tentando mesmo fugir
Do que a vida colocou pra mim
O sofrimento é inevitável
Mas
Que se lá na frente souber
Que a escolha era essa
Serei então
Feliz ou não
Alguém pleno.
Consciente.
Entregue.
Vívido.
Cabal.
Om.


domingo, 1 de maio de 2016

Sabe?

Preferia mil vezes não te ver
A te ver
E me lembrar do quão inalcançável tu és
[Isso porque inalcançável é a palavra que mais tive dificuldade até hoje em saber se estava certa, veja só]
Que entre tuas fugas te encontro e já sei
Em breve, desaparecerás

E aí acontece de novo
Pelo clima da noite eu sei que não te perdi
E pela temperatura da minha cama eu sei que não te ganhei
Só não se engane
Isso tudo nada tem a ver com sexo
Mas sim, com calor

Porque fomos feitos incrivelmente sedutores
Cheios das possibilidades
Donos desses poderes
E até com certa preguiça
Que nos levou - por destino ou escolha - somente até a página seis

Empacados, então, estamos
Resolvendo outros amores
Ganhando e cumprindo favores
Sem sequer deixar pra trás o que já foi

Vamos vendo a vida
Que atropela os sentidos, todos
E aquela mordida no pescoço
Ficou guardada num bolso
A espera só de um esboço
Pra então desenhar nós dois



quarta-feira, 30 de março de 2016

I.M.

A vida passou. Rápido demais, por sinal.

E agora, que tudo está distante e friamente inalcançável, posso dizer que a missão foi cumprida. 
Enquanto o mar insiste em bater violentamente nas pedras, quase como que invadindo sua alma, apenas sinto o vento aqui de cima deste penhasco - bem que me disseram que a Austrália era o lugar mais estranho do mundo. 

Sinto o vento. 

E com ele, o calor que vem do Brasil, o cheiro de sonho arrastado da América [sic], a poeira da areia das construções italianas e claro, com elas, o cheiro do molho. Chega tudo ao mesmo tempo.

Existem pessoas que nasceram prontas para aproveitar o que a vida tem de melhor. Para todas as outras, sorte. E nesta questão, sinto que fiz a minha parte: Minha luta nunca foi para poder aproveitar o melhor da vida - e olha que sem aproveitar, consegui lá, ter meus prazeres - mas sim para poder construir o começo de uma história. 

Cruelmente, esqueço os registros daqui pra trás.

Criei, eduquei, inspirei e orientei o que pude. Se tudo der certo, minha cria irá aproveitar cada nuance disso que chamamos de vida, de história, de estrada....mas, para o caso de ela não aproveitar, só o que me resta é desejar profundo e sincero que ela saiba mostrar os caminhos - das pedras e dos ventos - para a próxima geração. Meu pequeno tesouro.

Quando olho para os rastros que deixei, é impossível pensar nos sonhos. Misteriosamente não realizados. Nos planos calculadamente não executados. Nas possibilidades naturalmente esvaecidas. Nas realizações obrigatoriamente não cumpridas e claro, nos projetos cuidadosamente engavetados.
A vida passou. Rápida, porém, deliciosa.

E de todas as lições que trouxe consigo, só consigo mesmo é lembrar daquelas que me tornaram o ser mais cruel, frio e passivo que poderia existir. A passividade protege a besta.

Na hora certa, percebi que não era bem aquilo. Parece, mas de fato, não é nada disso.

Aquela hora que parecia que ia dar certo, mas não deu. Aquele contato que foi feito, mas não deu continuidade. A entrevista de emprego que não retornou. A menina que parecia que queria, mas não. [Essa, definitivamente, acabou com a sua vida]. A promessa que foi feita e claro, não só não foi cumprida, como foi esquecida, enterrada. 

A vida, já diz a sabedoria popular, é exatamente isso: Aquele que você achou que ia ser silencioso, mas te sujou a calça toda em público.

E agora, na reta final, consigo perceber a delicadeza dos detalhes e das decisões perigosas que sempre tive que tomar. Mentir sempre deu um trabalhão danado. E a propósito, antes dos julgamentos - que fodam-se, afinal, o máximo que podem fazer é adiantar alguns meses ou anos - nem sempre se trata de caráter ou idoneidade. 

Não se pode limitar todo um viver apenas por padrões.

Insisto na necessidade de se deixar acontecer, conduzir de olhos fechados, atirar no escuro. Porque sim, todos os jogos e manipulações são permitidos, você é que acreditou quando te disseram que não é pra usar.

E usou tantas vezes sem saber...quanta bondade.

Bondade tanta, que me faz me despedir assim: em meio aos heróis. Que de tanto que fizeram, foram inescrupulosamente traídos por seus melhores amigos.

Confesso, de coração, que não me orgulho. Só reforço que nunca jurei essa lealdade, por isso não me cobre, e me deixe ver a luz em paz. 

Até a mosca do excremento do cavalo do bandido merece. Por que não eu?

terça-feira, 22 de março de 2016

O amor mora na Lapa


Certo dia, em meio ao corre corre incessante de qualquer rotina, resolvi ligar...
 - Alô.
 - Alô. É...oi.
 - Oi!
 - Camila?
 - Tudo bem, Gustavo?
(Segundos cruéis me dividiram, então, entre a possibilidade de ainda fazer parte de sua agenda, ou por pior que pareça, de sua memória auditiva)
 - Tô bem. Atrapalho?
 - Sempre...pffff (e riu, charmosa como eu sei que ri)
 - Estou na Lapa, passei na frente da padaria...a nossa padaria...e pensei que (...)
 - Já entendi, bonito. Levo meia horinha pra chegar, como está sua paciência?
 - Eu trouxe! hehehe (rimos, estranhamente juntos)
 - Até já já, então!
 - Até.

Meia horinha. Era o tempo que eu tinha pra fazer tudo o que pudesse fazer e não perde-la de novo. "É pouco", pensei. Mas sempre é.
Corri então pra Lapa - afinal, claro que menti sobre estar lá, artimanhas de loteria, essas - e passei na floricultura da rua do Shopping, ainda em tempo. Minha mágica deve funcionar.

Entrei na padaria e fui ao banheiro. Me abaixei, lavei o rosto, respirei fundo. Dei aquela olhada geral e estava impecável: o blazer bonito, a camisa, o chapéu. Olhei para o botão de rosa e tornei a checar a barba bem aparada. O "por fazer" mais falso do cinema americano. Respirei fundo novamente, e a expressão não ajudava. Eu estava com medo.

Sentei de costas para a porta. Não me perdoaria se a visse entrando e acompanhasse todos os seus movimentos até mim...sempre gostei tanto de vê-la vindo, e indo também...bem, hoje não. E por alguns minutos ensaiei a cena de novela, a surpresa quando ela aparecesse, o sorriso, o abraço. Minha mente voava!

Até que ela entrou. A alma da gente sente o magnetismo de longe (ah, como gosto deste assunto!) e foi inevitável arrepiar. Cada poro por debaixo do tecido avisando que era hora de relaxar...senti sua mão de leve tocar meu ombro, ainda andando, e abri os olhos...
 - Ufa! Cheguei...
 - Você veio mesmo...
 - E não disse que viria?
Me levantei, em meio à recepção, e nos abraçamos...em um abraço meio estranho e desajeitado, daqueles que servem só pra trocarmos os perfumes e confirmarmos a quê viemos. Passei a mão por detrás de sua orelha direita e voilá!
 - Ah não, Gustavo, hahahah, seu bonito!
 - Olha só o que achei aqui...(e quebramos o gelo mais rápido do que pensei, o truque do botão de rosa faz milagres desde 98)
 - Senta...te esperei pra pedirmos juntos...

Aqueles foram os minutos mais longos de minha vida. Ela ali, a Camila, a minha Camila, sentada em minha frente com aquela expressão que quase levantava só uma sobrancelha, enquanto ameaçava um biquinho pra fazer charme e passava o botão de rosa pra lá, e pra cá...pra lá, e pra cá...e eu ali, com os dois cotovelos na mesa e as mãos cruzadas frente ao queixo, olhando no fundo dos seus olhos e dizendo tudo o que não poderia dizer com palavras...

 - Fiquei surpresa, sabe? Do nada, assim, tantos anos depois...
 - Confesso que estou surpreso até agora
 - Nem precisa, dá pra ver...pode relaxar, eu não mordo, não preciso te dar detalhes...preciso?
E riu novamente. Ri também, só que de nervoso...Como ela estava linda! Ah, que vontade de levá-la de volta pra minha vida. Pra nossa vida, aquela que ficou lá atrás, estacionada em algum lugar lindo do passado.
 - Os anos te fazem bem, está cada dia mais bonito. Deve estar pro em colecionar amores, visto que antes era apenas um aventureiro em início de carreira
 - Pois os anos não têm te feito bem, já falo de cara pela miopia
 - hahahahahah! (gargalhou, bonita que só)
 - Agora, sobre os amores, não vou fazer piadinha...se estou aqui com você, talvez signifique algo, não?

Sua expressão mudou...passou daquele charme para certa seriedade, que trazia também um pouco de tristeza nos olhos. Um lapso, assim, como se eu tivesse apertado um botão. E acho, sinceramente, que o fiz...

 - Olha, Gustavo - e não mais Gu, como em outros episódios desta estória - não vim até a Lapa pra brigarmos, então vamos com calma, ta? Não precisa desta coisa de significado, de amor, de nada disso. Você não precisa me convencer de nada porque sobre nós, ainda bem!, sabemos tudo.
 - Você sente falta? - Interrompi, aflito, já suando.
 - Também não queria encher sua bola, porque sei que você gosta mesmo é disso, mas ah... - respirou fundo - não há um dia sequer que eu acordo e não penso no cheiro do café, nos estalos dos discos, cada dia de um estilo, e em tantas outras coisas. Acontece que este não é o ponto. O ponto é que depois de você, outras pessoas surgiram, e me trouxeram um imenso vazio que me fez me desesperar ainda mais de vontade de voltar correndo pra sua vida. Pra nossa vida. E em meio a todo esse desespero e a muito, muito café, resolvi tentar sozinha.
 - Então você não tem alguém?
 - Eu tenho, Gustavo.
 - Hmmm...não precisa me chamar de Gustavo, bonita
 - Gustavo...ta? E continuando, eu tenho você. Aqui na minha vida pra que eu possa resgatar - ainda que todo dia, azar este o meu - enfim, tudo o que penso ser o significado do amor. E pra que eu possa reforçar que nada foi tão lindo antes, muito menos depois. E essa é a parte que me faz ter força pra vir até aqui, porque você precisa saber que é possível sim seguir sozinho e ficar em paz. Cuidar de si, da família talvez, das próprias coisas, do próprio tempo, das finanças, encher a cabeça, você entende? Cuidar do próprio jardim, já que você gosta tanto de poesia.
 - ...Coisas misteriosas sempre foram a especialidade entre nós!
 - O que quer dizer com isso?

(continua)

quarta-feira, 16 de março de 2016

Apenas



Olho atentamente, respiro profundamente, e em silêncio percebo e degusto o óbvio: Não fui eu que acabei na gaveta, mas sim, a culpa é minha por ter engavetado todos estes sentimentos. 

De maneira simples e rápida, fria, objetiva, sagaz. Olhei para as últimas páginas destes folhetins, fechei os olhos...e as capas. Guardei-os todos em gavetas do mesmo arquivo, nada organizados, catalogados ou indexados - veja, você, que palavra difícil. Apenas com algum carinho fui moldando para que todos coubessem ali, um ao lado do outro, sem ordem de importância (ou enlouqueceria) e sem muita cerimônia. 

Por se tratar de um ser que não costuma fechar portas, chequei apenas no fim da última frase de cada última página se havia ali um ponto. Pontos são importantes. Porque tudo pode começar logo em seguida, ou daqui um ano, ou daqui uma vida.

Alguns destes, definitivamente, não poderão ficar ali esquecidos.

Enquanto bebo mais um gole do café, observo as novas leituras...também as páginas em branco. Há tanto a se escrever (talvez nem tanto que se ler, mas vá lá - Diria Quintana) e menos disposição do que preciso.

Um poeta contemporâneo disse bem: Preguiça do que não é incrível.

Vale sentir o desejo quando vem com ansiedade, com certo nervosismo e excitação, borboletas no estômago, cachoeiras nas mãos e desertos na boca. Vale, sim, mesmo depois de toda a efemeridade que há de se empoeirar nas velhas prateleiras de metal.

Vale ansiar pelo grande título, pela leitura na qual cada frase parece um remédio pra alma, e cada nova página se desconhece até que se chegue lá. O imprevisível é o grande mentor da espontaneidade...e é esse que quero!

Arrisco que meu pé nos clássicos não me deixa sair desta populosa e diversificada biblioteca, e me seduz a idéia de que isso pode ser tranquilamente encontrado em uma segunda leitura. Existem livros que devemos ler a vida inteira, sabe como é, a cada nova idade ele vem diferente. Arrisco e temo, mas a arte não ama os covardes, então prossigo.

Preciso perder o fôlego!

No encontro, no brinde, no beijo, no toque, nos olhos, nos pelos, na pele, nos seios, virilhas, cabelos, no sol, no café, no bom dia, no cheiro, no estalo e no abraço. Quase masoquista essa obsessão pela taquicardia.

Mas é que cada vez que o coração acelera a tal ponto, em um determinado momento, ele para. E nestes segundos de Schrödinger é que a gente sai do corpo, olha tudo em volta, e conclui...

É AGORA!

Enquanto isso, rezo todos os dias pra não ter que ler nada rapidamente. Meu coração não tem visto graça em poucas palavras...


sábado, 12 de março de 2016

Quantas vezes


Ao chegar em casa, ouviu um estardalhaço. Fechou os olhos com toda força enquanto as mãos tapavam os ouvidos, o corpo quase que em posição fetal, se contorceu e tentou manter o equilíbrio, até que enfim, caiu.

No meio da sala.

No meio da história. Da sua história.

Rastejou então até o antigo aparador que ficava de canto na sala de jantar, onde não havia sequer um móvel além do mesmo, e que por sinal, servia apenas para dar apoio à vitrola. Enquanto deslizava lentamente pelo chão liso e frio, pensou no arrependimento de não manter o aparelho no chão para momentos como este.
Eis que encontrou o disco, e o colocou na bandeja. Posicionou a agulha, fez a mágica acontecer - tudo isso ainda deitado - e pôde ouvir com a intensidade de uma bomba nuclear, entre chiados e estalos, Golden Slumbers.

Golden Slumbers.

"Once there was a way..."

Se permitiu então, finalmente, chorar. Abraçando o encarte antes mesmo de Carry that Weight, soltou um grito do fundo de sua alma.

 - AAAAAARRRRRRRGGHHHHH!

E a casa toda ecoou. Alto. Forte. Agora rasgando tal qual um punhal artesanalmente serrilhado, invadindo sua própria alma e buscando o estômago a qualquer preço.

Seu corpo já revirava, se contorcia, e enquanto as mãos agarravam no tapete e sua turva visão já confundia todos os sentidos, gemia desesperadamente, quase que como alguém pudesse ouvi-lo - quem dirá, salvá-lo - e cantava entre soluços, cada toque de tambor anunciando The end.

Aos poucos, enquanto retomava o controle, sentou-se na varanda. O corpo previa as dores que chegariam amanhã quando acordasse, e ainda sim, acendeu um cigarro - este que seria o mais longo de toda a sua vida.
Em vez de estrelas, um céu cheio de nuvens alaranjadas pelas luzes da cidade e um ar frio com tempero de garoa. Uma divina contemplação.

Assim, no intervalo entre o eco da gota que pingava lá dos fundos, e a fumaça que vinha de seus já cansados pulmões, pensava que esta talvez pudesse ser a última.

Ledo engano.

Tantas, tantas e tantas...

segunda-feira, 7 de março de 2016

Leve Desespero



A cena se repete, misteriosa e premeditadamente. 

Ando pela calçada em plena segunda-feira após o horário típico do expediente normal, naturalmente não o meu. A chuva, que começa forte e pesada, vem direto em meu rosto aliviando meus ombros e alterando meus sentidos, acelerando meu raciocínio, isolando minhas análises. Com ela, um medo indescritível que perfura minha pele e corrói meus ossos, me enfraquece, afina meu sangue e aperta meu coração. Sim, um medo de tudo: dos relâmpagos e trovões, dos bandidos nas esquinas, dos cães bravos pelas ruas e principalmente de cada rosto que aparece, tendo ou não contato visual. Meu corpo estremece quando arrepia em um misto de frio com aquele aviso de estado de alerta que vem direto da espinha. A ansiedade dá golpes fortes no estômago a cada passo, parar na esquina para esperar os carros não é nunca uma boa idéia visto que o destino ainda parece distante, então a luta contra a dor promete continuar.

Respiro.

Há uma força que me induz a mudar a rota assim, sem prévio planejamento, apenas ir. Há tantas esquinas e ruas e vielas, infinitas possibilidades, e invariavelmente é preciso cumprir o objetivo, a agenda, aquilo que tantas barreiras superadas, guerras vencidas e bandeiras conquistadas, trouxeram ao longo desses meses, dessas semanas, desses dias de sol. A consciência de que há uma data limite faz com que o tempo só passe mais rápido, novamente repetindo a cena anterior, quando vi o final e pensei WOW! E não é que dava mesmo pra chegar?

Reflito.

E peço desculpas ao leitor. Nem sempre era pra conseguir entender.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Voice

Depois daquela noite, Janaína esperou. Pela mensagem, pelo carinho, pela reciprocidade. 
Não houve coisa que a menina dos olhos azuis mais fez na vida, que esperar. Talvez, torcer. 
Talvez...



Era um sábado de um outubro qualquer. Após alguns olhares em diferentes ocasiões, houve o sinal: por que não?

Poucos sinais são tão perigosos na vida.

Combinaram de se encontrar naquele bar na esquina de todas as avenidas. E lá, se sentaram, na mesa mais do canto, quase que na placa. Detalhes.

Ele, estudante, pesquisador, na luta do dia a dia: contra o subsídio, contra as contravenções, contra o excel. Ela, artista, pintora, de social e bom perfume após uma noite de trabalho. Expor cansa tanto quanto se expor. 

E lá estavam. Quem olhava de fora quase que podia sentir a luz que vinha e que insistia em rodear a aura daqueles dois jovens, bonitos, quase que puros, se entregando com os olhos e com as palavras tão misteriosamente sinceras. 

 - Mas que esgotada você parece estar...um brinde a essa noite que apenas começa!
 - Você pode não acreditar, mas as vezes pintar pode ser nada inspirador...
 - Eu acredito...

Ele sabia. De tudo o que ela achava que tinha de novo para mostrar e pra convidá-lo a ver e viver. Sim, o jovem pesquisador de alma e de jeito cheios de amor, curiosamente, tinha um passado peculiar: uma outra pintora já havia passado por sua vida e de forma tão intensa e nova que não dava pra dizer que acabou. Essas coisas não acabam assim.

Porém, acabaram com Janaína. Era um desses raios que jamais cairiam duas vezes no mesmo lugar. Só mesmo nessa história.

Dali pra frente, a nossa Jana abstraiu. A noite foi se tornando mais interessante e gostosa, mais leve e entorpecente, drink após drink, riso após riso.

Quando então, sentiram que deviam, caminharam em direção a casa dele que era ali pertinho, até que ela pudesse entrar em seu carro ainda cheio de telas e tintas e pincéis. 

E ali, na frente do prédio, o tão esperado beijo aconteceu: lento, bonito, carinhoso e calmo como um primeiro beijo do melhor cinema. Entre risos e toques no rosto, ele sentia seu perfume e ela acariciava sua barba...se mordiam, entre lábios, dançavam os rostos e os olhos. E aquele arrepio bom que parece que a alma sai do corpo e volta rapidamente.

Até que ela se foi. E dirigiu por horas antes de ir pra casa, tentando entender direito o que aconteceu. Tentando superar o medo e a insegurança daquele passado já carimbado e com impressão de presente, de um jeito que quase dava pra sentir o cheiro da tinta entre os cabelos do lindo rapaz. Como pode? "Como pude"? Se culpava por não ter chegado antes - sim, absurdos na cabeça desvairada de uma artista sempre incompreendida - e por não ter tido balas pra impressionar o suficiente...



Desde então, não houve contato que não desse a impressão de "mantenha distância". Logo Janaina, menina sem medo, que faz o que quer, que vai e que fala. Mulher de atitude, diziam. Teria que esperar que as coisas se acalmassem, que a vida desse um jeito e que por um raio no mesmo lugar, ela tivesse uma chance. E por que não dizer, eles?

Torça, Janaína. Espere e torça.

Estante


Sensação boa é ser bem vindo na madrugada. Assim, desde os dezesseis, quando estava apenas aprendendo.

Hoje, décadas depois, certas coisas simplesmente mudaram. Em vez do uísque, um bom café. Na vitrola, de Roberto a Odair - fazendo o ovo vir antes da galinha, mas vá lá! - e a noite insiste em ser o que é. Cães uivando e loucura nos becos. Sem nove horas.

Andei fechando os olhos e tendo visões. Todo o meu passado suplicando, pedindo ajuda, como em coro: "Feche o último livro de uma vez!". Passagens quase que atemporais clamam por pena, insistem em querer ficar, e surpreendentemente têm bons argumentos. 

Que confusão.

E nesta, como se estivesse fazendo a lista de convidados do casamento, mentalmente risco nomes e episódios. Elejo heróis e vilões, crio categorias e misteriosamente o pódio continua lá empoeirado, esperando ser ocupado com honra e mérito. Haja mérito.

Entre referenciais perdidos, acabo por esquecer naturalmente tanta coisa que tinha orgulho de lembrar. Histórias inteiras jogadas no lixo, melhores momentos que viraram pó e agora são lembranças distantes, títulos auto-concedidos agora são meros certificados engavetados. Na escrivaninha e no coração.

Conforme as horas vão passando assumo com orgulho o fato de que não há horário cheio que eu não tenha olhado no relógio alguma vez na vida. Qual foi a última vez em sua vida que você olhou no relógio e lá batiam três e quarenta? E seis e dezoito? Meia noite e cinco? 
Definitivamente, escolhi ser vivo. E hoje pago por isso, com minha pele e meus ossos. Mas isso é outro assunto.

Agora, vejo que falta pouco para que tudo fique pra trás. Não que não esteja lá, mas sim, por todo o tempo que insisti em manter tudo assim, ao alcance das mãos. Não! Não pode ser assim. 

Fecho mais uma vez os olhos e penso em como são bonitos os reencontros na vida. As vezes dolorosos, as vezes suaves, cada qual com sua devida exclusividade. A besteira mesmo foi tentar manter tudo assim, por perto, na eminência de a qualquer momento acontecer, romântica e misteriosamente, uma linda cena de novela.

O resultado foi que elas constantemente aconteceram e, quase que em um looping infinito, perderam a magia e o impacto. Vieram e passaram quase em um piscar de olhos. Agora desaparecendo porque não vieram pra ficar.

Rezo para o que está vindo pra ser, de fato, único. Torço para que o pódio seja ocupado e unicamente desenhado no pensamento, no sentimento, de modo a surgirem logo no primeiro lembrar. Ah, como eu quero!

A parte boa, pois claro há, é poder escolher mentalmente o que se quer que perdure. Existem histórias que não podem ter vindo apenas por tão pouco tempo...e assim, aos poucos, vou fechando os livros e os organizando nas prateleiras. 

São muitos, mas esse também, é outro assunto.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Dois mil e nove


Foi preciso engolir em seco e respirar fundo quando ele me disse:
 - Não. Não vou ficar.

De fato, era a única coisa que se podia fazer. E claro, sentar na mesa, abrir a cerveja, afrouxar a gravata. Os olhos no vazio da própria rua, sempre tão cheia de sonhos e possibilidades, refletindo o retrato de um sentimento que não existe.

Aquela mesa de plástico - agora então, branca - e a cadeira me trouxeram de volta aquela esquina, bifurcação, em qualquer lugar do planeta que fosse há quase dez anos. Continuei, como se procurasse o final feliz, como se ouvisse a TV, como se tomando mais um gole pudesse encher os olhos de lágrimas. Pela emoção e pelo gás.

A amizade não existe. Ao menos, não a que procuro. 

Talvez porque mudaram os conceitos e não acompanhei - procuro colocar a culpa nisso - e agora carrego nos ombros a consequência pesada do tempo que passou e levou embora qualquer sinal de companheirismo. A força da correnteza que vem contra, esta: a rotina, e que por falta de coragem e de vontade nossa atropela e leva embora bons momentos.

Nossa, não! Deles.

Porque ainda olhando fixo pra calçada, gole a gole, percebo que ainda estou aqui. Ainda sou o cara que abraça a idéia, que fica, que toma a saideira - seja cansado, sujo, dolorido, sem tempo, com sono, tendo as tantas desculpas possíveis - e que continua a conversa, que topa independente do horário, que atende de madrugada. Que ligaria, se alguém atendesse assim, prontamente.

Isso pra mim é o conceito. Isso é o natural, ou o que deveria ser, do que entendo por companheirismo, amizade, luta. Ser amigo é uma luta conjunta. Uma luta onde a compreensão admite qualquer distância, mas não tolera indiferenças. Onde nada é desculpa: Morte? Estarei lá. Doença? O primeiro a tentar resolver o que estiver ao meu alcance. Dinheiro? Fica tranquilo, abrimos uma "cardineta".

O que não aceito é um não, quando não há vontade. Contentar-se com o coleguismo de semi-encontros é cruel. 

Mas quem disse que a vida é justa, não é mesmo?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Não amor.


Já devia estar acostumado.

Depois de uma grande explosão de energia boa sempre vem esse buraco fundo e silencioso, claustrofóbico, pura introspecção. Até aí, nada fora do trivial.

Entretanto hoje parece que foi diferente. E não é porque a bonança foi maior, mas sim, porque hoje vi coisas difíceis de se ver, de sentir, de encarar.

Hoje eu vi a luz. Lá em cima, olhando aqui do fundo, de pequeno diâmetro devido a distância, porém de um brilho tão forte a ponto de clarear cada pedaço da subida. 

Por isso o choque.

A surpresa boa e empolgante de se ver que a luz pode ser alcançada - e que, inclusive, é possível enxergar o caminho - veio acompanhada da aterrorizante distância entre o fundo e o topo, acrescentando certa crise de idade falsamente assustadora, e a boa e velha vontade de desistir (visita, esta, tão periódica quanto o banho do prisioneiro).

É longe. Está longe. Está difícil e vai exigir muita dedicação, muito esforço, uma disciplina tremenda e organização que eu não me lembro bem se ainda tenho. 

É longe. E tudo isso deixa a bela luz ainda mais longe. De um jeito que aquele exercício gostoso de me imaginar lá, no auge, foi parcialmente ofuscado por uma cortina, uma falha na transmissão, uma interferência cruel.

Penso naqueles que estão até hoje no mesmo nível, aqui do fundo, tentando subir. Naqueles que já desistiram até de subir, sentaram no chão, e vivem choramingando pelos cantos. Penso naqueles que estão no meio do caminho, com toda dificuldade. Nos que chegaram em um determinado ponto e ali ficaram, acomodados, fadados a morrer à meia luz...porém, penso especialmente, naqueles que vi chegarem lá em cima, beijarem a luz, e só então desistirem, cairem de novo, encostarem em um ponto qualquer.

Hoje eu acordei mal. E o poeta em vez de um "Bom dia", me disse: A arte não ama os covardes.
Faço o sinal da cruz, faço minha oração, e mentalizo boas coisas, atraio boas energias para que as notícias venham, enquanto isso, vou a luta. Um passo de cada vez. 

Todos a bordo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Partida


Ora, meu bem, se a vida do marinheiro não é feita de amores, será do quê?

Amores que chegaram pra ficar...e não ficaram!
Amores que queriam ficar...e não podiam!
Amores que podiam ficar, e não quiseram.

Se a vida do marinheiro não for feita de seus amores, quisera ser feita do quê, então?

Amores que chegaram sem avisar, sem pedir!
Amores que não podiam ficar...e ficaram!
Amores que não deviam nem chegar...e ficaram,
E dormiram.
E moraram.

Ah, meu bem, meu bem...devo-lhe dizer que a vida do marinheiro é viajar. Como há então de lidar com isso?

Amores que desafiaram...e que pagaram!
Amores de primeira viagem...só se feriram!
Amores velhos de guerra...desfaleceram.

Digo-lhe com minh'alma...não há cura que resolva, corpo de tal calibre...

Que fere, corrói, e mata.
Que não tem pena, Que não tem medo
Encara e enfrenta
A dor e a morte
A morte de amor
De desejo, e fel

A vida do marinheiro é amar
Navegar, navegar e amar.
Partir, e chegar, e amar.

Até o dia de sua partida.

Labirinto


É claro que eu poderia amá-la.
Naquele momento, andava nas nuvens. E olha que fazia o maior esforço pra não perceber, pra me enganar.
Quando ela chegou, tentei não olhar muito. Juro. Segui o espelho enquanto ela desfilava por detrás do meu carro e fingi não perceber.

Destravei as portas, entrou. Travei. As portas e a fala.

Beijo no rosto porque isso é protocolo. Trocamos o elogio mentalmente: que mulher cheirosa! Que homem cheiroso!
Ao longo do trajeto, minha fraqueza tomou conta: indecisão. Como escolher o melhor restaurante se até o banco do carro com você parece bom?
Paramos. Andamos. Charmosa você enquanto anda...impressionante!

Na mesa, ignoramos os protocolos e fomos direto ao que interessa:
 - Não bebi por anos por conta de uma besteira. Hoje quero beber!

Algumas cervejas cheias de paladar e já estávamos daquele jeito: seguros. Bonitos. Confiantes. Uma noite quase sem limites.
Entre amores do passado e uma postura ereta e clara, a troca do olhar e o silêncio por segundos. O silêncio da admiração. Acho eu, assim, tão bonito quando isso acontece.

Até que ja era hora de partir. Vou poupar essa escrita de todo o charme dela enquanto comia uma porção de pequenos pastéis. Guardo a paixão pra mim.

É claro que eu poderia amá-la.

Poderia me apaixonar por ela. Poderia casar e ter filhos. Poderia admirá-la até guardando o carro na garagem - embora saiba que ela não prefere assim.
Já na porta de casa, o grande momento. A liberdade de não precisar fazer o que não se quer deixa tudo muito mais interessante. E isso só se constrói com muita, muita estrada.

Quando a toquei no pescoço, correndo meus dedos entre seus cabelos, senti o arrepio enquanto seus olhos se fechavam e sua alma a denunciou...
 - Você é tão, tão carinhoso!

Prosseguimos, mas é claro. Um beijo, daqueles que podia e fiz questão de parar, alguns segundos, frente a seu rosto, com minha boca a poucos centimetros da sua, respirando o mesmo ar.
É possível saber, só aí, se tudo dará certo ou se não.

Continuei.

O toque delicado das bocas e o entrelaçar de mãos, de cabelos, de rostos e de calor. Enquanto nos movimentávamos tal qual dois passarinhos voando romanticamente, destilávamos breves mordiscadas: no queixo, na barba, no pescoço assim quase na orelha, na nuca.

Tornou-se perigosa a situação.

A partir daí não me lembro mais. Não me lembro da despedida, não me lembro do detalhe, não me lembro.
O que será que a fez desaparecer? Não completamente, é claro, vivemos na era da super tecnologia do rastreamento...e só quem vive aqui entende a complexidade de quem não desapareceu. Está ali, entretanto, intocável.

É por isso que o labirinto nunca acaba e talvez nunca acabará.

É por isso.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Quando?


Quando se chega à praia, a primeira sensação é maravilhosa. Uma espécie de alívio, misturado com ansiedade - Uau! Quanta água! - e até um certo medo. A grandeza do mar e seus mistérios de fato assustam, do jeito bom e do jeito ruim. Em geral, chegar à praia é uma delícia.
Quando se chega na beira do mar, existe uma força que te puxa intensamente pra dentro. Nos sentidos real e figurado. Sim! Aquela água está voltando para o mar, e te puxa junto: venha, venha! Você se segura para se equilibrar, pois é preciso, mas já sente do que se trata. É preciso tomar uma decisão.
Quando se está entrando no mar, água nas canelas, a sensação já é de poder! Você já tem certa confiança para correr, pular os obstáculos menores - há há, essas ondinhas - e continuar em frente. Vem uma coragem sabe-se lá de onde, e você vai!
Quando a água chega nas coxas e vai subindo pra cintura, já é possível sentir o peso de sua decisão. As ondas não estão fortes o suficiente, mas já não são tão fraquinhas pra se poder pular e correr. Você se sente se arrastando, fazendo força. Os obstáculos agora te seguram e te levam, te derrubam se você não se mantém firme. Ainda dá tempo de voltar.
Quando se tem água entre a barriga e o peito, é porque se quer continuar em frente. A força do mar já mostra a que veio. Você caminha com certa dificuldade, percebe que está sendo levado, não só para o fundo, mas também para os lados, se desviando de sua reta, sem nem mesmo perceber. Você também aprende o truque de virar de lado parar quebrar as ondas, dar um pulinho, você enfrenta.
Quando, enfim, a água chega nos ombros, você já percebe que está próximo do limite. Caminhar já pode ser feito com mais facilidade, veja só? Retomar a direção em que estava também, parece acessível. Entretanto, é o momento crucial: Você pode voltar para a margem, assumindo que ali é o máximo que pode fazer; Você pode começar a nadar rumo ao oceano, ainda com uma certeza: quando não der mais pé, está sem segurança alguma, apenas você, seus pulmões, braços, pernas, e aquele montão de água; Ou ainda, você pode olhar para o horizonte e pensar...

Como pode o meu limite ser aqui? Tem tanta água, tanto a ser explorado, o oceano é tão grande, e no meu limite eu ainda consigo ver tão bem a praia! Como assim não dá pra ir mais longe?

Dá. Dá pra ir mais longe, muito mais, inclusive. Você só precisa encontrar um jeito. 

Afinal, você tentou sozinho, sem nenhum recurso, apenas você e suas crenças. E mesmo estando nessas condições, já enfrentou todas essas dificuldades, encontrou os meios de superá-las, foi em frente, lutou, caiu, foi levado, voltou, seguiu, até que se continuasse em frente já não seria mais seguro. Agora então não se trata de não ter coragem, mas sim, de não querer morrer.

Você não quer morrer. Ou quer?
Se não quer, use essa experiência a favor, e siga. Encontre os recursos, planeje, escreva tudo. Descanse quando necessário. Longe do mar! Pra quando voltar, ir em frente. 

Você sabe até onde pode ir. Você sabe até onde um jetski pode ir. Sabe até onde um bote a remo pode ir, sabe também até onde uma lancha ou um veleiro pode chegar. Mas e aí, você sabe até onde pode chegar um navio? Se não, é preciso descobrir. E se não for agora...

Quando?



quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Icarus


Sempre há uma saída. Pelo menos foi isso o que eu aprendi.
E vasculhando diálogos do passado - perturbador vício, este - encontrei um baita ser humano que certa vez disse: 

"Seu espírito é jovem e forte, é determinado e persuasivo, você ainda vai se desenvolver e se tornar um grande vencedor. Por isso aproveite agora: essa cerveja, essa coca cola, essa mesa de bar, essa madrugada, porque isso não vai voltar. E falo com propriedade: o meu tempo já passou, e tais coisas, jamais voltaram. Ficaram lá, junto com o passado. Perdi amigos, até mesmo os inimigos desapareceram com a poeira, a busca incessante iniciou e foram tempos difíceis. Até que deixei de caçar, e resolvi aceitar que a realidade era essa: voar significa deixar aqueles que não têm asas para trás. Não estou sendo dramático, só estou dizendo, se prepare, aproveite agora, cada gota, para que quando perceber tudo o que estou dizendo, possa dar valor, e tenha a sorte de encontrar alguém como te encontrei para passar teus ensinamentos, tuas experiências, teus valores, pois no fim...até eu já terei sumido na poeira da estrada".

Parece que ouço até hoje suas palavras. Se ele está vivo? Sim, é claro que está! Entretanto, como previsto, não mais em meu caminho, pois foi só alçar o primeiro voo pra perceber que tanta, tanta gente ficou lá no chão. Alguns dando tchau, outros atirando pedras, alguns rezando, outros rogando pragas, tudo isso enquanto continuo olhando pra cima. 
Tudo isso porque sei que quanto maior o voo, maior o tombo, então precisarei mesmo é de muita segurança pra poder subir um pouco de cada vez, e principalmente, poder descer quando achar necessário. Se achar.

Em algum momento da estrada, disseram também que o grande segredo eram as conexões e a energia de cada uma delas. É preciso se concentrar em receber e principalmente, transmitir, boas energias. Você vai precisar delas. 
Preciso então confessar que tem sido difícil. Pois estar aberto à energia que está em volta implica receber tudo, processar, transformar, fazer as coisas ficarem melhores. Mas como, se tem tanto pessimismo? Este realismo disfarçado me trucida, tenta me ancorar, criar uma camada escura em minha volta, me cegar, bloquear, até que eu desista. 

Não posso!

É mais que necessário e sadio olhar para a vida com os olhos cheios de bravura, de coragem. Se é isso o que falta por aí, que comece por mim, então. E se os que estão por perto não puderem me acompanhar, aquele meu velho amigo estava certo. Não havia ninguém com ele após a aterrissagem. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Transcende o seu espírito.

O início de ambos os ciclos, o da vida e o do calendário, mostra bem a que veio. 

Não há nada que lembre mais o artista de sua vida do que o passar dos dias. A vida lembra a vida, e como o poeta Oscar Wilde já disse (Obrigado, Google), a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.

E a vida massacra. O passar dos dias me massacra. 

A reflexão vem pesada, perfura a pele, queima a carne, arranha os ossos, e causa dores já conhecidas. Há um tremor e um calafrio, arritmia, contrações, borboletas, pontadas, tremor novamente. Em uma repetição de causar agonia. Tudo isso pra poder pensar, oh Deus?

Não. Não tirei meu tempo, não fiz meu ritual, não faço isso há anos. O que será que houve?

Vejo meu silêncio e seus efeitos, vejo um absoluto pesar, onde as canções de amor não cabem porque não é desta sofreguidão que estamos falando. 

Chego a pensar em me arrepender se soubesse que seria assim. Se soubesse que todo esse turbilhão seria tão comum mas ainda sim, não me acostumaria. Porém quando me lembro do fenômeno do passado, prefiro este. E olha que as comparações não são nada justas.

Ah, querido diário! Se soubesses estas páginas como pioram as dores conforme a tinta vai abaixando.
Passa ainda pela minha cabeça tão atormentada se não há um verme que me infectou, que me contaminou, se hospedou e agora insiste em tentar me destruir. 

Geralmente, essa sensação toda vem depois de um grande momento de boas energias. Como se eu recebesse tanta energia boa que transbordasse e este desperdício fizesse com que tudo se derramasse e então, enfim, começasse o tal efeito. Mas não.

Tem acontecido do nada. 

Não que isso me amedronte, mas que essa constância me leva cada vez mais a crer na verdade sobre o artista e sua obra, e sobre o bom e velho manifesto de Marina Abramovic.

Ai ai, era tudo verdade!

sábado, 2 de janeiro de 2016

Das cachoeiras


Ora, se não sou mais um menino. Se não mais me comporto como um menino, não mais aparento ser um, não mais penso ou menos ainda ajo como tal. 

Por que haveria de querer sentir como um menino?

Se com o tempo, com as agruras, arranhões, palavras duras, pouco a pouco perdi o brilho nos olhos. A coragem de arriscar, a habilidade de rir de si mesmo e a ousadia de dizer a coisa certa, desde que aquela fosse a hora certa. Tudo se esvai a cada cicatriz. E se foi.

Por que então as alegrias de menino poderiam voltar?

Se cada vez se torna mais difícil estar fazendo algo pela primeira vez, sentindo algo que nunca se sentiu. 
O que eu ainda não vi? O que ainda não provei? 
Se a resposta é de que tem, sim, tanta coisa, por que razão a possibilidade de estas existirem não me traz inspiração e empolgação pra ir buscá-las?

Isso deve ser coisa de gente jovem. E continuo sendo aquele velho.

A diferença é que um velho que se abriga em um corpo jovem tem a natural espontaneidade, a virilidade e vontade de arriscar a qualquer preço, cobre a aposta, vence a banca, atira pra cima, sai rindo. Ainda que no auge do seu intelecto, vomita animação. O corpo pede.
Porém se o corpo vai sentindo o peso dos anos, acumulado com toda a carga que ainda não conseguiu jogar em qualquer lugar, o velho que o pilota apenas afirma. Sua intelectualidade se expande, e sua jovialidade se intimida, perde espaço, perde o jogo, sai de fininho.

Estou precisando voltar para as cachoeiras.