sábado, 2 de janeiro de 2016

Das cachoeiras


Ora, se não sou mais um menino. Se não mais me comporto como um menino, não mais aparento ser um, não mais penso ou menos ainda ajo como tal. 

Por que haveria de querer sentir como um menino?

Se com o tempo, com as agruras, arranhões, palavras duras, pouco a pouco perdi o brilho nos olhos. A coragem de arriscar, a habilidade de rir de si mesmo e a ousadia de dizer a coisa certa, desde que aquela fosse a hora certa. Tudo se esvai a cada cicatriz. E se foi.

Por que então as alegrias de menino poderiam voltar?

Se cada vez se torna mais difícil estar fazendo algo pela primeira vez, sentindo algo que nunca se sentiu. 
O que eu ainda não vi? O que ainda não provei? 
Se a resposta é de que tem, sim, tanta coisa, por que razão a possibilidade de estas existirem não me traz inspiração e empolgação pra ir buscá-las?

Isso deve ser coisa de gente jovem. E continuo sendo aquele velho.

A diferença é que um velho que se abriga em um corpo jovem tem a natural espontaneidade, a virilidade e vontade de arriscar a qualquer preço, cobre a aposta, vence a banca, atira pra cima, sai rindo. Ainda que no auge do seu intelecto, vomita animação. O corpo pede.
Porém se o corpo vai sentindo o peso dos anos, acumulado com toda a carga que ainda não conseguiu jogar em qualquer lugar, o velho que o pilota apenas afirma. Sua intelectualidade se expande, e sua jovialidade se intimida, perde espaço, perde o jogo, sai de fininho.

Estou precisando voltar para as cachoeiras.

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