quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Dois mil e nove


Foi preciso engolir em seco e respirar fundo quando ele me disse:
 - Não. Não vou ficar.

De fato, era a única coisa que se podia fazer. E claro, sentar na mesa, abrir a cerveja, afrouxar a gravata. Os olhos no vazio da própria rua, sempre tão cheia de sonhos e possibilidades, refletindo o retrato de um sentimento que não existe.

Aquela mesa de plástico - agora então, branca - e a cadeira me trouxeram de volta aquela esquina, bifurcação, em qualquer lugar do planeta que fosse há quase dez anos. Continuei, como se procurasse o final feliz, como se ouvisse a TV, como se tomando mais um gole pudesse encher os olhos de lágrimas. Pela emoção e pelo gás.

A amizade não existe. Ao menos, não a que procuro. 

Talvez porque mudaram os conceitos e não acompanhei - procuro colocar a culpa nisso - e agora carrego nos ombros a consequência pesada do tempo que passou e levou embora qualquer sinal de companheirismo. A força da correnteza que vem contra, esta: a rotina, e que por falta de coragem e de vontade nossa atropela e leva embora bons momentos.

Nossa, não! Deles.

Porque ainda olhando fixo pra calçada, gole a gole, percebo que ainda estou aqui. Ainda sou o cara que abraça a idéia, que fica, que toma a saideira - seja cansado, sujo, dolorido, sem tempo, com sono, tendo as tantas desculpas possíveis - e que continua a conversa, que topa independente do horário, que atende de madrugada. Que ligaria, se alguém atendesse assim, prontamente.

Isso pra mim é o conceito. Isso é o natural, ou o que deveria ser, do que entendo por companheirismo, amizade, luta. Ser amigo é uma luta conjunta. Uma luta onde a compreensão admite qualquer distância, mas não tolera indiferenças. Onde nada é desculpa: Morte? Estarei lá. Doença? O primeiro a tentar resolver o que estiver ao meu alcance. Dinheiro? Fica tranquilo, abrimos uma "cardineta".

O que não aceito é um não, quando não há vontade. Contentar-se com o coleguismo de semi-encontros é cruel. 

Mas quem disse que a vida é justa, não é mesmo?

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