segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Labirinto


É claro que eu poderia amá-la.
Naquele momento, andava nas nuvens. E olha que fazia o maior esforço pra não perceber, pra me enganar.
Quando ela chegou, tentei não olhar muito. Juro. Segui o espelho enquanto ela desfilava por detrás do meu carro e fingi não perceber.

Destravei as portas, entrou. Travei. As portas e a fala.

Beijo no rosto porque isso é protocolo. Trocamos o elogio mentalmente: que mulher cheirosa! Que homem cheiroso!
Ao longo do trajeto, minha fraqueza tomou conta: indecisão. Como escolher o melhor restaurante se até o banco do carro com você parece bom?
Paramos. Andamos. Charmosa você enquanto anda...impressionante!

Na mesa, ignoramos os protocolos e fomos direto ao que interessa:
 - Não bebi por anos por conta de uma besteira. Hoje quero beber!

Algumas cervejas cheias de paladar e já estávamos daquele jeito: seguros. Bonitos. Confiantes. Uma noite quase sem limites.
Entre amores do passado e uma postura ereta e clara, a troca do olhar e o silêncio por segundos. O silêncio da admiração. Acho eu, assim, tão bonito quando isso acontece.

Até que ja era hora de partir. Vou poupar essa escrita de todo o charme dela enquanto comia uma porção de pequenos pastéis. Guardo a paixão pra mim.

É claro que eu poderia amá-la.

Poderia me apaixonar por ela. Poderia casar e ter filhos. Poderia admirá-la até guardando o carro na garagem - embora saiba que ela não prefere assim.
Já na porta de casa, o grande momento. A liberdade de não precisar fazer o que não se quer deixa tudo muito mais interessante. E isso só se constrói com muita, muita estrada.

Quando a toquei no pescoço, correndo meus dedos entre seus cabelos, senti o arrepio enquanto seus olhos se fechavam e sua alma a denunciou...
 - Você é tão, tão carinhoso!

Prosseguimos, mas é claro. Um beijo, daqueles que podia e fiz questão de parar, alguns segundos, frente a seu rosto, com minha boca a poucos centimetros da sua, respirando o mesmo ar.
É possível saber, só aí, se tudo dará certo ou se não.

Continuei.

O toque delicado das bocas e o entrelaçar de mãos, de cabelos, de rostos e de calor. Enquanto nos movimentávamos tal qual dois passarinhos voando romanticamente, destilávamos breves mordiscadas: no queixo, na barba, no pescoço assim quase na orelha, na nuca.

Tornou-se perigosa a situação.

A partir daí não me lembro mais. Não me lembro da despedida, não me lembro do detalhe, não me lembro.
O que será que a fez desaparecer? Não completamente, é claro, vivemos na era da super tecnologia do rastreamento...e só quem vive aqui entende a complexidade de quem não desapareceu. Está ali, entretanto, intocável.

É por isso que o labirinto nunca acaba e talvez nunca acabará.

É por isso.

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