quarta-feira, 30 de março de 2016

I.M.

A vida passou. Rápido demais, por sinal.

E agora, que tudo está distante e friamente inalcançável, posso dizer que a missão foi cumprida. 
Enquanto o mar insiste em bater violentamente nas pedras, quase como que invadindo sua alma, apenas sinto o vento aqui de cima deste penhasco - bem que me disseram que a Austrália era o lugar mais estranho do mundo. 

Sinto o vento. 

E com ele, o calor que vem do Brasil, o cheiro de sonho arrastado da América [sic], a poeira da areia das construções italianas e claro, com elas, o cheiro do molho. Chega tudo ao mesmo tempo.

Existem pessoas que nasceram prontas para aproveitar o que a vida tem de melhor. Para todas as outras, sorte. E nesta questão, sinto que fiz a minha parte: Minha luta nunca foi para poder aproveitar o melhor da vida - e olha que sem aproveitar, consegui lá, ter meus prazeres - mas sim para poder construir o começo de uma história. 

Cruelmente, esqueço os registros daqui pra trás.

Criei, eduquei, inspirei e orientei o que pude. Se tudo der certo, minha cria irá aproveitar cada nuance disso que chamamos de vida, de história, de estrada....mas, para o caso de ela não aproveitar, só o que me resta é desejar profundo e sincero que ela saiba mostrar os caminhos - das pedras e dos ventos - para a próxima geração. Meu pequeno tesouro.

Quando olho para os rastros que deixei, é impossível pensar nos sonhos. Misteriosamente não realizados. Nos planos calculadamente não executados. Nas possibilidades naturalmente esvaecidas. Nas realizações obrigatoriamente não cumpridas e claro, nos projetos cuidadosamente engavetados.
A vida passou. Rápida, porém, deliciosa.

E de todas as lições que trouxe consigo, só consigo mesmo é lembrar daquelas que me tornaram o ser mais cruel, frio e passivo que poderia existir. A passividade protege a besta.

Na hora certa, percebi que não era bem aquilo. Parece, mas de fato, não é nada disso.

Aquela hora que parecia que ia dar certo, mas não deu. Aquele contato que foi feito, mas não deu continuidade. A entrevista de emprego que não retornou. A menina que parecia que queria, mas não. [Essa, definitivamente, acabou com a sua vida]. A promessa que foi feita e claro, não só não foi cumprida, como foi esquecida, enterrada. 

A vida, já diz a sabedoria popular, é exatamente isso: Aquele que você achou que ia ser silencioso, mas te sujou a calça toda em público.

E agora, na reta final, consigo perceber a delicadeza dos detalhes e das decisões perigosas que sempre tive que tomar. Mentir sempre deu um trabalhão danado. E a propósito, antes dos julgamentos - que fodam-se, afinal, o máximo que podem fazer é adiantar alguns meses ou anos - nem sempre se trata de caráter ou idoneidade. 

Não se pode limitar todo um viver apenas por padrões.

Insisto na necessidade de se deixar acontecer, conduzir de olhos fechados, atirar no escuro. Porque sim, todos os jogos e manipulações são permitidos, você é que acreditou quando te disseram que não é pra usar.

E usou tantas vezes sem saber...quanta bondade.

Bondade tanta, que me faz me despedir assim: em meio aos heróis. Que de tanto que fizeram, foram inescrupulosamente traídos por seus melhores amigos.

Confesso, de coração, que não me orgulho. Só reforço que nunca jurei essa lealdade, por isso não me cobre, e me deixe ver a luz em paz. 

Até a mosca do excremento do cavalo do bandido merece. Por que não eu?

terça-feira, 22 de março de 2016

O amor mora na Lapa


Certo dia, em meio ao corre corre incessante de qualquer rotina, resolvi ligar...
 - Alô.
 - Alô. É...oi.
 - Oi!
 - Camila?
 - Tudo bem, Gustavo?
(Segundos cruéis me dividiram, então, entre a possibilidade de ainda fazer parte de sua agenda, ou por pior que pareça, de sua memória auditiva)
 - Tô bem. Atrapalho?
 - Sempre...pffff (e riu, charmosa como eu sei que ri)
 - Estou na Lapa, passei na frente da padaria...a nossa padaria...e pensei que (...)
 - Já entendi, bonito. Levo meia horinha pra chegar, como está sua paciência?
 - Eu trouxe! hehehe (rimos, estranhamente juntos)
 - Até já já, então!
 - Até.

Meia horinha. Era o tempo que eu tinha pra fazer tudo o que pudesse fazer e não perde-la de novo. "É pouco", pensei. Mas sempre é.
Corri então pra Lapa - afinal, claro que menti sobre estar lá, artimanhas de loteria, essas - e passei na floricultura da rua do Shopping, ainda em tempo. Minha mágica deve funcionar.

Entrei na padaria e fui ao banheiro. Me abaixei, lavei o rosto, respirei fundo. Dei aquela olhada geral e estava impecável: o blazer bonito, a camisa, o chapéu. Olhei para o botão de rosa e tornei a checar a barba bem aparada. O "por fazer" mais falso do cinema americano. Respirei fundo novamente, e a expressão não ajudava. Eu estava com medo.

Sentei de costas para a porta. Não me perdoaria se a visse entrando e acompanhasse todos os seus movimentos até mim...sempre gostei tanto de vê-la vindo, e indo também...bem, hoje não. E por alguns minutos ensaiei a cena de novela, a surpresa quando ela aparecesse, o sorriso, o abraço. Minha mente voava!

Até que ela entrou. A alma da gente sente o magnetismo de longe (ah, como gosto deste assunto!) e foi inevitável arrepiar. Cada poro por debaixo do tecido avisando que era hora de relaxar...senti sua mão de leve tocar meu ombro, ainda andando, e abri os olhos...
 - Ufa! Cheguei...
 - Você veio mesmo...
 - E não disse que viria?
Me levantei, em meio à recepção, e nos abraçamos...em um abraço meio estranho e desajeitado, daqueles que servem só pra trocarmos os perfumes e confirmarmos a quê viemos. Passei a mão por detrás de sua orelha direita e voilá!
 - Ah não, Gustavo, hahahah, seu bonito!
 - Olha só o que achei aqui...(e quebramos o gelo mais rápido do que pensei, o truque do botão de rosa faz milagres desde 98)
 - Senta...te esperei pra pedirmos juntos...

Aqueles foram os minutos mais longos de minha vida. Ela ali, a Camila, a minha Camila, sentada em minha frente com aquela expressão que quase levantava só uma sobrancelha, enquanto ameaçava um biquinho pra fazer charme e passava o botão de rosa pra lá, e pra cá...pra lá, e pra cá...e eu ali, com os dois cotovelos na mesa e as mãos cruzadas frente ao queixo, olhando no fundo dos seus olhos e dizendo tudo o que não poderia dizer com palavras...

 - Fiquei surpresa, sabe? Do nada, assim, tantos anos depois...
 - Confesso que estou surpreso até agora
 - Nem precisa, dá pra ver...pode relaxar, eu não mordo, não preciso te dar detalhes...preciso?
E riu novamente. Ri também, só que de nervoso...Como ela estava linda! Ah, que vontade de levá-la de volta pra minha vida. Pra nossa vida, aquela que ficou lá atrás, estacionada em algum lugar lindo do passado.
 - Os anos te fazem bem, está cada dia mais bonito. Deve estar pro em colecionar amores, visto que antes era apenas um aventureiro em início de carreira
 - Pois os anos não têm te feito bem, já falo de cara pela miopia
 - hahahahahah! (gargalhou, bonita que só)
 - Agora, sobre os amores, não vou fazer piadinha...se estou aqui com você, talvez signifique algo, não?

Sua expressão mudou...passou daquele charme para certa seriedade, que trazia também um pouco de tristeza nos olhos. Um lapso, assim, como se eu tivesse apertado um botão. E acho, sinceramente, que o fiz...

 - Olha, Gustavo - e não mais Gu, como em outros episódios desta estória - não vim até a Lapa pra brigarmos, então vamos com calma, ta? Não precisa desta coisa de significado, de amor, de nada disso. Você não precisa me convencer de nada porque sobre nós, ainda bem!, sabemos tudo.
 - Você sente falta? - Interrompi, aflito, já suando.
 - Também não queria encher sua bola, porque sei que você gosta mesmo é disso, mas ah... - respirou fundo - não há um dia sequer que eu acordo e não penso no cheiro do café, nos estalos dos discos, cada dia de um estilo, e em tantas outras coisas. Acontece que este não é o ponto. O ponto é que depois de você, outras pessoas surgiram, e me trouxeram um imenso vazio que me fez me desesperar ainda mais de vontade de voltar correndo pra sua vida. Pra nossa vida. E em meio a todo esse desespero e a muito, muito café, resolvi tentar sozinha.
 - Então você não tem alguém?
 - Eu tenho, Gustavo.
 - Hmmm...não precisa me chamar de Gustavo, bonita
 - Gustavo...ta? E continuando, eu tenho você. Aqui na minha vida pra que eu possa resgatar - ainda que todo dia, azar este o meu - enfim, tudo o que penso ser o significado do amor. E pra que eu possa reforçar que nada foi tão lindo antes, muito menos depois. E essa é a parte que me faz ter força pra vir até aqui, porque você precisa saber que é possível sim seguir sozinho e ficar em paz. Cuidar de si, da família talvez, das próprias coisas, do próprio tempo, das finanças, encher a cabeça, você entende? Cuidar do próprio jardim, já que você gosta tanto de poesia.
 - ...Coisas misteriosas sempre foram a especialidade entre nós!
 - O que quer dizer com isso?

(continua)

quarta-feira, 16 de março de 2016

Apenas



Olho atentamente, respiro profundamente, e em silêncio percebo e degusto o óbvio: Não fui eu que acabei na gaveta, mas sim, a culpa é minha por ter engavetado todos estes sentimentos. 

De maneira simples e rápida, fria, objetiva, sagaz. Olhei para as últimas páginas destes folhetins, fechei os olhos...e as capas. Guardei-os todos em gavetas do mesmo arquivo, nada organizados, catalogados ou indexados - veja, você, que palavra difícil. Apenas com algum carinho fui moldando para que todos coubessem ali, um ao lado do outro, sem ordem de importância (ou enlouqueceria) e sem muita cerimônia. 

Por se tratar de um ser que não costuma fechar portas, chequei apenas no fim da última frase de cada última página se havia ali um ponto. Pontos são importantes. Porque tudo pode começar logo em seguida, ou daqui um ano, ou daqui uma vida.

Alguns destes, definitivamente, não poderão ficar ali esquecidos.

Enquanto bebo mais um gole do café, observo as novas leituras...também as páginas em branco. Há tanto a se escrever (talvez nem tanto que se ler, mas vá lá - Diria Quintana) e menos disposição do que preciso.

Um poeta contemporâneo disse bem: Preguiça do que não é incrível.

Vale sentir o desejo quando vem com ansiedade, com certo nervosismo e excitação, borboletas no estômago, cachoeiras nas mãos e desertos na boca. Vale, sim, mesmo depois de toda a efemeridade que há de se empoeirar nas velhas prateleiras de metal.

Vale ansiar pelo grande título, pela leitura na qual cada frase parece um remédio pra alma, e cada nova página se desconhece até que se chegue lá. O imprevisível é o grande mentor da espontaneidade...e é esse que quero!

Arrisco que meu pé nos clássicos não me deixa sair desta populosa e diversificada biblioteca, e me seduz a idéia de que isso pode ser tranquilamente encontrado em uma segunda leitura. Existem livros que devemos ler a vida inteira, sabe como é, a cada nova idade ele vem diferente. Arrisco e temo, mas a arte não ama os covardes, então prossigo.

Preciso perder o fôlego!

No encontro, no brinde, no beijo, no toque, nos olhos, nos pelos, na pele, nos seios, virilhas, cabelos, no sol, no café, no bom dia, no cheiro, no estalo e no abraço. Quase masoquista essa obsessão pela taquicardia.

Mas é que cada vez que o coração acelera a tal ponto, em um determinado momento, ele para. E nestes segundos de Schrödinger é que a gente sai do corpo, olha tudo em volta, e conclui...

É AGORA!

Enquanto isso, rezo todos os dias pra não ter que ler nada rapidamente. Meu coração não tem visto graça em poucas palavras...


sábado, 12 de março de 2016

Quantas vezes


Ao chegar em casa, ouviu um estardalhaço. Fechou os olhos com toda força enquanto as mãos tapavam os ouvidos, o corpo quase que em posição fetal, se contorceu e tentou manter o equilíbrio, até que enfim, caiu.

No meio da sala.

No meio da história. Da sua história.

Rastejou então até o antigo aparador que ficava de canto na sala de jantar, onde não havia sequer um móvel além do mesmo, e que por sinal, servia apenas para dar apoio à vitrola. Enquanto deslizava lentamente pelo chão liso e frio, pensou no arrependimento de não manter o aparelho no chão para momentos como este.
Eis que encontrou o disco, e o colocou na bandeja. Posicionou a agulha, fez a mágica acontecer - tudo isso ainda deitado - e pôde ouvir com a intensidade de uma bomba nuclear, entre chiados e estalos, Golden Slumbers.

Golden Slumbers.

"Once there was a way..."

Se permitiu então, finalmente, chorar. Abraçando o encarte antes mesmo de Carry that Weight, soltou um grito do fundo de sua alma.

 - AAAAAARRRRRRRGGHHHHH!

E a casa toda ecoou. Alto. Forte. Agora rasgando tal qual um punhal artesanalmente serrilhado, invadindo sua própria alma e buscando o estômago a qualquer preço.

Seu corpo já revirava, se contorcia, e enquanto as mãos agarravam no tapete e sua turva visão já confundia todos os sentidos, gemia desesperadamente, quase que como alguém pudesse ouvi-lo - quem dirá, salvá-lo - e cantava entre soluços, cada toque de tambor anunciando The end.

Aos poucos, enquanto retomava o controle, sentou-se na varanda. O corpo previa as dores que chegariam amanhã quando acordasse, e ainda sim, acendeu um cigarro - este que seria o mais longo de toda a sua vida.
Em vez de estrelas, um céu cheio de nuvens alaranjadas pelas luzes da cidade e um ar frio com tempero de garoa. Uma divina contemplação.

Assim, no intervalo entre o eco da gota que pingava lá dos fundos, e a fumaça que vinha de seus já cansados pulmões, pensava que esta talvez pudesse ser a última.

Ledo engano.

Tantas, tantas e tantas...

segunda-feira, 7 de março de 2016

Leve Desespero



A cena se repete, misteriosa e premeditadamente. 

Ando pela calçada em plena segunda-feira após o horário típico do expediente normal, naturalmente não o meu. A chuva, que começa forte e pesada, vem direto em meu rosto aliviando meus ombros e alterando meus sentidos, acelerando meu raciocínio, isolando minhas análises. Com ela, um medo indescritível que perfura minha pele e corrói meus ossos, me enfraquece, afina meu sangue e aperta meu coração. Sim, um medo de tudo: dos relâmpagos e trovões, dos bandidos nas esquinas, dos cães bravos pelas ruas e principalmente de cada rosto que aparece, tendo ou não contato visual. Meu corpo estremece quando arrepia em um misto de frio com aquele aviso de estado de alerta que vem direto da espinha. A ansiedade dá golpes fortes no estômago a cada passo, parar na esquina para esperar os carros não é nunca uma boa idéia visto que o destino ainda parece distante, então a luta contra a dor promete continuar.

Respiro.

Há uma força que me induz a mudar a rota assim, sem prévio planejamento, apenas ir. Há tantas esquinas e ruas e vielas, infinitas possibilidades, e invariavelmente é preciso cumprir o objetivo, a agenda, aquilo que tantas barreiras superadas, guerras vencidas e bandeiras conquistadas, trouxeram ao longo desses meses, dessas semanas, desses dias de sol. A consciência de que há uma data limite faz com que o tempo só passe mais rápido, novamente repetindo a cena anterior, quando vi o final e pensei WOW! E não é que dava mesmo pra chegar?

Reflito.

E peço desculpas ao leitor. Nem sempre era pra conseguir entender.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Voice

Depois daquela noite, Janaína esperou. Pela mensagem, pelo carinho, pela reciprocidade. 
Não houve coisa que a menina dos olhos azuis mais fez na vida, que esperar. Talvez, torcer. 
Talvez...



Era um sábado de um outubro qualquer. Após alguns olhares em diferentes ocasiões, houve o sinal: por que não?

Poucos sinais são tão perigosos na vida.

Combinaram de se encontrar naquele bar na esquina de todas as avenidas. E lá, se sentaram, na mesa mais do canto, quase que na placa. Detalhes.

Ele, estudante, pesquisador, na luta do dia a dia: contra o subsídio, contra as contravenções, contra o excel. Ela, artista, pintora, de social e bom perfume após uma noite de trabalho. Expor cansa tanto quanto se expor. 

E lá estavam. Quem olhava de fora quase que podia sentir a luz que vinha e que insistia em rodear a aura daqueles dois jovens, bonitos, quase que puros, se entregando com os olhos e com as palavras tão misteriosamente sinceras. 

 - Mas que esgotada você parece estar...um brinde a essa noite que apenas começa!
 - Você pode não acreditar, mas as vezes pintar pode ser nada inspirador...
 - Eu acredito...

Ele sabia. De tudo o que ela achava que tinha de novo para mostrar e pra convidá-lo a ver e viver. Sim, o jovem pesquisador de alma e de jeito cheios de amor, curiosamente, tinha um passado peculiar: uma outra pintora já havia passado por sua vida e de forma tão intensa e nova que não dava pra dizer que acabou. Essas coisas não acabam assim.

Porém, acabaram com Janaína. Era um desses raios que jamais cairiam duas vezes no mesmo lugar. Só mesmo nessa história.

Dali pra frente, a nossa Jana abstraiu. A noite foi se tornando mais interessante e gostosa, mais leve e entorpecente, drink após drink, riso após riso.

Quando então, sentiram que deviam, caminharam em direção a casa dele que era ali pertinho, até que ela pudesse entrar em seu carro ainda cheio de telas e tintas e pincéis. 

E ali, na frente do prédio, o tão esperado beijo aconteceu: lento, bonito, carinhoso e calmo como um primeiro beijo do melhor cinema. Entre risos e toques no rosto, ele sentia seu perfume e ela acariciava sua barba...se mordiam, entre lábios, dançavam os rostos e os olhos. E aquele arrepio bom que parece que a alma sai do corpo e volta rapidamente.

Até que ela se foi. E dirigiu por horas antes de ir pra casa, tentando entender direito o que aconteceu. Tentando superar o medo e a insegurança daquele passado já carimbado e com impressão de presente, de um jeito que quase dava pra sentir o cheiro da tinta entre os cabelos do lindo rapaz. Como pode? "Como pude"? Se culpava por não ter chegado antes - sim, absurdos na cabeça desvairada de uma artista sempre incompreendida - e por não ter tido balas pra impressionar o suficiente...



Desde então, não houve contato que não desse a impressão de "mantenha distância". Logo Janaina, menina sem medo, que faz o que quer, que vai e que fala. Mulher de atitude, diziam. Teria que esperar que as coisas se acalmassem, que a vida desse um jeito e que por um raio no mesmo lugar, ela tivesse uma chance. E por que não dizer, eles?

Torça, Janaína. Espere e torça.

Estante


Sensação boa é ser bem vindo na madrugada. Assim, desde os dezesseis, quando estava apenas aprendendo.

Hoje, décadas depois, certas coisas simplesmente mudaram. Em vez do uísque, um bom café. Na vitrola, de Roberto a Odair - fazendo o ovo vir antes da galinha, mas vá lá! - e a noite insiste em ser o que é. Cães uivando e loucura nos becos. Sem nove horas.

Andei fechando os olhos e tendo visões. Todo o meu passado suplicando, pedindo ajuda, como em coro: "Feche o último livro de uma vez!". Passagens quase que atemporais clamam por pena, insistem em querer ficar, e surpreendentemente têm bons argumentos. 

Que confusão.

E nesta, como se estivesse fazendo a lista de convidados do casamento, mentalmente risco nomes e episódios. Elejo heróis e vilões, crio categorias e misteriosamente o pódio continua lá empoeirado, esperando ser ocupado com honra e mérito. Haja mérito.

Entre referenciais perdidos, acabo por esquecer naturalmente tanta coisa que tinha orgulho de lembrar. Histórias inteiras jogadas no lixo, melhores momentos que viraram pó e agora são lembranças distantes, títulos auto-concedidos agora são meros certificados engavetados. Na escrivaninha e no coração.

Conforme as horas vão passando assumo com orgulho o fato de que não há horário cheio que eu não tenha olhado no relógio alguma vez na vida. Qual foi a última vez em sua vida que você olhou no relógio e lá batiam três e quarenta? E seis e dezoito? Meia noite e cinco? 
Definitivamente, escolhi ser vivo. E hoje pago por isso, com minha pele e meus ossos. Mas isso é outro assunto.

Agora, vejo que falta pouco para que tudo fique pra trás. Não que não esteja lá, mas sim, por todo o tempo que insisti em manter tudo assim, ao alcance das mãos. Não! Não pode ser assim. 

Fecho mais uma vez os olhos e penso em como são bonitos os reencontros na vida. As vezes dolorosos, as vezes suaves, cada qual com sua devida exclusividade. A besteira mesmo foi tentar manter tudo assim, por perto, na eminência de a qualquer momento acontecer, romântica e misteriosamente, uma linda cena de novela.

O resultado foi que elas constantemente aconteceram e, quase que em um looping infinito, perderam a magia e o impacto. Vieram e passaram quase em um piscar de olhos. Agora desaparecendo porque não vieram pra ficar.

Rezo para o que está vindo pra ser, de fato, único. Torço para que o pódio seja ocupado e unicamente desenhado no pensamento, no sentimento, de modo a surgirem logo no primeiro lembrar. Ah, como eu quero!

A parte boa, pois claro há, é poder escolher mentalmente o que se quer que perdure. Existem histórias que não podem ter vindo apenas por tão pouco tempo...e assim, aos poucos, vou fechando os livros e os organizando nas prateleiras. 

São muitos, mas esse também, é outro assunto.