quarta-feira, 16 de março de 2016

Apenas



Olho atentamente, respiro profundamente, e em silêncio percebo e degusto o óbvio: Não fui eu que acabei na gaveta, mas sim, a culpa é minha por ter engavetado todos estes sentimentos. 

De maneira simples e rápida, fria, objetiva, sagaz. Olhei para as últimas páginas destes folhetins, fechei os olhos...e as capas. Guardei-os todos em gavetas do mesmo arquivo, nada organizados, catalogados ou indexados - veja, você, que palavra difícil. Apenas com algum carinho fui moldando para que todos coubessem ali, um ao lado do outro, sem ordem de importância (ou enlouqueceria) e sem muita cerimônia. 

Por se tratar de um ser que não costuma fechar portas, chequei apenas no fim da última frase de cada última página se havia ali um ponto. Pontos são importantes. Porque tudo pode começar logo em seguida, ou daqui um ano, ou daqui uma vida.

Alguns destes, definitivamente, não poderão ficar ali esquecidos.

Enquanto bebo mais um gole do café, observo as novas leituras...também as páginas em branco. Há tanto a se escrever (talvez nem tanto que se ler, mas vá lá - Diria Quintana) e menos disposição do que preciso.

Um poeta contemporâneo disse bem: Preguiça do que não é incrível.

Vale sentir o desejo quando vem com ansiedade, com certo nervosismo e excitação, borboletas no estômago, cachoeiras nas mãos e desertos na boca. Vale, sim, mesmo depois de toda a efemeridade que há de se empoeirar nas velhas prateleiras de metal.

Vale ansiar pelo grande título, pela leitura na qual cada frase parece um remédio pra alma, e cada nova página se desconhece até que se chegue lá. O imprevisível é o grande mentor da espontaneidade...e é esse que quero!

Arrisco que meu pé nos clássicos não me deixa sair desta populosa e diversificada biblioteca, e me seduz a idéia de que isso pode ser tranquilamente encontrado em uma segunda leitura. Existem livros que devemos ler a vida inteira, sabe como é, a cada nova idade ele vem diferente. Arrisco e temo, mas a arte não ama os covardes, então prossigo.

Preciso perder o fôlego!

No encontro, no brinde, no beijo, no toque, nos olhos, nos pelos, na pele, nos seios, virilhas, cabelos, no sol, no café, no bom dia, no cheiro, no estalo e no abraço. Quase masoquista essa obsessão pela taquicardia.

Mas é que cada vez que o coração acelera a tal ponto, em um determinado momento, ele para. E nestes segundos de Schrödinger é que a gente sai do corpo, olha tudo em volta, e conclui...

É AGORA!

Enquanto isso, rezo todos os dias pra não ter que ler nada rapidamente. Meu coração não tem visto graça em poucas palavras...


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