sexta-feira, 4 de março de 2016

Estante


Sensação boa é ser bem vindo na madrugada. Assim, desde os dezesseis, quando estava apenas aprendendo.

Hoje, décadas depois, certas coisas simplesmente mudaram. Em vez do uísque, um bom café. Na vitrola, de Roberto a Odair - fazendo o ovo vir antes da galinha, mas vá lá! - e a noite insiste em ser o que é. Cães uivando e loucura nos becos. Sem nove horas.

Andei fechando os olhos e tendo visões. Todo o meu passado suplicando, pedindo ajuda, como em coro: "Feche o último livro de uma vez!". Passagens quase que atemporais clamam por pena, insistem em querer ficar, e surpreendentemente têm bons argumentos. 

Que confusão.

E nesta, como se estivesse fazendo a lista de convidados do casamento, mentalmente risco nomes e episódios. Elejo heróis e vilões, crio categorias e misteriosamente o pódio continua lá empoeirado, esperando ser ocupado com honra e mérito. Haja mérito.

Entre referenciais perdidos, acabo por esquecer naturalmente tanta coisa que tinha orgulho de lembrar. Histórias inteiras jogadas no lixo, melhores momentos que viraram pó e agora são lembranças distantes, títulos auto-concedidos agora são meros certificados engavetados. Na escrivaninha e no coração.

Conforme as horas vão passando assumo com orgulho o fato de que não há horário cheio que eu não tenha olhado no relógio alguma vez na vida. Qual foi a última vez em sua vida que você olhou no relógio e lá batiam três e quarenta? E seis e dezoito? Meia noite e cinco? 
Definitivamente, escolhi ser vivo. E hoje pago por isso, com minha pele e meus ossos. Mas isso é outro assunto.

Agora, vejo que falta pouco para que tudo fique pra trás. Não que não esteja lá, mas sim, por todo o tempo que insisti em manter tudo assim, ao alcance das mãos. Não! Não pode ser assim. 

Fecho mais uma vez os olhos e penso em como são bonitos os reencontros na vida. As vezes dolorosos, as vezes suaves, cada qual com sua devida exclusividade. A besteira mesmo foi tentar manter tudo assim, por perto, na eminência de a qualquer momento acontecer, romântica e misteriosamente, uma linda cena de novela.

O resultado foi que elas constantemente aconteceram e, quase que em um looping infinito, perderam a magia e o impacto. Vieram e passaram quase em um piscar de olhos. Agora desaparecendo porque não vieram pra ficar.

Rezo para o que está vindo pra ser, de fato, único. Torço para que o pódio seja ocupado e unicamente desenhado no pensamento, no sentimento, de modo a surgirem logo no primeiro lembrar. Ah, como eu quero!

A parte boa, pois claro há, é poder escolher mentalmente o que se quer que perdure. Existem histórias que não podem ter vindo apenas por tão pouco tempo...e assim, aos poucos, vou fechando os livros e os organizando nas prateleiras. 

São muitos, mas esse também, é outro assunto.


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