terça-feira, 22 de março de 2016

O amor mora na Lapa


Certo dia, em meio ao corre corre incessante de qualquer rotina, resolvi ligar...
 - Alô.
 - Alô. É...oi.
 - Oi!
 - Camila?
 - Tudo bem, Gustavo?
(Segundos cruéis me dividiram, então, entre a possibilidade de ainda fazer parte de sua agenda, ou por pior que pareça, de sua memória auditiva)
 - Tô bem. Atrapalho?
 - Sempre...pffff (e riu, charmosa como eu sei que ri)
 - Estou na Lapa, passei na frente da padaria...a nossa padaria...e pensei que (...)
 - Já entendi, bonito. Levo meia horinha pra chegar, como está sua paciência?
 - Eu trouxe! hehehe (rimos, estranhamente juntos)
 - Até já já, então!
 - Até.

Meia horinha. Era o tempo que eu tinha pra fazer tudo o que pudesse fazer e não perde-la de novo. "É pouco", pensei. Mas sempre é.
Corri então pra Lapa - afinal, claro que menti sobre estar lá, artimanhas de loteria, essas - e passei na floricultura da rua do Shopping, ainda em tempo. Minha mágica deve funcionar.

Entrei na padaria e fui ao banheiro. Me abaixei, lavei o rosto, respirei fundo. Dei aquela olhada geral e estava impecável: o blazer bonito, a camisa, o chapéu. Olhei para o botão de rosa e tornei a checar a barba bem aparada. O "por fazer" mais falso do cinema americano. Respirei fundo novamente, e a expressão não ajudava. Eu estava com medo.

Sentei de costas para a porta. Não me perdoaria se a visse entrando e acompanhasse todos os seus movimentos até mim...sempre gostei tanto de vê-la vindo, e indo também...bem, hoje não. E por alguns minutos ensaiei a cena de novela, a surpresa quando ela aparecesse, o sorriso, o abraço. Minha mente voava!

Até que ela entrou. A alma da gente sente o magnetismo de longe (ah, como gosto deste assunto!) e foi inevitável arrepiar. Cada poro por debaixo do tecido avisando que era hora de relaxar...senti sua mão de leve tocar meu ombro, ainda andando, e abri os olhos...
 - Ufa! Cheguei...
 - Você veio mesmo...
 - E não disse que viria?
Me levantei, em meio à recepção, e nos abraçamos...em um abraço meio estranho e desajeitado, daqueles que servem só pra trocarmos os perfumes e confirmarmos a quê viemos. Passei a mão por detrás de sua orelha direita e voilá!
 - Ah não, Gustavo, hahahah, seu bonito!
 - Olha só o que achei aqui...(e quebramos o gelo mais rápido do que pensei, o truque do botão de rosa faz milagres desde 98)
 - Senta...te esperei pra pedirmos juntos...

Aqueles foram os minutos mais longos de minha vida. Ela ali, a Camila, a minha Camila, sentada em minha frente com aquela expressão que quase levantava só uma sobrancelha, enquanto ameaçava um biquinho pra fazer charme e passava o botão de rosa pra lá, e pra cá...pra lá, e pra cá...e eu ali, com os dois cotovelos na mesa e as mãos cruzadas frente ao queixo, olhando no fundo dos seus olhos e dizendo tudo o que não poderia dizer com palavras...

 - Fiquei surpresa, sabe? Do nada, assim, tantos anos depois...
 - Confesso que estou surpreso até agora
 - Nem precisa, dá pra ver...pode relaxar, eu não mordo, não preciso te dar detalhes...preciso?
E riu novamente. Ri também, só que de nervoso...Como ela estava linda! Ah, que vontade de levá-la de volta pra minha vida. Pra nossa vida, aquela que ficou lá atrás, estacionada em algum lugar lindo do passado.
 - Os anos te fazem bem, está cada dia mais bonito. Deve estar pro em colecionar amores, visto que antes era apenas um aventureiro em início de carreira
 - Pois os anos não têm te feito bem, já falo de cara pela miopia
 - hahahahahah! (gargalhou, bonita que só)
 - Agora, sobre os amores, não vou fazer piadinha...se estou aqui com você, talvez signifique algo, não?

Sua expressão mudou...passou daquele charme para certa seriedade, que trazia também um pouco de tristeza nos olhos. Um lapso, assim, como se eu tivesse apertado um botão. E acho, sinceramente, que o fiz...

 - Olha, Gustavo - e não mais Gu, como em outros episódios desta estória - não vim até a Lapa pra brigarmos, então vamos com calma, ta? Não precisa desta coisa de significado, de amor, de nada disso. Você não precisa me convencer de nada porque sobre nós, ainda bem!, sabemos tudo.
 - Você sente falta? - Interrompi, aflito, já suando.
 - Também não queria encher sua bola, porque sei que você gosta mesmo é disso, mas ah... - respirou fundo - não há um dia sequer que eu acordo e não penso no cheiro do café, nos estalos dos discos, cada dia de um estilo, e em tantas outras coisas. Acontece que este não é o ponto. O ponto é que depois de você, outras pessoas surgiram, e me trouxeram um imenso vazio que me fez me desesperar ainda mais de vontade de voltar correndo pra sua vida. Pra nossa vida. E em meio a todo esse desespero e a muito, muito café, resolvi tentar sozinha.
 - Então você não tem alguém?
 - Eu tenho, Gustavo.
 - Hmmm...não precisa me chamar de Gustavo, bonita
 - Gustavo...ta? E continuando, eu tenho você. Aqui na minha vida pra que eu possa resgatar - ainda que todo dia, azar este o meu - enfim, tudo o que penso ser o significado do amor. E pra que eu possa reforçar que nada foi tão lindo antes, muito menos depois. E essa é a parte que me faz ter força pra vir até aqui, porque você precisa saber que é possível sim seguir sozinho e ficar em paz. Cuidar de si, da família talvez, das próprias coisas, do próprio tempo, das finanças, encher a cabeça, você entende? Cuidar do próprio jardim, já que você gosta tanto de poesia.
 - ...Coisas misteriosas sempre foram a especialidade entre nós!
 - O que quer dizer com isso?

(continua)

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