sexta-feira, 4 de março de 2016

Voice

Depois daquela noite, Janaína esperou. Pela mensagem, pelo carinho, pela reciprocidade. 
Não houve coisa que a menina dos olhos azuis mais fez na vida, que esperar. Talvez, torcer. 
Talvez...



Era um sábado de um outubro qualquer. Após alguns olhares em diferentes ocasiões, houve o sinal: por que não?

Poucos sinais são tão perigosos na vida.

Combinaram de se encontrar naquele bar na esquina de todas as avenidas. E lá, se sentaram, na mesa mais do canto, quase que na placa. Detalhes.

Ele, estudante, pesquisador, na luta do dia a dia: contra o subsídio, contra as contravenções, contra o excel. Ela, artista, pintora, de social e bom perfume após uma noite de trabalho. Expor cansa tanto quanto se expor. 

E lá estavam. Quem olhava de fora quase que podia sentir a luz que vinha e que insistia em rodear a aura daqueles dois jovens, bonitos, quase que puros, se entregando com os olhos e com as palavras tão misteriosamente sinceras. 

 - Mas que esgotada você parece estar...um brinde a essa noite que apenas começa!
 - Você pode não acreditar, mas as vezes pintar pode ser nada inspirador...
 - Eu acredito...

Ele sabia. De tudo o que ela achava que tinha de novo para mostrar e pra convidá-lo a ver e viver. Sim, o jovem pesquisador de alma e de jeito cheios de amor, curiosamente, tinha um passado peculiar: uma outra pintora já havia passado por sua vida e de forma tão intensa e nova que não dava pra dizer que acabou. Essas coisas não acabam assim.

Porém, acabaram com Janaína. Era um desses raios que jamais cairiam duas vezes no mesmo lugar. Só mesmo nessa história.

Dali pra frente, a nossa Jana abstraiu. A noite foi se tornando mais interessante e gostosa, mais leve e entorpecente, drink após drink, riso após riso.

Quando então, sentiram que deviam, caminharam em direção a casa dele que era ali pertinho, até que ela pudesse entrar em seu carro ainda cheio de telas e tintas e pincéis. 

E ali, na frente do prédio, o tão esperado beijo aconteceu: lento, bonito, carinhoso e calmo como um primeiro beijo do melhor cinema. Entre risos e toques no rosto, ele sentia seu perfume e ela acariciava sua barba...se mordiam, entre lábios, dançavam os rostos e os olhos. E aquele arrepio bom que parece que a alma sai do corpo e volta rapidamente.

Até que ela se foi. E dirigiu por horas antes de ir pra casa, tentando entender direito o que aconteceu. Tentando superar o medo e a insegurança daquele passado já carimbado e com impressão de presente, de um jeito que quase dava pra sentir o cheiro da tinta entre os cabelos do lindo rapaz. Como pode? "Como pude"? Se culpava por não ter chegado antes - sim, absurdos na cabeça desvairada de uma artista sempre incompreendida - e por não ter tido balas pra impressionar o suficiente...



Desde então, não houve contato que não desse a impressão de "mantenha distância". Logo Janaina, menina sem medo, que faz o que quer, que vai e que fala. Mulher de atitude, diziam. Teria que esperar que as coisas se acalmassem, que a vida desse um jeito e que por um raio no mesmo lugar, ela tivesse uma chance. E por que não dizer, eles?

Torça, Janaína. Espere e torça.

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