segunda-feira, 25 de julho de 2016

Silent Lucidity

No meio de toda aquela confusão, você chegou.
Me trouxe um papel e me mostrou, com um brilho nos olhos e um batom vermelho, me dizendo entre lábios que agora é a hora, que finalmente podíamos ir, juntos, sorrindo e comemorando. Você estava convicta.
Sem entender muito bem, continuei caminhando pela rua. Parecia uma festa popular, ou algo assim. Até que logo cheguei a um pequeno palco de pallets, onde se apresentava um dos meus cantores preferidos. Por Deus, era ele! 
Fiquei e cantei, Palavras e Silêncios, com um gaiteiro chorador e o povo todo no arrasta-pé. Você me abraçou por trás e me beijou a nuca, enquanto permanecia imóvel, ainda sem acreditar que era mesmo aquele show.

Tudo isso, porque quando acordei, procurei por você e demorei pra entender que foi apenas um sonho. Tudo isso porque essa foi sua noite de aniversário, e nem lembrei.

Ou quase.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Drive


Com a visão encoberta, quase turva, ressurgem os erros do passado. E ainda com essa imensa vontade de mudar o curso, os planos, e a forma ousada de tratar a tudo e a todos, fica impossível evitar e não atropelar cruelmente o que insiste em tentar bloquear o caminho. Frio e impetuoso como uma máquina, o grande mal do capricórnio.

São dias difíceis estes, de se sentir como um vilão, e de quase acreditar que não há mais volta, como se fosse o fim da novela a única salvação. As decisões tomadas com cautela e exagerada lucidez tornam o dia a dia mais duro. E mesmo que em meio a natureza, tudo ainda parece cinza, seco. Uma névoa dificultando a percepção e confundindo a interpretação.

Caminhando por entre os carros, é possível sentir a vida se diluindo a cada segundo do semáforo, a cada gota de suor e de sangue que escorreu ou que ficou. Não há muito sentido, de fato, em sair. Entretanto, havia menos ainda em ficar, e por isso o sofrimento de agora é necessário. Drástica e inescrupulosamente necessário.

Subitamente, os mesmos pensamentos atormentam, esmagam, colocam tudo a perder. Mil situações que poderiam ter ocorrido, que levariam desde a prisão perpétua até a morte imediata, o simulacro em seu estado mais puro, a escolha da pílula vermelha pela azul, os flashes e a falta de exatidão dos fatos trazendo turbulência e uma disritmia profunda.

Que Deus perdoe essa imensa incoerência e arrogância. E que o amor vença, pois mesmo a pior das dores ainda não foi capaz de superar.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Ratos

Texto escrito em 15 de agosto de 2010, e estava até hoje como rascunho. Do tempo que eu era bom. Do tempo em que eu me achava bom.




Eles existem. Estão por toda parte, a sujar cada um dos ambientes com suas asquerosas patas imundas.

São, muitas vezes, imperceptíveis. Noutras, pode-se distinguir assim, só pelo cheiro. Dão nojo, estas criaturas.

Primeiro convidam-te a entrar, assim, cordialmente. "Vem comigo?", dizem, atenciosamente.
Não temos outra alternativa, nós, os de alma limpa. Aprenda a jogar e jogue, ou caia fora. Aprenda a digerir, e engula! Ou, caia fora.

Todavia tome cuidado, olhe pra frente, perceba. Você pode se apaixonar, pode cair no véu do veneno, das vestes dos vermes. E então, um abraço! Já se foi mais um.

Inalar o seu cheiro entorpecente é quase alternativa inescapável, portanto inspire, espire, deixe sair esta droga de você. Toda ela, sem fragmentos, que podem se alojar aí dentro e fazer você começar a pensar como um deles. E se não tomar mais cuidado, a parte que fica será sempre maior, e terei de dizer novamente: adeus.

Os ratos estão a dominar cada um dos cantos da rua, dos bares, dos palcos e prédios, do topo dos ares, também dos mosteiros, e de qualquer terra debaixo do céu.

Cruelmente substituem os humildes, perfuram bondosas intenções, penetram por entre os corredores de paz e perfuram as veias onde corre sangue puro, envenenam, se envenenam, e mostram sua força assim quando se unem, exalando sua impureza e espalhando a discórdia.

...

Respiro e engulo em seco. Não é possível estar em um ambiente com muitos deles, e não se sentir assim, angustiado. Vejo alguns dos poucos que eu contava ali contaminados pela excrescência da imundisse, e respiro novamente.


Agradeço por não ter aceitado o convite, e por nunca deixa-me envolver pela fumaça do lodo que envolve aquela presença estuporada.


Eu estou de fora. Ainda bem, eu caí fora.

Pensamento XVII

Escrito em Abril de 2011, em um momento de paz em meio à toda essa turbulência. Que saudade.

Quando o período é de paz, as loucuras deixam de se manifestar. Não deixam de existir, não desaparecem, mas de alguma forma não estão aqui. Vai saber.
De qualquer maneira, tem lá sua parte boa estar em paz: este é o momento de observar as loucuras que estão à volta.

A carta

Após ter passado certo tempo, de todas as confusões, os conflitos, os choques físicos e mentais, chegou a fatídica hora de fazer uma limpeza em tudo. Tudo o que ainda podia não fazer parte, ali, daquele ambiente.

Até que ela chegou àquela gaveta empoeirada e bagunçada onde ele costumava guardar todos os objetos não categorizados. Organizado, que só, aquela era sua válvula de escape.

Não havia, de fato, muitos objetos importantes. Ao abrir e sentir o cheiro, a agora então vítima do boom das distâncias do século, pôde lembrar de como foi difícil vê-lo partir com todas as suas coisas. Quase sentiu novamente a dor. Quase.

E entre umas moedas estrangeiras, comprovantes bancários e objetos de papelaria, um envelope branco padrão, sem selo ou mesmo ter sido fechado. Estando em sua propriedade, se sentiu no direito de abrir - mesmo temendo encontrar o que nunca quis de fato descobrir. E abriu...



Gostei tanto de você. Tanto, tanto. 
Pelas mais diversas e, até por muitas vezes, estranhas razões.
Gostei tanto de você que agora nem parece verdade que estou a tantas milhas de distância.
Quando olho para o alto mar sem fim, só me vem ao pensamento todo o sentimento confuso e perturbador que me trouxe até aqui. Todas as vezes em que parei em frente ao portão no meio da madrugada e, estando ou não sob efeito de todo o ópio que encontrei na noite, tive taquicardia e forcei meus ouvidos buscando sua respiração. Não por saudade, definitivamente, não. Mas sim para saber se estava ofegante ou se apenas dormia o sono dos justos. 
Sempre admirei sua justiça.
E por isso não fui capaz de lidar com seus momentos de loucura e explosão, ultimamente, não tão raros.
Confundi a paixão com amor. Troquei a admiração e o respeito por amor. E por fim, quando tudo isso já havia sido soterrado - delicada e gradualmente - pela poeira dos anos, misturei um sentimento profundo de posse e de excesso de proteção com o que, em meu mais profundo e doloroso âmago, parecia ser amor.
Ao me ver, já total e irreversivelmente imerso, só pude me entregar à solidão - esta, também com o passar e o pesar dos anos, já não mais por opção - e consumir ainda mais a perda de tudo aquilo que poderia ser bonito e cheio de calor. 
Eu perdi a mim mesmo.
Fiquei doente, perdi amigos, inimigos, quilos, bens materiais. Perdi tudo menos aquela segurança de olhar nos olhos do interlocutor e convencê-lo de que ele quer o que eu quero. 
E por isso, fugi. Não que lhe deva qualquer satisfação, no auge do meu orgulho e minha grosseria, tão feios, tão feios.
Agora, em qualquer oceano do mundo, percebo que talvez este seja o lugar mais longe que poderia estar de ti. Ainda em cima do palco, que tanto nos distanciou, porém a dezenas de milhares de milhas de distância.
Não te peço perdão pois não penso que preciso. E segundo, porque também não penso que mereço. Apenas reconheço que a culpa foi toda minha e que, como sempre fiz, saio mais uma vez sem colocar ponto final.
Não sei o que é um ponto final assim como não sei dizer o que é o amor.
E então navego em busca do que eu possa ser. Para que um dia, talvez, descubra algo ou alguém que eu possa amar. E por fim, tudo estará esclarecido.
Não importa quanto tempo leve.

P.S.: Cuide bem dela.