segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A luz

O caminho nunca deixou de ser árduo e - como gostam de dizer por aí - tortuoso. Se usar o pior sentido, fica ainda melhor.

Naquela noite, foi inevitável encarar o que a selva preparou (talvez assim, até com carinho) e receber o que já me seria de direito. Por que não?

Após a subida da montanha, por entre a mata fechada e os espinhosos galhos, a fácil decisão de que o cume era um bom ponto de descanso finalmente fez sentido. Então, contemplar uma lua minguante quase que desenhada por uma criança, de tão linda, fez as horas todas parecerem minutos. Ouvia ao fundo, porém com a clareza dos velhos discos e daquela Gradiente empoeirada, o poeta entregando-se: "...baby, Since I've Been Loving You, I'm about to lose, I'm about to lose, lose my worried mind".

Eis que surge no horizonte aquilo que traria, definitivamente, a transformação. O céu rapidamente se clareando anunciava que talvez não estivesse, assim, exatamente preparado - e quando é que, afinal, se está? - porém, não disse com todas as letras o quanto seria difícil.

Em minutos, uma luz forte, brilhante e linda, ofuscava a vista da paisagem, me transportando para uma outra atmosfera. 

Queimava. Sentia um calor intenso que começou em meu rosto e em instantes já dominava meu corpo. Os olhos abertos apenas viam a luz, e minha cabeça insistia em ouvir aquela música. Primeiro, tirei toda a roupa, minha pele ardia e meus cabelos já faziam os pensamentos se confundirem. 

Depois, quando senti que deveria, me despi completamente daqueles pensamentos do passado. Quantos sentimentos terríveis de se lidar, que sempre demandaram tanta energia - muitas vezes, possuídas por uma maldade implícita - e quantas formas de se defender e se garantir a própria sobrevivência.

Ainda sim, com aquela luz e aquele calor hostilmente mostrando a que veio, senti: é possível viver. Nu. 

E então, chorei. Soluçava como uma criança que se perdeu no parque, enquanto aquela luz me abraçava e o cheiro bom que sentia, me trazia paz. Chorei. Um choro puro como se estivesse assim, pouco a pouco, limpo. Livre, e pronto pra olhar pra frente com bons olhos. 

Toda limpeza gera dor. Mesmo a mais bonita das formas de se livrar do que parece mau. Essa dor, traz consigo, uma grande paz. Quero crer que isso é real. 

Quero ver, com bons olhos, o que irá ficar depois que a luz abaixar. 

Algo vai ficar. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A torre

Vem cá e olha essa vista, linda
Que o sol já chegou
Que o tempo chegou
E é mesmo a hora de se acalmar

Ainda que o coração não entenda
Não acredite no que a boca diz
E deixe tudo ir pra este rabisco
No guardanapo da mesa do café

Quem é que manda, afinal?

Se o mundo virou um redemoinho
Logo agora que os pés não estavam no chão
Sem querer, nos fizeram voar por aí
[até por acaso, escrevo aqui de cima, veja só]
Pra vermos as coisas todas
De outra forma

Palavras chegam sem controle
Metralhadas para que não haja tempo
Nem pra responder
Nem pra respirar
Pra não se dar o luxo de acreditar
Definitivamente

Que somos o que somos

Vem cá e ouve essa música, linda
Que daqui do alto da torre
Somos invencíveis

Que enquanto o perigo está lá fora
Trabalhando sem descanso
Arrastamos os móveis
Dançamos no meio da sala

Até que as lágrimas apareçam
E enfim reconheça-se ali
O que chamam de
Gratidão.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Let it shine


Então, no terceiro dia, acordou.

Não, não havia uma pedra fechando uma caverna. Havia, dentre tantas coisas, a janela, a varanda, e o céu que já trazia o sol pra ser sua companhia.

E havia ela. 

Ela estava lá, debaixo do mesmo cobertor e servindo de colo para que os dois, todo tortos naquele sofá, sequer percebessem que adormeceram em meio às próprias palavras.

Infinitas palavras.

Ao abrir os olhos, ousou acompanhar o movimento da luz do sol cortando os prédios e desenhando romanticamente um céu de nuvens e sombras. Tentou recuperar o último assunto da noite, sem sucesso.
Após dois, três...quatro momentos de puro êxtase na madrugada, o vento frio entrou por baixo da porta e aquele colo parecia perfeito. Sabe que adormeceram, cansados e felizes, mas foi incapaz de se lembrar onde pararam.

Talvez com a mudança no ar, eis que a rainha despertou de seu sono, e logo sorriu...
 - Dormimos!
 - E agora, como vou decidir?
 - Entre...?
 - Melhor é dormir ou acordar com você?
(Riram. Bobos de dar inveja!)
 - Deixa que eu te faço um café...

E a ouvindo fazer música de cozinha, vestiu suas roupas ali jogadas pelo chão. Olhava ainda para a varanda, imóvel, enquanto o sol ia chegando e invadindo a sala. 
Com os raios, brilharam também cabelos louros, agora segurando duas canecas de café. Preto. Forte e quase puro, como deveria ser.
Sentiram a mistura dos perfumes com o cheiro do café passado e trataram de entregar-se, um ao outro, num abraço...o sol, que agora perdia o medo, deu toda a cor para a cena mais linda de todos os romances europeus.
Ficaram então ali, sabe-se Deus por quantos minutos, olhando-se nos olhos e profundamente mergulhando, sem medo, naquilo que não conheciam.

Chico estava certo: É preciso muitos anos de cotidiano pra saber o que é a verdadeira boca de café.