segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Misto e amor

Dava pra ver. Impossível dizer que não. E não é porque sou um voyeurista, amante do exibicionismo. Mas aquilo era demais. Era pra ver.

O sábado amanheceu pra mim por volta das dez. Levantei, fiz o meu café, e calmamente segui até a janela da sala - sabe como é, quando a gente mora em apartamento pode ser melhor que a tevê - pra ver a vista. 

E eles estavam lá. Ou melhor, ali. Bem ali, na varanda. No sétimo - ou pelo menos, contei sete, antes de perder a noção do resto todo - do prédio bem a minha frente.

Queimei a boca.

Até então, estavam semi-nus. Ela era linda, pequena das coxas rijas e torneadas. Curvilínea, a mulher fazia qualquer violão quebrar as cordas de inveja apenas com aquela calcinha-shortinho-meu-deus-me-tira-daqui e um soutien, ambos brancos. 
E ele, fazia o perfil rebelde, braços tatuados e magro, mas não de academia. Até poderia descrever outros detalhes, mas para meu prazer, ela estava em sua frente.

Aos beijos, ela o abraçava com aqueles pezinhos trinta-e-quatro delicadamente levantados, enquanto ele a envolvia com uma mão em seus cabelos e a outra segurando firme naquela cintura que por si só, já chamava a atenção. A mão que passeava pela nuca, agarrava os cabelos castanho-claros daquela pequena mulher, puxando sua cabeça levemente pra trás enquanto ele arranhava o pescoço dela com aquela barba por fazer. 

E eu ali. Parado, nem fiz questão de espiar. Eu estava assistindo, e o cheiro bom do meu café já se misturava com a cena toda.

Então ele a virou, brusca e suavemente de um jeito que ela já apoiou suas pequenas mãos no corrimão da varanda, e segurou firme. Com a cabeça abaixada, se contorcia até que seus quadris se encaixassem nos dele. As mãos grandes e também tatuadas, se inverteram, a da nuca passou para a cintura, e a da cintura...desta vez, agarrou com força os cabelos dela, fez a tradicional volta do pulso, e puxou! Quase que ouvi o gemido, de que finalmente se encaixaram. Dentro. Fundo.

Naquela hora, com a cabeça levantada, pude ver o rosto lindo daquela mulher. E eis que gelei: ela abriu os olhos. Ela me viu. Eu vi. E ela viu que eu vi. Porém, antes mesmo que pudesse me sentir o maior invasor de sua privacidade, ela sorriu e se contorceu mais uma vez.

Eu era convidado. 

Começaram então um ritmo forte, profundo. Ele grande, ela pequena, apertando aquele corrimão cada vez mais forte. E a cada puxada nos cabelos eu podia ver os dentes correndo pelo pescoço delicado, e o sorriso aberto de quem está aproveitando bem a manhã de sábado.

Eis que, enfim, o êxtase. A cada movimento mais forte e mais profundo, agora com ela em pé envolvendo seus braços pelo pescoço e ombros largos do homem mais sortudo que eu podia ter conhecido hoje, um gemido mais gostoso de se ouvir. 

Pra eles, pra mim, e para o prédio todo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

3:25

Parece até que o relógio parou, naquele dia que eu cheguei mais tarde.

Sabe como é, as vezes a gente trabalha demais. E como algum poeta já disse, sofre demais, corre demais, só pra te ver, meu bem.

Eu corri. E cheguei.

Antes mesmo de colocar a cerveja na geladeira, e já escondendo nas mãos o docinho (pra fazer o velho truque de tirar detrás da tua orelha, tão bobinho, e que ainda te faz sorrir) reconheci a voz vindo das caixas de som feias e empoeiradas. 
Era ele: Frank Sinatra. O mesmo, desde aquelas primeiras noites. Desta vez, embalando seu sono, toda encaixada no sofá. 

Deve ser mesmo difícil esperar.

Entrei de mansinho, tirei os sapatos, e parei por um instante ali, de frente pra parede que você resolveu pintar naquele dia, quando acordou toda inspirada. 

Te olhei por alguns minutos, encantado pelo seu sono dos anjos, enquanto em sua volta só o que se via eram telas e os diferentes tipos de lápis todos espalhados pelo tapete.

Sentei na beirada do sofá e recolhi os desenhos silenciosamente. É, você desenha. Até nisso me perco ao falar, quando me perguntam o que me atraiu em você.

Eis que dentre todas as folhas, uma me chamou a atenção, me fazendo até derrubar as primeiras. Parecia-se mais com uma foto, de tão rica e cheia de detalhes. Cheio de alma, aquele desenho. A sua alma.
Era uma foto nossa, de alguns anos atrás. Seus cabelos mais curtos, os meus mais longos, o mesmo sorriso. Disfarçadamente escondido pelas suas mãos na minha barba, enquanto a outra envolvia meu pescoço. Era aquela foto, que eu nunca te dei, egoísta que só. 

Se eu bem te conheço desde aquele tempo, você tratou de fazer a sua. Ainda sabendo como você gosta de detalhes, o elogio: ficou impecável. 

Passei minhas mãos grandes pelo seu rosto e cabelos, e ajeitei o edredom velhinho que você tanto gosta, cobrindo seus ombros. Você sorriu, tentou dizer algo, sem sucesso. Ri o mesmo sorriso bobo da foto de tanto tempo e do desenho de minutos atrás. 

Olhei no relógio, ja eram três e vinte e cinco.

Agradeci.